Leça: um encontro imediato com o futebol moderno

11 jan, 23:50
Festa leceira (foto: Leça FC)

Geraldinos & Arquibaldos XCII

Esta noite, em Paços de Ferreira, houve gente nas bancadas e bom futebol no relvado. O que nunca houve, como esperado, foi a mínima oportunidade de «haver Taça».

Não há David que faça frente ao Golias quando, além de ter de ultrapassar três enormes patamares competitivos, tem ainda de trocar a sua casa por um estádio neutro para defrontar o campeão nacional.

Na passada eliminatória, o Leça fez história ao tornar-se neste século na primeira equipa do quarto escalão a atingir os quartos de final da Taça de Portugal. Agora, como ‘prémio’, teve o direito a receber o Sporting a 40 quilómetros de casa.

Há menos de dois meses, fez-se em Leça da Palmeira a festa pelo triunfo sobre o Gil Vicente – equipa sensação da I Liga, que terminou a primeira volta no 5.º lugar –, já depois de ali também ter sido eliminado o também primodivisionário Arouca. Em 2019, o mesmo recinto chegou e bastou para receber o Sp. Braga também para a Taça.

No entanto – e este caso é apenas o mais recente –, quando calha um grande em sorte fica a sensação de que se puxa invariavelmente dos regulamentos para decretar «jogo de alto risco».

Então, passa a verificar-se cada lâmpada dos holofotes, aponta-se quantas cadeiras faltam nas bancadas, descobrem-se problemas nos torniquetes e mede-se a distância para os muros que ladeiam o relvado.

Vai daí que o clube fica braços com uma fatura avultada (50 mil euros, neste caso, revelou o presidente leceiro) e um relógio a contar, caso faça mesmo questão de querer fazer valer o fator casa.

Com pouco tempo e muito investimento a fazer, o veredito geralmente inviabiliza as possibilidades de um clube modesto jogar no seu campo.

Em Portugal, torna-se, demasiadas vezes impraticável a possibilidade de vivenciar o tal «espírito da Taça».

Como viveu o Mensajero, clube da ilha de La Palma, que mesmo durante a erupção do vulcão Cumbre Vieja recebeu no seu campo encaixado entre as montanhas [vale a pena ver] o Saragoça, há pouco mais de um mês. Na mesma Taça do Rei em que há menos de uma semana os andaluzes do Mancha Real discutiram também num piso sintético, ao som de uma banda filarmónica, a passagem aos oitavos de final com o Athletic Bilbao.

Desengane-se, porém, quem acha que aqui se advoga o romantismo absoluto do futebol jogado num batatal e à luz de uma gambiarra.

Há contingências, de facto, e opções a tomar.

O Leça já havia sentido o aroma do futebol moderno quando juntamente com o Paredes teve de jogar a eliminatória passada da Taça às 14 horas de uma quarta-feira, dado a transmissão televisiva ter sido feita no canal da FPF. Agora, agora chocou de frente com a realidade.

Eram tempos diferentes aqueles em que a equipa de ‘Tino Bala’ e Serifo convivia com os grandes e passava no Domingo Desportivo.

Mais de duas décadas depois, o futebol foi declarado espetáculo e requer o melhor palco possível, sobretudo quando transmitido em horário nobre.

Numa lógica puramente racional, faz sentido privilegiar um milhão e meio espectadores em casa e apontar a melhor data em dia útil para encaixar no sobrelotado calendário de um grande, em detrimento da vontade de uns milhares nas bancadas, por mais estimáveis que sejam.

Lutar pela tradição da única competição põe frente a frente pequenos e grandes pode até ter o seu mérito, mas torna-se cada vez mais inglório.

Ainda assim, mais de um milhar de leceiros fizeram ontem a romaria que era sua por direito até à Mata Real, quanto mais não fosse para prestar a devida homenagem à façanha do seu clube.

Goleou o Sporting. Dado o abismo competitivo, ficou a certeza de que ganharia em qualquer campo com maior ou menor dificuldade.

Houve festa.

Quanto ao resto, é como tentar parar o vento com as mãos.

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«Geraldinos & Arquibaldos» é um espaço de crónica da autoria do jornalista Sérgio Pires. O título é inspirado pela expressão criada pelo jornalista e escritor brasileiro Nelson Rodrigues, que distinguia os adeptos do Maracanã entre o povo da geral e a burguesia da arquibancada.

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