Milhares de pessoas celebram em estádio autores de golpe de Estado no Níger

Agência Lusa , FG
6 ago, 17:42
Apoiantes golpe estado Níger(Sam Mednick/AP)

A incerteza no Níger está a piorar a vida quotidiana de cerca de 25 milhões de pessoas num dos países mais pobres do mundo. Os preços dos alimentos estão a aumentar e a Nigéria, que fornece cerca de 90% da eletricidade no Níger, cortou parte do abastecimento

Milhares de apoiantes dos militares autores do golpe de Estado no Níger juntaram-se este domingo num estádio em Niamey, a capital do país, numa demonstração de apoio popular para o regresso ao poder do presidente deposto.

Segundo a France Presse, no dia em que termina o prazo dado pela CEDEAO, uma delegação de membros da junta militar que tomou o poder, chegou ao estádio que leva 30 mil pessoas aclamados pelos populares presentes.

Terminou este domingo o prazo dado pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) à junta militar para reinstalar o Presidente nigerino, deposto em 26 de julho, Mohamed Bazoum. O prazo terminou sem que a exigência fosse cumprida, pelo que a população se prepara agora para o pior já que a CEDEAO admitiu recorrer à força, isto apesar dos recentes apelos internacionais para que a legalidade constitucional seja reposta por meios pacíficos.

No sábado, o Senado da vizinha Nigéria insurgiu-se contra o plano da CEDEAO, instando o Presidente da Nigéria, Bola Ahmed Adekunle Tinubu, que também lidera o bloco até ao final do ano, a explorar outras opções que não o uso da força. A CEDEAO ainda pode avançar, uma vez que as decisões finais são tomadas por consenso pelos Estados-membros, mas o aviso na véspera do término do prazo levantou questões sobre o destino da intervenção.

Em 26 de julho, soldados amotinados instalaram o seu líder, general Abdourahamane Tiani, como novo chefe de Estado do Níger. Enquanto Tiani pedia apoio nacional e internacional, cresce o receio de que a crise política do país possa prejudicar a luta contra os ‘jihadistas’ e aumente a influência da Rússia na África Ocidental.

O Presidente destituído do Níger, Mohamed Bazoum, disse que está a ser mantido "refém" pelos soldados amotinados e uma delegação da CEDEAO não conseguiu reunir-se com Tiani, que, segundo os analistas, liderou o golpe para evitar ser demitido. Agora, a junta pediu ajuda ao grupo Wagner e cortou os laços de segurança com a antiga potência colonizadora, França.

O golpe de Estado, aliás, observa a agência noticiosa Associated Press (AP), vem acrescentar mais uma nova camada de complexidade à região da África Ocidental, que se debate com a tomada de poder pelos militares, como Mali, Guiné-Conacri e Burkina Faso, o extremismo islâmico e uma mudança de atitude de alguns Estados em relação à Rússia e ao seu representante, o grupo mercenário Wagner.

A intentona é um rude golpe para os Estados Unidos e aliados que viam o Níger como o último grande parceiro antiterrorista no Sahel, uma vasta área a sul do deserto do Saara onde os ‘jihadistas’ ligados à Al-Qaida e ao grupo Estado Islâmico (EI) têm vindo a expandir o seu raio de ação e a ameaçar Estados costeiros como o Benim, o Gana e o Togo.

Os Estados Unidos, a França e os países europeus injetaram centenas de milhões de dólares de assistência militar no Níger. A França tem 1.500 soldados no país, embora o seu destino esteja agora em causa. Os EUA também têm 1.100 militares no Níger, onde operam uma importante base de ‘drones’ (aparelhos voadores não tripulados) na cidade de Agadez.

Embora os líderes golpistas do Níger tenham afirmado que agiram devido à crescente insegurança, os incidentes de conflito diminuíram quase 40% no país em comparação com o semestre anterior, de acordo com o projeto Armed Conflict Location and Event Data. Tal contrasta com o aumento dos ataques no Mali, que expulsou as forças francesas e se associou aos mercenários do grupo Wagner, e no Burkina Faso, que também se livrou das forças francesas.

A incerteza no Níger está a piorar a vida quotidiana de cerca de 25 milhões de pessoas num dos países mais pobres do mundo. Os preços dos alimentos estão a aumentar depois de a CEDEAO ter imposto sanções económicas e de viagem na sequência do golpe de Estado. A Nigéria, que fornece cerca de 90% da eletricidade no Níger, cortou parte do abastecimento.

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