Como o homicídio de Olly expôs aos pais e à polícia o "mundo paralelo" (e perturbador) das redes sociais

21 jun, 11:29
Olly Stephens

Olly Stephens morreu em 2021, assassinado por adolescentes da mesma idade. O crime foi premeditado e planeado através de aplicações como o Instagram e o Snapchat. A família evidencia agora o papel das redes sociais no que aconteceu

Amanda e Stuart Stephens despediram-se do filho, Olly, e viram-no partir sozinho em direção a um parque nas redondezas do bairro Emmer Green, em Inglaterra. Era o último domingo após as férias de Natal e, no dia seguinte, regressaria às aulas. 

Duas horas depois, por volta das 17:00, alguém bateu à porta: um amigo do rapaz de 13 anos, a exclamar algo que Amanda não conseguiu decifrar imediatamente. "Pensei: 'Ele acabou de dizer que o Olly foi esfaqueado?'". O pai e a irmã mais velha correram para o parque e depararam-se com a terrível confirmação: Olly, prostrado no chão sobre uma poça de sangue. Família, amigos e vizinhos tentaram socorrer o rapaz até à chegada dos paramédicos, mas era demasiado tarde. O óbito foi confirmado no local. 

O adolescente tinha sido diagnosticado com autismo pouco antes de ser assassinado, e passava a maior parte do tempo no quarto a ouvir música e a jogar videojogos. Por cima da cama onde Olly já não dorme, estão agora discos de vinil, peluches e doces que a mãe ainda compra.

"Ainda procuro pelos pés dele, de manhã, na ponta da cama", diz o pai. Amanda acrescenta que ainda murmura "só vai demorar um minuto" quando aspira o quarto de Olly - algo que o filho detestava. 

O telemóvel de Olly dispunha de um localizador, que permitia a Amanda saber o paradeiro do filho. No dia do crime, o telemóvel denunciou a passagem por vários lugares: o parque onde o rapaz acabaria por ser assassinado e, depois, o hospital e a esquadra da polícia. O localizador não deu pistas sobre o crime, mas foi o telemóvel - mais especificamente, as redes sociais - que ajudaram a juntar as peças do crime e a encontrar os culpados. 

Um crime arquitetado nas redes sociais 

Na noite seguinte, os amigos da irmã mais velha partilharam capturas de ecrã obtidas nas redes sociais de Olly. A descoberta deste "mundo paralelo, em que se pode fazer e dizer o que se queira" contribuiu para o esclarecimento do contexto do crime - e do papel que as redes sociais desempenharam. 

"É um mundo que não fazíamos ideia que existia", confessa a mãe. 

O inspetor Andy Howard ficou encarregado de investigar este caso, que descreve como "sem precedentes". Nenhum dos menores envolvidos no crime teve de testemunhar: 90% das provas usadas em tribunal foram recolhidas nos dispositivos apreendidos e revelaram-se suficientes para condenar três jovens, com idades compreendidas entre os 13 e os 14 anos. "Ficámos realmente surpreendidos com a quantidade de provas digitais", afirma o inspetor. 

A realidade suburbana da cidade de Reading, em Inglaterra, em tudo contrastava com a imagem que os jovens responsáveis pelo crime mantinham nas redes sociais. Nas contas de Instagram e Snapchat, os adolescentes publicavam "aberta e regularmente" imagens de pessoas - encapuzadas ou de rosto coberto por balaclavas - a empunhar facas, bem como vídeos de vários rapazes a atacarem-se mutuamente. 

"Verifica-se, com certeza, uma atração pouco saudável pela gravação de atos de violência bastante séria", explica o inspetor Andy Howard. 

Foi um destes vídeos que gerou a sequência de acontecimentos que viriam a culminar na morte de Olly. O vídeo, publicado no Snapchat, mostrava um rapaz a sofrer uma forma de bullying denominada de "patterning" - a humilhação de um jovem, captada em fotos ou vídeos e posteriormente divulgada (e amplificada) nas redes sociais. 

Semanas antes do crime, Olly viu partilhado num grupo de Snapchat o vídeo de um rapaz a ser humilhado e decidiu informar o irmão mais velho da vítima. Os membros do grupo, ao descobrirem que Olly os tinha denunciado, decidiram orquestrar um plano de vingança. 

As intenções dos jovens estão explícitas em centenas de mensagens de voz recuperadas do Snapchat, em que gracejam "vais morrer amanhã, Olly" e combinam os detalhes do plano. Uma rapariga de 13 anos ficou encarregada de pedir cigarros ao jovem e atraí-lo ao local do crime, onde seria então confrontado com dois rapazes. A rapariga conta o plano a um amigo: "[Rapaz 1] quer que eu crie uma armadilha para depois [Rapaz 2] lhe bater e humilhá-lo [pattern]. Estou tão entusiasmada que nem conseguem compreender". Um dos jovens envolvidos no crime garante, num tom de voz frio e casual, que irá "dar-lhe murros ou esfaqueá-lo". 

As provas mostraram-se irrefutáveis. Os dois rapazes, de 13 e 14 anos, foram considerados culpados por homicídio, e a rapariga de 13 anos acusada de homicídio involuntário. 

O inspetor admite, após a análise exaustiva destas provas digitais, que as mensagens de áudio possam ser apenas o "topo de um iceberg" de violência promovida pelas redes sociais. Andy Howard argumenta que todos os adolescentes envolvidos no crime foram expostos a publicações gráficas com regularidade e que, agora, poderão estar dessensibilizados a conteúdo normalmente considerado chocante ou ofensivo. 

Estudo confirma: adolescentes são regularmente expostos a conteúdo perturbador

A repórter Marianna Spring fez deste caso o ponto de partida para uma investigação sobre a forma como as redes sociais moldam e promovem comportamentos violentos nos adolescentes.

A investigação, publicada este domingo na BBC News, exigiu a criação de uma 'persona' fictícia: um menino de 13 anos, "Sam", com uma pegada digital semelhante à de tantos adolescentes de Reading.  A conta criada pela repórter seguiu, durante duas semanas, páginas relacionadas com desporto, videojogos, carros - e, mais especificamente, páginas que se assumiam como anti-facas e que prestavam tributo a Olly Stephens. 

Durante aquele período de tempo, foram recomendadas a "Sam" publicações com conteúdo violento mais ou menos explícito, como pessoas a ostentar armas brancas e vídeos semelhantes aos encontrados nos telemóveis dos assassinos de Olly. O algoritmo do YouTube sugeriu, repetidamente, vídeos que glorificavam gangues e homicídios mediáticos, e apenas um vídeo apresentou um aviso de restrição de idade. 

Apesar da empresa Meta - que gere o Instagram e o Facebook - assegurar que limita todo o "conteúdo que vise a venda ou compra de armas brancas" a menores de 18 anos, a jornalista relata terem surgido recomendações para que o menino de 13 anos comprasse facas, navalhas e espadas na seção "loja" do Instagram. Para além da adesão a grupos entusiastas de violência, o Facebook promoveu ainda conteúdo pornográfico. 

E o que acontece se um adolescente partilhar uma dessas publicações? A resposta é "impressionante", nas palavras da jornalista: absolutamente nada. Com exceção do TikTok, nenhuma das plataformas removeu a imagem republicada por "Sam".

Alguns dos anúncios promovidos nas contas do adolescente baseavam-se nos seus interesses e na faixa etária indicada. "Isto parece surgerir que os dados dos adolescentes podem ser usados para os aliciar", escreve Marianna Spring, "mas depois não são usados para os proteger de conteúdo nocivo como facas e violência". 

A jornalista reuniu-se com seis amigos de Olly para confirmar os resultados da sua investigação. Todos os adolescentes entrevistados, três rapazes e três raparigas da mesma idade, admitiram ter usado redes sociais muito antes de completarem 13 anos, a idade mínima requerida para a criação de uma conta, sem qualquer obstáculo de verificação de idade. 

Marianna Spring mostrou várias capturas de ecrã aos jovens e nenhum dos adolescentes se mostrou chocado perante as imagens. Pelo contrário, admitiram deparar-se frequentemente com conteúdo ainda mais gráfico nas redes sociais. 

"Já vi facas maiores, para ser honesto", diz Jacob, um dos adolescentes entrevistados. 

Duas amigas de Olly explicam que a comunidade de Instagram em que estão inseridas procura "exibir" facas como forma de manter uma imagem virtual cuidadosamente planeada e com preocupações estéticas. Os canivetes borboleta são presença assídua neste tipo de publicações, talvez por serem "coloridos e mais apelativos". 

Os jovens admitem ainda testemunhar diariamente episódios de cyberbullying, incluindo os vídeos do género "patterning" que estiveram na origem da morte do amigo Olly. 

A revisão urgente da legislação

Todas as redes sociais em que o jovem tinha presença assídua expressaram as condolências à família e asseguraram o reforço das suas políticas de conduta, de modo a erradicar todo o conteúdo que "ameace, encorage ou gere violência". 

Os pais de Olly mostram-se, porém, insatisfeitos com estas respostas e exigem soluções e mudanças concretas na legislação - como, por exemplo, um mais apertado controlo de verificação de idade e restrição de conteúdo potencialmente nocivo a menores. 

A Lei de Segurança Online está atualmente a ser considerada pelo Parlamento britânico e "pretende manter as crianças e jovens seguros", assegura a Secretária de Estado Nadine Dorries. A política conservadora afirma compreender a preocupação dos pais e adianta que conteúdo legal mas que incite à violência (como facas) será em breve especificado e limitado. E avisa: as empresas que não cumprirem estas medidas sofrerão penalizações sérias. 

"Temos o poder de emitir multas de milhares de milhões de libras e de garantir que as pessoas dentro dessas organizações sejam criminalmente responsabilizadas", garante Nadine Dorries. 

A mãe de Olly, Amanda Stephens, enfatiza a necessidade da priorizar a saúde mental dos jovens em detrimento dos lucros de grupos empresariais. "Esqueçam o lucro", exigiu. "As crianças estão a matar-se umas às outras". 

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