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"Vamos estar sob a lupa da NATO quando Lula vier a Portugal." Mas: "Portugal desconvidar Lula é impossível"

17 abr 2023, 22:00
Marcelo Rebelo de Sousa e Lula da Silva (Eraldo Peres/AP)

Presidente do Brasil coloca Portugal entre os culpados pela guerra na Ucrânia e equipara as responsabilidades de Zelensky às de Putin por ainda haver guerra. São declarações que surgem nas vésperas de Lula ir ao Parlamento português no 25 de Abril. E isso está a tornar-se um problema grande - mesmo apesar de o Governo liderado por António Costa dizer que "não há embaraço nenhum" no que se está a passar

"Já não dá para desconvidar Lula da Silva" da visita a Portugal: para a investigadora de Relações Internacionais Diana Soller, as declarações do presidente do Brasil sobre a guerra na Ucrânia são um caso "muito complicado para Portugal". Se de um lado está um aliado histórico e de grande peso económico - o Brasil -, do outro está toda a base da política externa portuguesa - que apoia a Ucrânia tanto diplomaticamente como no envio de material bélico. E estas declarações de Lula num momento em que se preparar para ir ao Parlamento português, que aplaudiu de pé Zelensky (menos pelo PCP, que não foi à sessão) podem fragilizar Portugal na maneira como a UE se posiciona perante a guerra. O major-general Isidro de Morais Pereira vê como quase inevitável que isso aconteça: "Portugal, que tem uma pedra no sapato, pode passar a ter um pedregulho caso as declarações [de Lula da Silva] não sejam devidamente controladas".

Diana Soller lembra que “os grandes avanços antiucranianos aconteceram nos últimos dias e o presidente brasileiro já estava convidado para vir a Portugal”. A investigadora que se trata de "timing complicado" este o de Lula - que considera que "os Estados Unidos devem parar de encorajar a guerra”, que “a União Europeia deve começar a falar de paz", que Zelensky deve estar preparado para ceder território que a Rússia queira. A assertividade de Lula não é tão grande quando se refere ao lado russo, nomeadamente a Vladimir Putin.

Posto tudo isto,  "Portugal tem de receber um chefe de Estado que se posiciona do lado oposto" no que à visão da guerra diz respeito, sublinha Diana Soller. Por outro, as mais recentes declarações de Lula da Silva em relação à Europa têm sido "muito negativas". "Um chefe de Estado não pode dizer o que quer e esperar que isso não tenha consequências", diz a investigadora, que acusa Lula da Silva de desrespeitar o Direito Internacional e a moralidade política para atingir os seus objetivos enquanto presidente do Brasil - tornar-se a potência regional da América Latina, "na órbita e com o apoio da China" ao mesmo tempo que "contribui ativamente para o declínio dos Estados Unidos".

Mas, como lembra a comentadora da CNN Portugal Helena Ferro Gouveia, Portugal e Brasil têm relações especiais em diferentes âmbitos: ligação histórica, existência de comunidade portuguesa, ligação económica e importância geoestratégica. Uma relação que é “vital para Portugal”, pelo que esta visita teria sempre um cariz diferente de qualquer outra. Por isso: "Retirar o convite seria uma grande deselegância e ia criar mais celeuma e acicatar ainda mais a situação. Devia ter havido no momento do convite alguma ponderação", afirma, vincando que "desconvidar um presidente seria impossível".

A comentadora da CNN Portugal Sónia Sénica também não esquece o "legado histórico entre os dois países", que deve continuar a ser gerido com "bastante cautela", ressalvando-se um denominador comum: a paz, mesmo que não alcançada pelas mesmas vias, naquele que é um posicionamento "mais de pacificador do que mediador". "Nós estamos a tentar construir um grupo de países que não tenham nenhum envolvimento com a guerra, que não querem a guerra e que desejam a paz no mundo - para conversar tanto com a Rússia quanto com a Ucrânia", disse Lula da Silva.

Ainda assim, e apesar do problema que todo o caso pode causar a Portugal, Diana Soller vê como legítima uma estratégia de Lula da Silva para "revitalizar o Brasil no sistema internacional", mesmo que isso seja feito numa dimensão económica em que há maior dependência das relações com a Rússia e com a China. De resto, Lula da Silva, que recentemente esteve na China, parece dirigir uma clara aposta na expansão da influência dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Sob a lupa da NATO

O problema é que Portugal, que defende o lado ucraniano, vai receber um país que tem outra visão. Portugal, como membro fundador da NATO, pensa tal e qual como os outros Estados-membros - o que está a acontecer na Ucrânia foi unilateralmente provocado pela Rússia numa guerra “ilegal”. Lula da Silva não pensa assim: “O presidente Putin não toma a iniciativa de parar. Zelensky não toma a iniciativa de parar a guerra”, disse, sugerindo mesmo que a Ucrânia ceda parte do seu território para que se chegue à paz, algo que Kiev já disse que nunca fará.

Para o major-general Isidro de Morais Pereira, os aliados da NATO vão olhar para esta visita com muita atenção. “Vamos estar sob a lupa”, afirma o comentador da CNN Portugal, que prevê uma reação ocidental semelhante ao que tem acontecido com várias posições da Hungria, que, apesar de pertencer à NATO, tem estado relutante em condenar de forma clara a invasão russa, agindo sobretudo em interesse próprio, nomeadamente no que toca à questão energética. “Os aliados da NATO vão olhar para este momento e interrogar-se sobre a oportunidade desta visita”, acrescenta Isidro de Morais Pereira, que destaca a importância do papel do Presidente da República de Portugal e dos outros responsáveis durante a visita de Lula da Silva. É, por isso, “preciso mandar uma mensagem” para dentro e para fora, para que a comunidade internacional entenda claramente qual a posição portuguesa no que à guerra diz respeito.

Helena Ferro Gouveia concorda e destaca mesmo que “os pilares da política externa portuguesa são a NATO e a União Europeia”, ambas organizações com “uma posição muito clara em relação à guerra”, posição essa que “conflitua com o que tem sido defendido por Lula da Silva”. “A questão não é a paz mas as condições para se negociar essa paz e o que vai ser exigido. O facto de Lula da Silva estar a fazer equiparações entre agressor e agredido são declarações nada felizes”, acrescenta, vendo aí uma “narrativa pró-russa muito presente em países com um certo antiamericanismo”.

Menos assertivo é o major-general Agostinho Costa, que garante que Lula da Silva não toma uma posição ideológica mas antes uma posição de interesse nacional. O especialista militar diz mesmo que Jair Bolsonaro faria igual, "só não teve tempo para isso", acrescentando que o plano de paz apresentado pelo Brasil só compromete o Brasil, pelo que Portugal nunca poderá sair beliscado aos olhos das organizações internacionais.

"Se quem apresenta uma proposta de paz incomoda o Governo, então não percebo em que registo estamos", reitera Agostinho Costa, admitindo até que a posição de Lula da Silva pode ser mais realista que a defendida pelo Ocidente, que continua em busca de uma "derrota estratégica da Rússia". "A NATO é uma extensão da política externa dos Estados Unidos. É uma instituição importante, mas é, fundamentalmente, um instrumento de defesa norte-americana", vinca.

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