"Foi assassinado". Primo de fundadora do movimento Black Lives Matter morre horas depois de ser atingido com taser pela polícia

13 jan, 10:22
Keenan Anderson morreu depois de ser atingido com arma taser pela polícia de Los Angeles

Keenan Anderson, de 31 anos, esteve envolvido num acidente de viação em Los Angeles e a polícia foi chamada ao local. Imagens das autoridades mostram-no a ser atingido com um taser depois de fugir, tendo pedido várias vezes ajuda. A prima, ativista do movimento Black Lives Matter, diz que é mais um caso de violência policial contra negros

Keenan Anderson, professor de 31 anos, morreu em Los Angeles quatro horas e meia depois de ter estado envolvido num pequeno acidente de automóvel. O afroamericano foi encontrado a meio da tarde pela polícia no meio da estrada, a pedir ajuda após a colisão, mas acabaria por ser atingido dez vezes com uma arma "taser" - de eletrochoques - pelos agentes. Anderson era professor e primo de Patrisse Cullors, uma das fundadoras do movimento Black Lives Matter, que faz campanha contra a violência dirigida a pessoas negras. Cullors não tem dúvidas e diz que o familiar "foi assassinado" pela polícia com a pistola de eletrochoques.

O acidente aconteceu a 3 de janeiro e a polícia de Los Angeles divulgou entretanto as imagens do sucedido, na maioria recolhidas pelas câmaras portáteis nas fardas dos agentes: Anderson pediu ajuda enquanto era imobilizado, depois de ter tentado fugir das autoridades. A dada altura, diz mesmo que estavam a tentar fazer-lhe o mesmo que fizeram a George Floyd, que morreu durante uma detenção, na sequência de um polícia, Derek Chauvin, ter pressionado com força o joelho contra o seu pescoço. Chauvin foi condenado a 22 anos e meio de prisão por estrangulamento.

 

"O meu primo estava a pedir ajuda e não a recebeu. Foi morto", disse ao The Guardian Patrisse Cullors, depois de ver as imagens divulgadas pela polícia de Los Angeles. "Ninguém merece morrer com medo, em pânico e a temer pela vida. O meu primo estava com medo de morrer. Passou os últimos dez anos a testemunhar o movimento que desafia as mortes das pessoas negras. Ele sabia o que estava em causa e estava a tentar proteger-se. Ninguém quis protegê-lo a ele", frisou a ativista. 

De acordo com o relato da polícia, que chegou ao local do acidente pelas 15:30, Anderson estava no meio da rua a pedir ajuda. Os agentes encaminharam-no para o passeio e ordenaram-lhe que se colocasse contra a parede, tendo o professor levantado os braços, respondendo: "Não tive intenção, peço desculpa". Acabou depois por sentar-se no passeio, seguindo ordens da polícia mas, minutos depois, e parecendo preocupado com a atitude dos agentes, acabaria por tentar fugir, dizendo que queria que as pessoas o vissem. 

Foi perseguido por um agente de moto que o mandou deitar-se no chão. À medida que chegaram mais agentes, continuou a pedir ajuda a dizer que estavam a tentar matá-lo. Um dos polícias colocou o cotovelo em cima do pescoço de Anderson, que estava deitado de costas no chão. "Vire-se ou vou atingi-lo com o taser", disse um dos agentes, antes de disparar. 

O homem foi então levado para o hospital, onde entrou em paragem cardiorrespiratória quatro horas e meia depois. 

Patrisse Cullors questiona a presença de agentes armados no local de um acidente e diz que a morte de Anderson podia ter sido evitada se, para responder a problemas no trânsito, houvesse uma equipa desarmada. "Este tipo de mortes e este tipo de força não serão interrompidas a não ser que tenhamos responsáveis eleitos corajosos para avançarem e desafiarem não apenas a polícia, mas as políticas", frisou. 

Polícia destaca comportamento "errático"

Em conferência de imprensa, o chefe da polícia de Los Angeles, Michel Moore, descreveu o comportamento de Anderson como "errático" e diz que o suspeito teve uma "emergência médica". Moore revelou ainda que canábis e cocaína foram detetadas em exames preliminares de sangue, mas que a causa da morte não foi ainda formalmente determinada. Ativistas ligados ao movimento Black Lives Matter já criticaram as autoridades por terem revelado publicamente estas informações, sugerindo que a morte de Anderson está ligada ao consumo de estupefacientes. 

O chefe da polícia de Los Angeles explicou ainda que a arma taser foi ativada dez vezes contra o primo de Patrisse Cullors, mas que nem todos os disparos foram "eficazes" e que está por esclarecer a influência do taser e da luta contra os agentes na morte de Anderson. A polícia de Los Angeles não tem definido o número máximo de vezes que um taser pode ser ativado contra um suspeito, mas os agentes são incentivados a evitar disparos simultâneos ou repetidos para que não haja "eventuais ferimentos".

Melina Abdullah, cofundadora do Black Lives Matter Los Angeles, não tem dúvidas em afirmar que Anderson foi "atingido com taser até à morte" e que a responsabilidade do óbito é da polícia. "Sabemos que um pequeno acidente de trânsito não deveria resultar na morte de ninguém, muito menos na morte deste homem negro, que estava claramente desarmado e não estava a fazer nada de errado", lamenta. Já a prima diz que não pode falar do estado em que Anderson se encontrava, mas garante que ele parecia "aterrorizado" pela polícia e em crise depois de se envolver num acidente.

Keenan Anderson deixa um filho menor. Trabalhava como professor na Digital Pioneers Academy, uma escola em Washington DC frequentada maioritariamente por crianças negras. Já tinha trabalhado em estabelecimentos de ensino de Los Angeles, onde se encontrava de visita, revelou a prima.

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