ONU pede aos políticos líbios que afastem divisões e garantam apoio às vítimas das cheias

Agência Lusa , AM
13 set 2023, 22:55

Volker Türk lembrou que o desastre na Líbia é “mais um lembrete mortal do impacto catastrófico que uma mudança climática pode ter no mundo”

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu esta quarta-feira aos políticos da Líbia que superem as divisões e garantam o apoio às vítimas de grandes inundações, quando a primeira ajuda começa a chegar ao país.

“Este é um momento de estarmos unidos em torno de um propósito: todos os afetados devem receber ajuda, sem levar em conta qualquer filiação”, disse, citado pela agência EFE, Volker Türk, no seguimento da catástrofe que já provocou mais de cinco mil mortes só em Derna, a zona mais afetada das dezenas de cidades do nordeste da Líbia atingidas pelo ciclone Daniel no domingo, e acima de 10 mil desaparecidos, segundo números do governo oriental do país.

Para o dirigente da ONU, “é importante prestar especial atenção à proteção dos grupos vulneráveis, que correm ainda mais riscos após uma catástrofe deste tipo e os direitos humanos devem estar no centro da resposta a esta situação dolorosa”.

A Líbia sofre uma grave crise sociopolítica há mais de uma década e é o maior país de trânsito de migrantes da África Subsariana que procuram chegar à Europa através do Mediterrâneo, o que os torna vítimas de exploração tanto por parte de redes de tráfico e ainda das próprias forças de segurança.

Türk lembrou que o desastre na Líbia é “mais um lembrete mortal do impacto catastrófico que uma mudança climática pode ter no mundo” e expressou a sua solidariedade para com todos aqueles que perderam entes queridos.

A ajuda internacional começa entretanto a chegar a Derna, segundo a agência EFE, enquanto as morgues colapsam devido à chegada incessante de corpos.

O chefe do Conselho Presidencial – que exerce a função de Chefe de Estado – Mohamed al Manfi, declarou hoje que se trata de “uma catástrofe que excede as capacidades da Líbia” e insistiu na urgência da ajuda internacional, que começou a chegar progressivamente devido ao difícil acesso a este vale rodeado de montanhas, submerso e isolado, sem eletricidade nem telecomunicações.

A cidade costeira estava até agora inacessível por via terrestre depois de chuvas torrenciais provocarem o colapso de duas barragens, localizadas a poucos quilómetros de áreas habitadas, despejando 33 milhões de litros de água que varreram bairros inteiros e as quatro pontes que atravessam o rio Derna até ao mar.

O ministro da Aviação deste executivo, Hichem Chkiut, anunciou que é provável que 25% da cidade tenha desaparecido debaixo de água.

Mais de 30 mil habitantes ficaram deslocados só em Derna, revelou a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Uma das razões para o rápido colapso daqueles reservatórios poderá estar, segundo os especialistas, no mau estado das suas infraestruturas, a falta de medidas de segurança, bem como a ausência de manutenção.

As autoridades opostas no leste e oeste do país não conseguem coordenar uma estratégia conjunta, que alguns analistas descrevem como "gestão caótica", embora ambas tenham solicitado separadamente ajuda humanitária na segunda-feira e declarado três dias de luto nacional.

No entanto, o Governo de Unidade Nacional (GNU), com sede em Tripoli (oeste) e reconhecido pela comunidade internacional, enviou um avião com 14 toneladas de abastecimentos e quase uma centena de membros do pessoal médico para a zona oriental.

Além disso, na terça-feira o Conselho de Ministros aprovou um orçamento de 384 milhões de euros para a reconstrução de Bengazi e Derna e 96 milhões de euros para as vítimas nas zonas declaradas de catástrofe que também atingiu Al Bayda, Al Marj e Soussa.

Imagens divulgadas nas redes sociais mostram alguns hospitais, como o da cidade vizinha de Shiha, onde várias centenas de corpos estão amontoados no pátio exterior por falta de espaço na morgue.

A escassez de recursos obrigou socorristas e voluntários a retirar vítimas dos escombros com utensílios domésticos e a enterrá-las em valas comuns no cemitério de Martouba, a cerca de vinte quilómetros de distância.

Estas são as piores inundações que o país sofreu nas últimas quatro décadas, com chuvas torrenciais e ventos fortes que atingiram os 80 quilómetros por hora e provocaram o colapso de torres elétricas, segundo o Centro Meteorológico Nacional da Líbia.

A União Europeia anunciou hoje o envio de ajuda de emergência e alimentos para a Líbia e também Espanha e Reino Unido divulgaram os seus apoios humanitários de um e 1,1 milhões de euros respetivamente.

A Turquia vai montar no local dois hospitais de campanha e o Egito centros de acolhimento para sobreviventes, enquanto a Jordânia fretou um avião com 11 milhões de toneladas de bens para os afetados.

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