opinião
Estudante de Doutoramento em Teologia na Universidade da Santa Cruz, Roma

Passa pela cabeça de alguém ser santo?

12 nov 2023, 13:00

Para muitos, os santos são seres impecáveis, observantes, que não provam o lado bom da vida, e que, além disso, ainda se gastam inutilmente em rezas antiquadas. Pessoas de fugir.

Há quem sonhe ser Taylor Swift, Cristiano Ronaldo, Paddy Cosgrave, Jordan Peterson... Ou arquiteto, astronauta, modelo. Mas ninguém quer ser santo. Será que podemos explicar melhor isso “de ser santo”? Foi o que tentei fazer numa aula com crianças de 12 anos, numa sessão descontraída, recheada de perguntas, das quais escolhi quatro (1). 

 

  1. O que são os santos? Perguntou o António, 10 anos, apaixonado por futebol. Devolvi a pergunta à turma. Miguel, de 12 anos, respondeu: “Um santo é uma pessoa por onde passa a luz”. Tinha visitado com os pais uma catedral europeia e viu nos vitrais alguns santos com brilho luminoso e colorido. Acrescentei que os santos são os amigos de Deus: aqueles que acreditaram que Deus os queria felizes nesta terra, para depois serem muito felizes no Céu. Os que confiaram em Deus e viram acontecer coisas que não esperavam. Por isso, «a santidade é o rosto mais belo da Igreja» (2). Deus não os recompensou por terem feito tudo bem. Podemos ser santos na sala de aulas, no escritório, na família. Isso não significa viver permanentemente numa espécie de Disneyland, onde tudo é perfeito. Os pais dos meus alunos poderiam ter a tentação de pensar: “Se eu lutasse por ser santa na minha vida diária, os meus filhos estariam sempre bem penteados, com as mãos limpas, dentes brancos como nos anúncios das pastas de dentes...”. Não, a santificação não é uma perfeição externa da vida quotidiana, da vida social ou familiar. Significa fazer tudo por Deus: mostrar boa cara, mesmo quando a desordem parece prevalecer; significa sorrir mesmo que tudo corra mal, ou o nosso ambiente seja caótico e imperfeito.

 

  1. Como podemos falar com os santos? Maria, de 11 anos, sonha ser pianista. Se os santos são os amigos de Deus, como podemos falar com eles? Sim, podemos falar com eles. E através deles podemos enviar mensagens a Deus. Mas há algumas formas muito normais de os venerar, acessíveis a todos e gratuitas.

 

  • Há dias específicos para recordar os santos das nossas cidades. Basta pensar, por exemplo, em S. António em Lisboa a 13/6, ou S. João no Porto e em Braga a 24/6.. São feriados, dias de festa, precisamente para poder falar com os santos e recordá-los na missa, venerar as suas relíquias, entre outras atividades com eles relacionadas. Existem tantos lugares com o nome de santos. Em Portugal há 907 freguesias com nomes de santos.
  • Veneramos os santos quando pensamos nos nomes das pessoas que temos à nossa volta. Pedro, Teresa, Francisco? Cada um de nós recebeu um nome de batismo, que tem, habitualmente, a proteção de um santo. E que aponta para um modelo a seguir. Já imaginaste, Maria, que tu, pelo teu nome, estás chamada a imitar Santa Maria? Que bom conhecer a história do teu santo. Não é preciso ir mais longe: basta pesquisar um pouco na Wikipedia. 
  • Falamos com os santos para pedir coisas. Quem nunca pediu a Santo António ajuda para encontrar um objeto perdido ou roubado? E tanta gente que acende uma vela a S. Judas Tadeu, “padroeiro das causas impossíveis”. Algumas crianças interromperam-me e disseram. “Sim, isso funciona”. Contaram-me várias histórias de intercessões: uma playstation que não funcionava e passou a funcionar, o pai que conseguiu arranjar um trabalho, a cura de um cancro de um familiar… 

 

  1. Ao falarmos com os santos, Deus não fica com inveja porque lhe damos pouca atenção? A pergunta surpreendente veio do José, 12 anos, que tinha chegado atrasado à aula e parecia desatento. Pensei na resposta. Parece-me que temos devoção aos santos por amor a Deus. E seríamos ingratos com Deus se não pedíssemos uma ajudinha a essas pessoas que nos marcam o caminho. E as graças que recebemos deles só podem vir do próprio Deus. No primeiro mandamento, Deus pede-nos que O adoremos sobre todas as coisas. O mesmo não se pode dizer do tributo que prestamos aos santos. Os santos, como Nossa Senhora, S. José, como todos os outros 118 santos portugueses (3), merecem de nós veneração. Veneramos os santos, mas adoramos Deus. E venerar os santos é louvar o que Deus fez neles. Se todos os santos são especialmente filhos de Deus, quando se fala bem de um filho, louva-se indiretamente o pai. Perguntei ao José: “O teu pai não fica orgulhoso quando és tu que marcas o golo da vitória da tua equipa?”. Por isso, Deus fica orgulhoso - não fica com inveja - de tudo o que pedimos aos santos e de tudo o que eles fazem em nós. 

 

  1. Que fato tenho que comprar para vestir-me de santa? A pergunta foi da Catarina que tinha a mão levantada desde o início da aula. A santidade não é propriamente um fato. Não imitamos os santos externamente.  A fé não é um dress code. Não basta cumprir umas regras. Trata-se de amar uma Pessoa. Ser santos não quer dizer que sejamos impecáveis. Que não sujes a tua roupa. Que tenhamos que fazer coisas impossíveis. Leio umas palavras do Papa Bento XVI «O santo não faz uma espécie de “ginástica”, algo que as pessoas normais não conseguem fazer. Ao contrário, significa que na vida de um homem se revela a presença de Deus, isto é, se revela o que o homem por si só e para si não podia fazer. (...) Ser santo não é mais do que falar com Deus como um amigo fala com outro amigo» (4). Os estudantes não parecem muito convencidos. Continuo a ler a reflexão do Papa: «Ser santo não significa ser superior aos outros; antes, o santo pode ser muito débil, pode ter cometido muitos erros na sua vida. A santidade é este contacto profundo com Deus, fazer-se amigo de Deus: é deixar agir o Outro, o Único que realmente pode fazer com que o mundo seja bom e feliz». 

E se um dia o santo do teu bairro fores tu? A aula terminava. As questões dos pequenos ajudaram-me a rezar. Acredito que Deus se emocionou com as perguntas. Oxalá as respostas possam ser úteis para termos novos santos: Santo António, Santa Maria, S. José e Santa Catarina. E para que nós, os adultos, possamos equacionar que nos passe pela cabeça querer ser santos.

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