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Afrontamentos em público? Não, obrigada! “Ninguém nos prepara para a menopausa”

CNN Portugal , ARC
14 mai 2023, 10:30
Mulher com ondas de calor na menopausa (Noam Galai/Getty Images)

“Estás a ficar velha”; "Estás acabada". O estigma face à menopausa permanece e as mulheres retraem-se e receiam ter as chamadas "ondas de calor" em público. Mesmo com a atriz norte-americana Drew Barrymore a vivenciar um afrontamento em direto no seu programa de televisão o assunto ainda é embaraçoso. Beber líquidos e evitar o café podem ser bons aliados para quem está nesta fase da vida

Estava numa reunião de trabalho, quando sentiu uma palpitação muito forte e o coração acelerado. O calor começou a acumular-se na cara, no pescoço, no peito e nas mãos. O suor escorregava pelas costas. A sensação prolongou-se por três longos minutos como “labaredas de fogo” que dominavam o corpo. Lentamente a chama começou a gelar.
 
Cláudia Cristina, uma engenheira de 49 anos, sabia que estava a ter um afrontamento, resultado da menopausa que estava a viver. “Senti frustração porque não tenho um interruptor on/off”, recorda à CNN Portugal, garantindo que se sucederam sensações desagradáveis. “Parecia que o cérebro ia colapsar mas tive de me manter firme”.

Os afrontamentos são um dos principais sintomas da menopausa, atingindo a maioria das mulheres que estão nesta fase. “Podem surgir mais de 10 vezes por dia”, esclarece a ginecologista e obstetra Irina Ramilo.  E podem ocorrer no trabalho, num supermercado ou até no meio da rua. 
 
Uma vivência que pode ser traumatizante, avisa Cristina Mesquita de Oliveira, fundadora da Comunidade de Saúde em Menopausa Movimento Menopausa Divertida Portugal e da VIDAs Associação Portuguesa de Menopausa. Muitas mulheres, garante, sentem vergonha “por estarem sujeitas ao juízo externo” e ouvirem frases como: “Estás a ficar velha”, “Estás acabada”, “Vais deixar de ser interessante”, “Já não prestas para trabalhar, para ser esposa, para ser mãe”.
 
Muitas vezes a situação é “estigmatizante ao ponto de se retirarem da vida social”, conta Cristina Mesquita de Oliveira.  “As mulheres não conseguem fazer de conta que não estão vermelhas e a suar”, explica a autora do livro “Descomplicar a Menopausa”. Por serem “o mais visível e o menos disfarçável” dos sintomas, os afrontamentos são o “principal estigma”. Por isso, o refúgio em casa é, para muitas mulheres, a solução. Dentro de quatro paredes são só elas e os afrontamentos. A vergonha evapora-se.

Recentemente, a atriz norte-americana Drew Barrymore vivenciou a primeira onda de calor em direto no talk-show que conduz. “Estou com tanto calor. Acho que acabei de ter a minha primeira onda de calor da perimenopausa. Uau!”, reagiu a apresentadora enquanto entrevistava Jennifer Aniston e Adam Sandler.

Drew Barrymore assumiu o afrontamento com honestidade e brincou com o assunto: “Tive o meu primeiro afrontamento da pré-menopausa ou fiquei muito excitada por ver a Jennifer Aniston e o Adam Sandler", escreveu nas redes sociais.

Apesar de a reação de Drew Barrymore representar um passo para normalizar a exposição dos afrontamentos da menopausa, o “estigma permanece para a maioria das mulheres”, conta Cristina Mesquita de Oliveira. Passo a passo, a presidente da VIDAs nota uma maior perceção e entendimento das mulheres face ao que o corpo é exposto nesta fase, mas a normalização total ainda é “uma realidade longínqua”.

Para o tema deixar de ser “atirado para debaixo do tapete”, “é preciso falar” e combater a “falta de informação” que subsiste. “Ninguém nos prepara para a menopausa”, afirma. A fundadora da VIDAs fala num “assunto tabu para a classe médica” e numa falta de preparação e de proatividade dos profissionais. Já Cláudia Cristina, que está a passar pela menopausa, embora descarte o “tabu”, refere que está em causa “um tema mal explicado e que requer mais atenção”.
 
“Quanto mais se falar sobre a menopausa, mais normalizada será tal como a menstruação ou a gravidez”, conclui Cristina Mesquita de Oliveira.

Porque temos ondas de calor?

Foi depois de pesquisar muito sobre o tema que Cláudia Cristina conseguiu lidar melhor com a situação que estava a viver.  O tempo trouxe a compreensão, mas não aliviou o processo. “É muito intenso”, diz, explicando que começou a sentir os primeiros sintomas aos 47 anos.

Era de noite. O pijama ficou encharcado. Confundiu este primeiro afrontamento noturno com febre ou ansiedade. Mas depois deste, muitos outros já se apoderaram do corpo da engenheira.
 
Ondas de calor, afrontamentos, fogachos - três designações para a espiral de calor, suor e palpitações, as imprevisíveis e novas companheiras da maioria das mulheres que entram na perimenopausa, período de transição entre a idade fértil e a menopausa.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a par das irregularidades menstruais, os calores são o sintoma mais frequente da menopausa. Esta fase da vida feminina é atingida, em média, entre os 45 e os 55 anos, diz a organização. 

Durante cerca de dois a cinco minutos, uma sensação súbita de calor apodera-se do corpo feminino, que rapidamente faz incendiar a parte superior e se espalha pelo tronco. A cara enrubesce e o suor escorrega. Ocasionalmente, também ocorrem palpitações, por vezes seguidas de calafrios, tremores e ansiedade.
 
Os afrontamentos são, por isso, sintomas vasomotores. Mas porque acontecem? “Embora pareça ser multifatorial, a fisiopatologia dos sintomas vasomotores não se encontra totalmente esclarecida”, explica a ginecologista Irina Ramilo. Ainda assim, acrescenta, parece haver “uma associação estabelecida com a disfunção do centro termorregulador hipotalâmico”, a zona do cérebro responsável por assegurar, entre outros, a regulação da temperatura do corpo.
 
A especialista enumera uma lista de fatores de risco associados às ondas de calor: “Menopausa precoce ou cirúrgica, raça negra ou etnia hispânica, obesidade, depressão, ansiedade, tabagismo, stress pós-traumático, antecedentes de agressão sexual ou de violência doméstica”.

Quanto à alimentação e ao consumo de álcool, a médica refere que, embora “possam eventualmente diminuir as queixas de sintomas vasomotores na menopausa”, uma nutrição equilibrada e a diminuição de bebidas alcoólicas não desencadeiam ou aumentam a sintomatologia.

Com os sintomas vasomotores como manifestações, Irina Ramilo sublinha a importância de “um ginecologista apostar na saúde de uma mulher menopáusica, já que a redução da produção de estrogénios pode influenciar a sua qualidade de vida e a função sexual de modo preponderante”.

Sofre de afrontamentos e não sabe o que fazer? Informe-se e alivie-se aqui

Imprevisíveis, intensas e desconfortáveis. Assim são as ondas de calor provocadas pela entrada na menopausa. Mas há truques que pode adotar para aliviar o sintoma.
 
A ginecologista e obstetra Irina Ramilo explica:
 
1. Vista-se por camadas
2. Evite golas altas
3. Evite beber café
4. Beba líquidos frescos
5. Opte por uma alimentação saudável
6. Pratique desporto
 
Para além destes truques, a médica refere a possibilidade de fazer terapêutica hormonal. Contudo, esta prática “não é abordada” em consulta, conta, devido ao “receio” tanto por parte das mulheres como dos clínicos, associado ao cancro da mama.

Medicamento não hormonal para sintomas da menopausa está a ser testado em Portugal

Se não há muitas adeptas da terapêutica hormonal, o cenário pode estar prestes a mudar. Um medicamento sem hormonas está a ser desenvolvido e pode superar os já existentes em nível de adesão e sucesso.
 
“É a primeira vez que um medicamento está a ser testado em Portugal”, adianta Cristina Mesquita de Oliveira, responsável pela VIDAs Associação Portuguesa de Menopausa, referindo-se ao elinzanetant.
 
Envolvida no processo, Cristina Mesquita de Oliveira considera que o novo fármaco pode vir a ter sucesso e a levar mais pessoas a medicar-se por não ter hormonas na composição. Mulheres que tiveram tumores na mama ou que não possam ou não queiram tratamentos hormonais passam a ter uma alternativa.
 
Um outro tratamento, que tem por base fezolinetant, está em fase mais adiantada, mas não foi testado na população portuguesa. Trata-se de uma substância para combater sintomas vasomotores moderados a grave. De acordo com a ginecologista Irina Ramilo, funciona como “um antagonista dos receptores da neuroquinina 3”. Quer isto dizer que o fármaco atua num neurónio responsável pela regulação da temperatura do corpo.
 
O medicamento, que está a ser estudado, pode ser “uma alternativa não hormonal”, principalmente para mulheres “com antecedentes de cancro da mama”,  refere ainda a especialista, alertando para a necessidade de existirem “mais estudos e investigação para verificar o benefício na qualidade de vida”, incluindo as repercussões no humor e no bem-estar sexual.
 
Os tratamentos existentes no mercado contêm hormonas na composição para repor os níveis de estrogénio, que baixam com a entrada na perimenopausa. São, indica a ginecologista, medicamente recomendados para aliviar “os sintomas e os efeitos físicos da deficiência de estrogénios, como os sintomas vasomotores moderados a graves”, com a capacidade de os reduzir em 75%.
 
No entanto, a adesão não é massiva devido à associação feita ao cancro da mama. “São os grandes responsáveis pelo aumento do risco de cancro da mama”, alerta Irina. “Em cerca de oito novos casos de cancro da mama por 10.000 mulheres”, acrescenta.

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