É perigoso tomar Ben-u-ron fora do prazo? E um antibiótico? Devemos guardar os medicamentos na casa de banho? Os riscos e os conselhos para medicamentos que passaram da data ou que podem estar estragados

19 nov, 18:50
Antiviral (Getty Images)

Um bom armazenamento faz toda a diferença na qualidade e segurança dos medicamentos. Se os seus estiverem fora de prazo, saiba o que deve fazer

Já lhe aconteceu ir buscar um xarope ou um comprimido de que precisa e reparar que, afinal, está fora da validade? É algo relativamente comum, até porque muitos dos medicamentos que compramos não são de utilização regular, o que faz com que possam ficar esquecidos no fundo de um armário antes de os utilizar outra vez.

Perante uma maior escassez de medicamentos nas farmácias e o aumento do custo destes produtos, também associado a uma subida do custo de vida, é importante perceber quais as melhores formas de gerir esta situação, evitando eventuais riscos para a saúde, ao mesmo tempo que se poupa na carteira.

Apesar de não haver uma resposta certa para a questão de quanto tempo podem durar, é sabido que todos os medicamentos, mais tarde ou mais cedo, se deterioram. Para isso existe o prazo de validade que pode ser consultado nas embalagens, e que é definido pelas farmacêuticas como uma data de segurança além da qual é altamente desaconselhável tomar aquele fármaco. É que, se em alguns casos, o pior que pode acontecer é uma perda da eficácia do remédio, outros há em que, por uma via da alteração química do composto, pode haver toxicidade para quem o toma.

A Administração de Medicamentos e Alimentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla original), destaca que, para lá da perda da eficácia, alguns medicamentos podem desenvolver complicações graves para os doentes. Aquela agência norte-americana dá o exemplo dos antibióticos, que se sabe que podem desenvolver bactérias perigosas caso se deteriorem, levando a outras doenças, ou até a uma resistência ao antibiótico.

Uns medicamentos mais do que outros

Um estudo publicado na biblioteca dos Institutos de Saúde dos Estados Unidos, e que aborda "o mito e a realidade" em torno dos prazos de validade dos medicamentos, refere que muitas análises já concluíram que remédios ou comprimidos, mesmo que fora da validade, podem continuar a ser eficazes. A verdade, como lembram os investigadores desse estudo, é que o medicamento começa a perder eficácia logo a partir do momento em que é embalado, bem antes de chegar às nossas casas.

Só que, apesar disso, vários estudos já provaram que há medicamentos que continuam não apenas seguros, mas também eficazes após o prazo de validade. Às vezes até dez anos após essa data. Ainda assim, os investigadores fazem uma ressalva: nitroglicerina, insulina ou antibióticos em forma líquida são exceção. Estes são medicamentos que não se devem mesmo tomar após o prazo de validade, sob pena de se desenvolverem outras complicações.

"A perda de potência pode ser um problema de saúde grave, especialmente quando se trata uma infeção com antibióticos. Além disso, a resistência a antibióticos pode ocorrer com medicamentos menos eficazes", refere o mesmo estudo.

A diretora da Unidade de Avaliação Científica do Infarmed, Fátima Ventura, refere à CNN Portugal que os efeitos adversos que podem ser causados por medicamentos fora do prazo de validade podem ser diversos. Pode dar-se o caso de não acontecer nada, mas o simples facto de o medicamento deixar de ter eficácia já é, por si só, um fator que os especialistas consideram adverso. No entanto, esse mesmos efeitos adversos podem evoluir para complicações mais graves: reações alérgicas, vómitos, mal-estar ou até, em certos casos, aparecimento de cancro, ainda que seja uma hipótese remota.

"Imaginemos que tomamos um medicamento em que uma das impurezas dão origem a cancro. Se o medicamento passar aquele tempo de validade, se for um medicamento de uso crónico, podemos correr o risco de desenvolver um cancro daí a uns anos", explica, referindo que as farmacêuticas são obrigadas, perante os reguladores, a apresentar um relatório de todas as impurezas que podem surgir durante o tempo de vida dos medicamentos.

Sobre a existência de medicamentos mais tóxicos que outros, Fátima Ventura admite que substâncias como insulina, antibióticos, medicamentos biológicos ou aqueles que servem para tratar doenças autoimunes podem ser mais suscetíveis de produzir efeitos secundários caso fiquem fora do prazo.

"Isso nota-se na forma como os conservamos. Se conservamos um medicamento no frigorífico, logo à partida já sabemos que é mais sensível", diz, lembrando que a insulina, por exemplo, deve ser guardada no frigorífico enquanto estiver a ser utilizada.

No fundo, não é possível saber ao certo que medicamentos são ou não seguros após o prazo de validade. Em todo o caso, os especialistas explicam qual a melhor forma de proceder.

O prazo de validade é "lei"

O bastonário da Ordem dos Farmacêuticos não tem dúvidas: o melhor é mesmo deitar o medicamento fora caso já tenha passado do prazo de validade. Em declarações à CNN Portugal, Hélder Mota Filipe explica que “um xarope ou um comprimido não ficam estragados de um dia para o outro”, mas que aquela data é a melhor forma de se perceber como agir.

“A regra é não utilizar os medicamentos fora do prazo de validade. Obviamente que este critério de prazo de validade não significa que num dia está bom e no outro passa a não estar”, afirma, garantindo que alguns dias após o prazo de validade o medicamento continua a estar bom, desde que não se verifiquem alterações na cor, cheiro ou consistência.

Fátima Ventura sublinha que o prazo de validade é sinónimo de garantia dos três fatores essenciais dos medicamentos: qualidade, eficácia e segurança. Para lá desse tempo torna-se incerto o que pode acontecer. "Sabemos que nesse período o medicamento cumpre o estabelecido. Se passar daquele tempo não temos dados, não sabemos o que acontece. Por isso é que as embalagens têm datas", afirma, lembrando que a data do mês indicado no prazo de validade se refere ao último dia desse mesmo mês.

"O prazo de validade é sempre com dados de ensaios e nas condições de conservação que foram feitos", acrescenta, mencionando que um medicamento que foi testado para ser armazenado a 25 graus não deve ser mantido a 30 graus. Não quer dizer que se vá estragar, mas não existe uma norma de segurança que ateste isso, pelo que o mais seguro é seguir as indicações.

Hélder Mota Filipe nota que, quanto maior for a distância do prazo de validade maior será a probabilidade de uma perda de características, ao mesmo tempo que podem surgir outras eventualmente nocivas para a saúde do doente.

A insulina é um dos medicamentos que se pode estragar com mais facilidade (Joan Slatkin/Getty Images)

Esse espaço de dias é muito difícil de definir, vinca Hélder Mota Filipe, que diz ser muito difícil dar um prazo de segurança para lá do prazo de validade, ainda que “uma semana ou duas” após essa data não deva ter relevância.

Sobre a diferença de segurança entre medicamentos, diz o farmacêutico que é muito complicado prever os eventuais efeitos que diferentes compostos podem ter. É difícil saber, por exemplo, se há mais riscos associados a um Ben-u-ron fora do prazo ou a um qualquer derivado da penicilina.

“O prazo de validade é feito com os estudos de estabilidade, que têm uma tecnologia própria para acelerar o tempo, provocando a degradação e prevendo durante quanto tempo um medicamento consegue aguentar as características aceitáveis”, destaca o bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, que refere que é por isso que existem medicamentos com prazos de validade tão díspares.

Isso só tem impacto nos prazos de validade, mas a degradação depende de vários fatores. No caso deste cenário podemos estar apenas perante uma perda de eficácia, o que “já é grave”, nota Hélder Mota Filipe, que lembra que, nesse caso, o medicamento não vai tratar a doença como pretendido.

“Esse pode ser só um problema. Mas muitas vezes os produtos de degradação são eles próprios tóxicos”, acrescenta, concluindo que “o prazo de validade é lei”.

Fátima Ventura lembra que os prazos de validade são definidos pelas farmacêuticas que produzem os medicamentos de acordo com vários testes. O objetivo é verificar se aparecem impurezas ou se a substância ativa desaparece, o que dá origem à perda de eficácia. É no teste de estabilidade que se vai definir, por exemplo, a temperatura a que os produtos devem ser guardados.

No caso das vacinas contra a covid-19, exemplifica a especialista, começou por se testar a uma conservação de 80 graus negativos, até passar para a temperatura de frigorífico, e depois para a temperatura ambiente.

"Dependendo da natureza do medicamento são estabelecidas as condições para os ensaios. Para um comprimido, por exemplo, fazem ensaios a 20/25 graus, depois fazem outros a 40, por exemplo. Aí estabelecemos que a temperatura recomendada são os 25 graus, e que a 40 também se manteve tudo bem", explica, referindo que estes mesmos ensaios também acompanham diferentes períodos de tempo, que, normalmente, vão desde poucos meses até cinco anos. É a partir daí que se vão definir prazos de validade e condições de armazenamento, depois de se retirarem amostras e se verificar como reagem os medicamentos.

E existe ainda outra questão importante, que, segundo Fátima Ventura, nem sempre é tida em conta. O prazo de validade do medicamento que vem inscrito no folheto informativo diz respeito à validade desse medicamento fechado. Isto é, um medicamento aberto terá uma nova validade, normalmente indicada no mesmo folheto. Dando o exemplo concreto do Ben-u-ron em xarope para crianças, a especialista do Infarmed refere que o prazo de validade é de três anos. Só que, caso esse xarope seja aberto, essa validade desce automaticamente para um ano. O conselho da profissional é que as pessoas escrevam na embalagem a data de abertura, para que assim se saiba sempre o prazo de validade.

É algo que acontece muito, refere a especialista, com as gotas que se colocam nos olhos. São, geralmente, produtos com pouca validade, o que faz com que, quando são utilizados novamente, já tenham passado do prazo.

Refira-se ainda que, caso precise de um determinado medicamento que não tem em casa, pode sempre consultar a Linha 1400, um portal que ajuda a perceber qual a farmácia mais perto de si a qualquer hora, bem como onde está disponível o remédio ou comprimido de que precisa.

A diferença de um bom armazenamento

A segurança e eficácia de um medicamento que esteja fora da validade também depende de outro fator importante e que apenas o paciente pode controlar: a condição de armazenamento. Explica Hélder Mota Filipe que será sempre diferente se um medicamento estiver num local seco e sem luz do que se estiver exposto à luz solar e em ambiente húmido. Nesse caso, e mesmo que não esteja ultrapassado o prazo de validade, podem surgir as tais alterações organolépticas, que se verificam numa mudança da cor, do cheiro ou da consistência. É o que acontece, por exemplo, com comprimidos que se dissolvem quando os tiramos da embalagem. Nesse caso, o melhor é deitar fora a caixa, mesmo que o prazo de validade não tenha sido ultrapassado.

“O mesmo medicamento comporta-se de forma diferente consoante o armazenamento”, lembra, ressalvando que, mesmo que essas características organolépticas não sejam alteradas, e caso o medicamento esteja fora do prazo, o melhor é mesmo não o consumir, porque “ninguém consegue assegurar como o medicamento se comporta”.

O mais importante, diz Fátima Ventura, é verificar sempre as regras referidas no folheto informativo do medicamento. Há produtos que não necessitam de condições especiais de conservação, o que significa que podem ser conservados a qualquer temperatura. Mas há outros que dizem, por exemplo, "manter dentro da caixa". Isso significa que uma exposição à luz pode trazer as tais impurezas ou danificar a substância ativa.

"Esse tempo e essas condições foram estudadas pela empresa que desenvolveu o medicamento e têm de ser seguidas, porque só para essas é que há dados que suportam essas indicações", afirma.

O problema está no facto de algumas condições de armazenamento não terem sido estudadas. Se um medicamento deve ser armazenado até 25 graus, isso quer dizer que a farmacêutica não pode garantir de que o mesmo funcionará a 30 graus, por exemplo. E o mesmo é ainda mais válido para medicamentos cuja indicação refere que não devem ser retirados da caixa. Fátima Ventura dá o exemplo das pessoas que necessitam de tomar muitos medicamentos e que, muitas vezes, transportam os remédios em pequenas caixas. Há certos comprimidos ou xaropes que devem ser mantidos dentro da caixa.

Na prática, isso significa que, no caso de um comprimido que tenha essa indicação, e caso seja retirado do blíster (local onde os comprimidos estão guardados dentro da caixa), esse comprimido já não estará nas condições em que foi testado, ocorrendo maior risco da sua degradação.

"Se a pessoa não cumpriu as condições de conservação indicadas, o prazo já não é válido, já é um risco", conclui.

É que, além de fatores como temperatura ou humidade, o próprio lote pode ter prazos diferentes, estando a segurança sempre associada à data indicada no prazo de validade.

Por isso mesmo, e segundo o supracitado estudo publicado na biblioteca dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, é referido que, ao contrário do que muitos fazem, a casa de banho pode não ser o melhor local para guardar medicamentos. Isto porque é uma zona onde é utilizada muita água, nomeadamente para o banho, o que causa um acumular de humidade superior ao recomendado, além de ser constante. É ainda um local que pode ter uma maior exposição solar, e é por essa mesma razão que também é altamente desaconselhável deixar medicamentos num carro aquecido ou que esteja ao sol.

"A casa de banho não é um bom sítio por causa da humidade. No caso de um comprimido, absorve humidade, e a água também faz desaparecer a substância ativa e aparecer impurezas", explica Fátima Ventura, aconselhando a que os medicamentos sejam guardados num armário na sala ou na dispensa, desde que fora do alcance das crianças e sem exposição à luz solar.

Um local apropriado, segundo o mesmo estudo já referido, poderá ser o frigorífico, desde que o medicamento seja mantido numa zona onde não esteja em contacto com humidade. Neste caso, diz Fátima Ventura, o medicamento deve regressar à temperatura ambiente antes de ser administrado. Há ainda outros casos, lembra a especialista, de medicamentos que não devem ser guardados no frigorífico, sendo que, mais uma vez, essa indicação deve estar no folheto informativo.

E se tiver tomado o medicamento fora do prazo?

Foi o que aconteceu “uma ou duas vezes” a pacientes de Fernando Delgado, médico especialista em Medicina Geral e Familiar que, em conversa com a CNN Portugal, aconselha todas as pessoas que percebam que tomaram medicamentos fora do prazo de validade a ficarem atentas a eventuais sintomas adversos, nomeadamente reações alérgicas, como aconteceu nos dois casos que analisou no seu consultório.

"Já tive casos deste género, pessoas que têm reações alérgicas ou vómitos", conta.

O médico entende que as pessoas começam a ter uma melhor mentalidade na forma de gerir os produtos que têm fora do prazo, até porque "há medicação que, quando fora de prazo, se torna um veneno".

Hélder Mota Filipe destaca que cada caso é diferente consoante o tempo que tenha passado para lá da validade, devendo o utente e o profissional de saúde, se for necessário, analisar caso a caso. O bastonário da Ordem dos Farmacêuticos diz que “ninguém deve ficar assustado se tomar o medicamento pouco tempo após o prazo de validade”. No cenário de ter passado mais tempo, o especialista aconselha o doente a ficar atento a eventuais efeitos secundários ou sintomas novos, podendo ainda ser aconselhado por um médico ou por um farmacêutico sobre a forma como deve proceder.

Como podemos gerir a "nossa farmácia"?

O melhor, dizem os especialistas, é não entrar numa lógica de açambarcamento. Hélder Mota Filipe diz que essa é uma das principais causas da falta de medicamentos nas farmácias, aconselhando casos como os de doentes crónicos a gerirem a forma como adquirem os produtos.

“Estas pessoas não devem deixar chegar o medicamento ao fim para renovarem a prescrição, para terem alguma margem de segurança, mas não devem açambarcar”, nota, dizendo que “gerir a terapêutica adequadamente é uma boa atitude”.

Fernando Delgado concorda, referindo que muitos doentes, quando lhes é passada uma receita para vários meses, têm a tendência de adquirir os produtos todos de uma vez, arriscando assim a que algumas das caixas fiquem no armário mais tempo do que o necessário, o que pode levar a um maior risco da perda da validade.

"Há muita gente que tem o hábito de chegar e comprar logo os medicamentos todos sem perceberem a validade da receita", refere, lembrando que também deve partir do farmacêutico esse aviso ao doente, ajudando-o a fazer essa melhor gestão.

O que fazer aos medicamentos fora do prazo?

Em Portugal existe a ValorMed, uma entidade sem fins lucrativos que se destina à recolha de medicamentos fora de prazo. É para aqui que vão estes remédios e comprimidos, que, como diz Hélder Mota Filipe, passam a ser um resíduo após o prazo de validade.

“A partir do momento em que o medicamento passou o prazo de validade não serve para ninguém, porque passou a ser um resíduo”, afirma. E isso significa que os eventuais efeitos negativos podem ir muito para lá da saúde humana, afetando até animais ou o meio ambiente.

Diz o farmacêutico que os doentes devem, assim, entregar os medicamentos que tenham fora de prazo nas farmácias, onde o produto vai ser tratado da forma devida, passando para a ValorMed, que vai dar o tratamento necessário, dependendo de cada medicamento.

“Nunca se deve enviar medicamentos para a sanita ou para o lixo comum”, vinca Hélder Mota Filipe, acrescentando que isso pode ser prejudicial para os seres humanos, mas também para os animais ou para o meio ambiente.

De resto, como refere o especialista, alguns medicamentos podem ter um forte impacto ambiental, consoante as substâncias ativas. Um exemplo elucidativo surge em artigos científicos em que se verificou uma tendência na mudança de sexo dos peixes de determinados rios, passando a existir muitos mais animais do sexo feminino.

Os estudos realizados permitiram concluir que isso se deveu a uma grande presença de contraceptivos orais femininos, como é o caso da pílula, que acaba por levar a uma grande concentração hormonal, nestes casos nos rios, levando a uma alteração no género dos peixes.

Hélder Mota Filipe refere-se a estudos como o do investigador Charles Tyler, da Universidade de Exeter, que publicou vários artigos científicos relacionados com o efeito da presença de medicamentos nas águas. Numa das publicações, de 2015, disponível na Biblioteca Nacional de Medicina do Reino Unido, o professor descreve as consequências de casos semelhantes numa população de carpas, concluindo que “a exposição ambiental a resíduos de estrogénio induz respostas femininas em peixes machos”.

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