O “florentino mas maquiavélico” que conduziu os destinos – e o destino - de Angola: José Eduardo dos Santos 1942-2022

8 jul, 13:01
José Eduardo dos Santos

O legado de José Eduardo dos Santos por aqueles que privaram com ele

“Estadista completo, florentino mas também maquiavélico, é como alguns o consideram. Não se revê nessa afirmação?”, a questão foi lançada por José Eduardo Moniz na reveladora entrevista que fez, em janeiro de 1990, ao então Presidente da Angola. “Não sei, não acho”, respondeu José Eduardo dos Santos com o sorriso tímido que lhe era peculiar.

“Maquiavélico” é, curiosamente, de novo o termo usado três décadas depois por uma fonte que privou com a família de Eduardo dos Santos e com ele próprio, em declarações à CNN Portugal: “Era extremamente tímido, muito civilizado, educado, elegantíssimo como pessoa”, afirma. “Fez parte do grupo dos ditadores africanos mas, ao contrário deles, era inteligente, maquiavélico, às vezes mesmo perverso, na sua capacidade de colocar uns contra os outros. E raramente, se não nunca, escolhia as pessoas pelas suas capacidades mas pelas conveniências. Preferia entregar os cargos a família e amigos, o que é, aliás, uma característica da África feudal”.

José Eduardo dos Santos, que subiu ao poder em 1979 na sequência da morte de Agostinho Neto, tinha algo que não é de somenos importância em África e num país como Angola: “nunca foi racista”, sublinha a mesma fonte.

O homem que dirigiu os destinos de Angola durante 38 anos “não conhecia o país real, nem nunca teve a coragem de se enfrentar com o país real. Vivia na sua gaiola dourada. Com ele não houve democracia nem estado de direito; queria desenvolvimento mas geria o país por relatórios”, avança a fonte em causa, que garante que Eduardo dos Santos “na realidade não queria deixar o poder - a saúde forçou-o a isso”.

“Homem do Ano” foi o prémio atribuído a José Eduardo dos Santos, em 2014, pela revista Africa World pelo “excelente processo de recuperação económica e democrática que Angola teve desde o fim da guerra”. Mas, para os seus críticos, ele é o responsável pelo estado explosivo em que vive o país, onde grande parte da população passa fome e vive abaixo do limiar da pobreza.

Nem todos, porém, consideram que José Eduardo dos Santos, Zedu – como é muitas vezes referido – , é o único responsável pela atual situação de Angola e recordam como foram difíceis os anos em que esteve à frente dos destinos do país.

O Embaixador António Monteiro foi membro da delegação portuguesa que, em 1990-1991, mediou as negociações para os acordos de paz em Angola que foram assinados em Portugal. O diplomata foi ainda chefe da Missão Temporária de Portugal junto das Estruturas do Processo de Paz em Angola e representante junto da Comissão Conjunta Político-militar em Luanda. É, provavelmente, o português que mais de perto privou com José Eduardo dos Santos e que melhor conhece os tempos difíceis da guerra civil de Angola. Em sua opinião, “o principal legado de Eduardo dos Santos prende-se com o papel que desempenhou na busca para alcançar a paz em Angola e na região. Teve um papel significativo na independência da Namíbia. Há que dar-lhe crédito no alcance da paz regional”.

O diplomata sublinha a determinação do então presidente angolano em “romper o isolamento do país e em repatriar os contingentes de cubanos”.

“Nem sempre contou com o apoio de todos os que estavam à sua volta”, afirma o diplomata que sublinha como Eduardo dos Santos “procurou garantir a existência de partidos políticos no país que abriu de forma a garantir a legalidade do regime”. Aliás, a abertura do país “foi o preço da paz”.

   O antigo presidente de Angola tem, nas palavras de António Monteiro, o “mérito de ter conduzido uma política de reconstrução do país devastado pela guerra, como o caso do Cuíto”. Claro que existiram “problemas de desenvolvimento” que, aliás, o seu sucessor retomou, adianta o diplomata português.

Em termos de memória, o que fica da sua relação com Eduardo dos Santos? O embaixador, que nasceu em Angola e traz este país no coração, não tem dúvidas quando afirma à CNN Portugal: “A confiança que sempre depositou em Portugal e na sua participação nas negociações, o que facilitou muito para se conseguir a paz. E cumpriu sempre o que disse”.

 “Figura controversa”, considera José António Santos, jornalista português que, enquanto no ativo conheceu muito bem o dossiê Angola, ao referir-se a José Eduardo dos Santos.

Para o ex-jornalista do Diário de Notícias (DN), o que ressalta dos últimos tempos da governação do antigo presidente angolano “é o acontecimento de que foi protagonista, que foi fazer a paz. É marcante o ter feito a paz e ter procedido à reconstituição das Forças Armadas Angolanas (FAA) com a integração das forças da UNITA” (União Nacional para a Independência Total de Angola, movimento criado por Jonas Savimbi para lutar contra o colonialismo português). Aliás, “muitos oficiais superiores são oriundos da UNITA”, avança.

Eduardo dos Santos terá sido “ultrapassado aos desígnios a que se propôs”, avança a mesma fonte à CNN Portugal e sublinha como o antigo chefe de Estado “quis criar uma economia de mercado servindo-se como base da economia marxista-leninista, acreditou na criação de uma classe média mas foi ultrapassado porque cada um se preocupou mais consigo próprio e não com o bem comum. No final da vida entregou coisas à família o que, de alguma forma, em nada favoreceu a sua imagem”.

Eduardo dos Santos foi presidente durante os anos mais difíceis de Angola, ou seja, durante o tempo da guerra civil (1975-2002) que fez milhares de mortos e estropiados e destruiu grande parte do país. Essa guerra de 27 anos “justifica a ditadura” de que o acusam. Era impossível fazer eleições, que exigem a mobilidade de populações, num país em guerra”.

O presidente que fazia jogging no interior do palácio, subindo e descendo escadas porque a segurança não o deixava usar o jardim, que tocava viola para descontrair, tentou organizar a sua sucessão no MPLA mas “foi ultrapassado por João Lourenço” que era seu ministro da Defesa.

Ao deixar o poder e ser confrontado com as críticas que lhe faziam, Eduardo dos Santos afirmou não ter deixado os cofres do país vazios. “Deixei 15 mil milhões de dólares”, garantiu aquele que foi o homem forte do sétimo maior país de África e que, traído pela doença, terminou a vida numa clínica da cidade espanhola de Barcelona aos 80 anos e no meio de uma polémica familiar e política com o seu sucessor.

Eduardo dos Santos: cronologia de uma vida

1942, agosto. 28: Nasce em Luanda, onde frequenta a escola primária e o Liceu Salvador Correia

1958: Integra o recém-criado Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA)

1961, fev.4: Eclosão da luta contra o poder colonial português

Nov: Foge para o Congo-Brazaville, de onde coordena a atividade da Juventude do MPLA, de que foi um dos fundadores e vice-presidente

1962: Integra o Exército Popular de Libertação (EPLA), braço armado do MPLA

1963: É o primeiro representante do MPLA em Brazaville

Nov: Beneficia de uma bolsa para estudar na URSS

1969, jun: Terminada a licenciatura em Engenharia de Petróleos, no Instituto de Petróleo e Gas de Baku (Azerbaijão), frequenta um curso de militar de Telecomunicações

 - Casa com Tatiana Kukanova (mãe de Isabel dos Santos)

1970: Regressa a Angola e integra a guerrilha do MPLA
1970-1974: Exerce funções nos serviços de Telecomunicações na 2ª Região Político-Militar do partido, em Cabinda.

1974: É promovido a subcomandante do serviço de Telecomunicações em Cabinda.

Set: Eleito membro do Comité Central e do Politburo do MPLA

1974/1975: Representante do MPLA em Brazaville.

1975, jun: Coordenador do departamento das relações externas e do departamento de Saúde do MPLA

Nov.11: Declaração da Independência de Angola

               Eduardo dos Santos é nomeado ministro das Relações Exteriores de Angola

1977: Angola adota o Marxismo-Leninismo como doutrina

1977 a 1979: Secretário do Comité Central do MPLA

1978, dez: Nomeado ministro do Planeamento

1979. set. 20: Eleito presidente do MPLA, na sequência da morte do presidente Agostinho Neto

Set. 21: Investido nos cargos de Presidente do MPLA, Presidente da República Popular de Angola e comandante-em-chefe das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA)

1980, Nov. 9: É nomeado presidente da Assembleia Popular

1981: Realiza uma visita de Estado a Moscovo.

1986/1992:  Teve papel de destaque na solução da crise transfronteiriça Angola-África do Sul, que levou ao repatriamento do contingente cubano, à independência da Namíbia e retirada das forças sul-africanas de Angola.

1988, Jan. 25: Recebeu o Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique

1991, Maio: Casa com Ana Paula Lemos, ex-modelo e ex-assistente de bordo da TAAG

1992: MPLA decide abandonar o Marxismo-Leninismo e optar por um regime multipartidário

1992, Set, 29 e 30: Eduardo dos Santos regista 49,6% dos votos nas primeiras eleições presidenciais que disputa com Jonas Savimbi, líder da Unita; uma segunda volta é necessária. O MPLA consegue a maioria absoluta nas legislativas. Savimbi recusa a 2ª volta e relança a guerra.

1993, Maio: Os EUA reconhecem oficialmente o governo de Eduardo dos Santos

1996, Jan: É condecorado por Portugal com o Grande Colar da Ordem Militar de Santiago de Espada;

    Contribui para a invasão de rebeldes no vizinho Zaire, durante a I guerra do Congo que leva à queda de Mobutu.

2001: Anuncia que não se irá candidatar às próximas eleições

2002, Fev: MPLA ganha a guerra civil na sequência da morte de Savimbi;

   Abril: Exército e rebeldes assinam o cessar-fogo

   Agosto, 2: A paz é oficialmente declarada

    É recebido na Casa Branca pelo presidente George W. Bush

2003: Encontro de Eduardo dos Santos com o presidente do Brasil, Lula da Silva. É reeleito como líder do MPLA

2004: George W. Bush recebe Eduardo dos Santos na Sala Oval

2006, Agosto, 1: Assina o Memorando de Entendimento para a Paz e a Reconciliação na província de Cabinda para acabar com a luta armadas iniciada em 1975 pela FLEC

Out: Vladimir Putin recebe Eduardo dos Santos

  Nov.  Presidente angolano é cofundador da Associação de Países Africanos Produtores de Diamantes

2008: MPLA ganha as legislativas e prepara-se para elaborar uma nova Constituição, segundo a qual o líder do partido que tem a maioria torna-se presidente do país

2009: O presidente russo, Dmitry Medvedev, visita oficialmente Angola

2010: É adotada a nova Constituição que abandona a divisão dos poderes e concentra os poderes de facto no presidente

2011: Têm início em Fev. manifestações de jovens em Luanda que criticam o presidente; Eduardo dos Santos recebe Dilma Roussef no palácio presidencial

2012: O MPLA ganha as eleições legislativas o que dá a Eduardo dos Santos, seu líder, um novo termo como presidente do país, segundo a Constituição de 2010

2014: A revista Africa World elege o presidente angolano como “Homem do Ano”, pela sua contribuição para a a democracia e o desenvolvimento económico do país

2016: Presidente anuncia que tenciona retirar-se do poder em março de 2018;

Dez: MPLA escolhe João Lourenço como candidato do partido às presidenciais.

2017, Fev: o presidente anuncia que se retira do poder após as legislativas desse ano, mantendo-se como líder do MPLA; retira-se da presidência e é sucedido por João Lourenço

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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