José Eduardo dos Santos: as máquinas, o coma e a alegada conspiração para o matar

5 jul, 22:00
José Eduardo dos Santos recebido com no aeroporto de Moscovo com honras militares. Fotografia tirada no dia 30 de outubro de 2006 (AFP via Getty Images)

A CNN Portugal reuniu uma cronologia com tudo o que se sabe, ou se alega, sobre o estado de saúde do ex-presidente de Angola

José Eduardo dos Santos sofreu, a 23 de junho, uma paragem cardiorrespiratória que o deixou internado nos cuidados intensivos de uma clínica em Barcelona, Espanha. Aos 79 anos e em coma, o ex-presidente angolano agarra-se à vida - e às máquinas - com a ajuda de parte da família.

O que seria então um caso clínico passou a ser um enredo que envolve, alegadamente, envenamento, tentativas de homicídio e uma assistência médica que terá demorado demasiado tempo a chegar. 

Antes, o seu estado de saúde já estava debilitado: deslocava-se em cadeira de rodas e tinha perdido dezenas de quilos. Fatores que agora levam uma das filhas a elaborar uma teoria da conspiração, que até o atual presidente de Angola, João Lourenço, abrange.

A CNN Portugal fez uma cronologia de tudo o que se sabe, ou se alega, até agora.

23 de junho - José Eduardo dos Santos internado nos cuidados intensivos

O dia em que o antigo presidente de Angola sofreu uma paragem cardiorrespiratória e ficou internado na Clínica Médica Teknon, na qual já era acompanhado desde 2006. José Eduardo dos Santos residia em Barcelona desde 2019. 

De acordo com o Jornal de Negócios, neste mesmo dia, e dado o agravamento do estado de saúde, a filha Isabel dos Santos terá saído de Londres para ir visitar o pai. O filho Coreón Du (José Paulino dos Santos) também se deslocou à clínica. 

24 de junho - João Lourenço fala com Ana Paula dos Santos

O atual presidente de Angola, João Lourenço, publicou um texto no Facebook no qual afirmou que falou ao telefone com a atual mulher de José Eduardo dos Santos, Ana Paula dos Santos, num "gesto de solidariedade". 

28 de junho - "Está nas últimas". Médicos tentam acordar presidente angolano, mas sem sucesso 

Fazia cinco dias que José Eduardo dos Santos estava em coma induzido depois de ter sofrido, afinal, não uma, mas três paragens cardiorrespiratórias (uma informação que começou a circular, mas nunca foi confirmada oficialmente).

Por esta altura, sabia-se que o estado de saúde era grave, crítico, delicado, mas estável. O jornal Expresso revelou que uma fonte do gabinete de José Eduardo dos Santos tinha garantido: "Está nas últimas". 

"De ontem para hoje a situação agravou-se consideravelmente e, sendo a sua situação praticamente irreversível, devemos agora estar preparados para o pior", adiantou a mesma fonte, acrescentando ainda que os exames realizados davam conta da existência de graves lesões isquémicas no cérebro.

O corpo clínico tentou ainda tirar o antigo presidente angolano do coma induzido, mas este não despertou. 

Neste mesmo dia, Tchizé dos Santos - filha de José Eduardo dos Santos e Maria Luísa Abrantes, com quem nunca casou - divulgou um áudio no qual desmentia categoricamente o agravamento da saúde do pai. 

"José Eduardo dos Santos está vivo! Os órgãos todos do corpo de José Eduardo dos Santos estão a funcionar e o estado está estável. Eu, como filha, nunca irei permitir que desliguem as máquinas de um pai vivo, que tem o coração a bater normalmente, um coração que está bom, não teve ataque cardíaco, não teve AVC", afirmou. 

Dirigindo-se a João Lourenço, que orientou o ministro angolano das Relações Exteriores para viajar até Barcelona para acompanhar o estado de saúde do ex-chefe de Estado, Tchizé aconselhou o atual presidente angolano a preparar o seu próprio funeral, acusando-o de querer retirar dividendos políticos,"para aparecer em grande e meterem bandeiras do MPLA em cima do caixão".

Recorde-se que, nas últimas aparições públicas que fez, o antigo presidente angolano, atualmente com 78 anos, já se deslocava de cadeira de rodas, claramente debilitado. Também sofreu uma grande perda de peso, tendo agora pouco mais de 50 quilos. 

29 de junho - "Não desliguem as máquinas". Família reúne-se para tomar uma decisão

No dia seguinte, Tchizé dos Santos volta à carga. Fez uma publicação no Instagram a dizer que não apoiava a decisão de se desligar as máquinas, com a hashtag #souzedu. 

"Quero manifestar publicamente que sou contra desligar as máquinas. Deixem JES viver.. #souzedu Façam repost please 🙏 Quem decide pela vida é DEUS. #souzedu", lê-se na publicação. 

Neste mesmo dia, a equipa médica do Centro Teknon reuniu-se de emergência com a família de José Eduardo dos Santos para a informar do cenário dramático e decidir quais seriam os próximos passos. Isto é, se se desligaria alguma máquina que estivesse a dar suporte de vida a José Eduardo dos Santos. Nesta reunião participaram Isabel e Tchizé dos Santos e Ana Paula dos Santos.

Segundo informações confirmadas pela CNN Portugal, os filhos terão decidido manter os equipamentos médicos ligados, mesmo que o Estado angolano não continuasse a suportar essa despesa. Um dos argumentos utilizados é que o coração do antigo presidente de Angola continua a funcionar sem ajuda. 

A entrada em jogo de uma nova advogada

Foi então que Tchizé dos Santos decidiu contratar uma advogada espanhola, Carmen Varela, para impedir que se desligassem as máquinas que servem de suporte de vida e afastar Ana Paula dos Santos.

A ex-primeira dama, que se reaproximou recentemente de José Eduardo dos Santos, após alguns anos de afastamento, entrou em rota de colisão com os filhos mais velhos, nomeadamente Tchizé, que já disse publicamente que Ana Paula dos Santos "abandonou o marido" e tem contribuído para acelerar a morte do pai.

Carmen Varela dirigiu-se ao comité de especialistas, afirmando que as filhas Isabel e Tchizé dos Santos são as representantes legais do pai. Numa gravação áudio a que a CNN Portugal teve acesso, a advogada alegou ainda que Ana Paula dos Santos não é esposa de Eduardo dos Santos, uma vez que o casamento não era válido em Espanha e estavam, de facto, separados. 

Garantiu que ia pedir análises sobre "possíveis envenenamentos" e pediu para se investigar os 15 minutos que decorreram entre a queda que José Eduardo dos Santos terá dado e o pedido de socorro à polícia. Para além de tudo isto, nesse áudio de quase três minutos, disse ainda que ia pedir uma autorização judicial para que o médico particular João Afonso não entrasse no quarto, porque "parece ter sido enviado pelo presidente de Angola", além de Ana Paula dos Santos. "Estamos a falar de um ex-chefe de governo de um Governo corrupto e de um tema muito delicado", justificou. 

1 de julho - família confirma quadro clínico "crítico" e pede privacidade

Foi num comunicado que a família de José Eduardo dos Santos pediu respeito pela sua privacidade num momento em que se mantém "crítico e delicado" o quadro clínico do antigo chefe de Estado angolano.

"A família de José Eduardo dos Santos, que agradece todas as mensagens de carinho, apoio e as orações que tem recebido, solicita que, neste momento tão difícil, seja respeitada a sua privacidade", lê-se na nota.

Os filhos agradeceram "o reconhecimento, o alto grau de estima, o interesse expressado pela sua saúde e bem-estar, bem como a importância histórica que muitos angolanos e africanos reconhecem a José Eduardo dos Santos (ex-presidente da República de Angola)", mas referem que o momento é sensível.

Foi também neste dia que a CNN Portugal soube que Tchizé dos Santos iria apresentar queixa junto das autoridades espanholas por falta de socorro ao pai no dia de 23 junho. Havia suspeitas de negligência médica por parte do médico João Afonso, que diagnosticou e tratou uma alegada infeção respiratória.

"O que está a acontecer ao engenheiro José Eduardo dos Santos foi induzido, foi muito bem maquinado. Foi-lhe deteriorada a saúde o máximo possível", afirmou numa entrevista à emissora Deutsche Welle. Tchizé acredita que existe um plano para matar o pai, cujo cabecilha seria João Lourenço. 

Nesta entrevista, revelou ainda que iria pedir uma segunda opinião médica sobre se se deveria desligar as máquinas de suporte de vida. 

4 de julho - Tchizé apresenta queixa por tentativa de homicídio do pai

Três dias depois, Tchizé dos Santos apresentou queixa às autoridades espanholas pelos crimes de tentativa de homicídio, omissão do dever de assistência, lesões por negligência grave e divulgação de segredos por pessoas próximas ao pai. Esta queixa é contra Ana Paula dos Santos e o médico João Afonso e deu entrada nos Mossos d'Esquadra.

A filha suspeita que alguém tenha tentado matar o pai, daí o crime de tentativa de homicídio; a omissão do dever de assistência está relacionada com o tempo que as autoridades de saúde demoraram a chegar (15 minutos) à habitação de José Eduardo dos Santos, quando este sofreu a paragem cardiorrespiratória; a negligência médica tem a ver com as lesões cerebrais com que o ex-presidente de Angola ficou depois da alegada demora na assistência médica; já o último crime está relacionado com as fugas de informação sobre o estado de saúde de Eduardo dos Santos. 

Tchizé pediu ainda proteção policial no quarto onde está o ex-presidente de Angola devido à presença de pessoas estranhas à família.

A clínica onde se encontra internado, em Barcelona, é considerada uma das melhores do mundo. Uma consulta custa cerca de 500 euros e um dia de internamento 700 euros.

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