Japonês imola-se pelo fogo em protesto contra funeral de Estado de Shinzo Abe

21 set, 05:29
Polícia e bombeirosem Tóquio após homem ter-se incendiado perto do gabinete do primeiro-ministro

Homem protestou perto do gabinete do primeiro-ministro contra a cerimónia em homenagem de Abe, marcada para terça-feira. Cada vez mais japoneses estão contra o funeral de Estado, que está a arrasar a popularidade do governo

Um homem imolou-se pelo fogo esta quarta-feira de manhã em Tóquio, em protesto contra a realização do funeral de Estado de Shinzo Abe, o antigo primeiro-ministro do Japão que foi assassinado a tiro em julho. O indivíduo acabou por ser salvo pela polícia, e foi levado para o hospital com queimaduras em todo o seu corpo. Um agente da polícia que tentou extinguir as chamas também ficou ferido, de acordo com a informação divulgada pelos meios de comunicação social nipónicos.

O incidente aconteceu por volta das sete da manhã perto do gabinete do primeiro-ministro, Fumio Kishida, que está em Nova Iorque para participar na Assembleia Geral da ONU.

Ainda não há informação oficial por parte das autoridades sobre o que se passou, e existem relatos contraditórios. Segundo a Asahi TV, o homem ateou as chamas a si mesmo depois de dizer a um dos agentes da polícia que patrulham aquela zona que se opõe à realização do funeral de Estado, que está agendado para a próxima terça-feira. Já a agência noticiosa Kyodo News adianta que a polícia foi alertada por volta das 7 da manhã de que um homem estava a ser "engolido pelas chamas".

O homem estava inconsciente quando a polícia conseguiu extinguir as chamas. Mais tarde, já no hospital, terá dito aos agentes da polícia que deitou petróleo sobre si próprio e ateou fogo. Vários órgãos de comunicação social adiantam ainda que foi encontrada uma nota perto do homem, expressando a sua oposição ao funeral.

Maioria contra a homenagem

Embora tenha sido o que levou mais longe a sua oposição, este homem não é o único a contestar o funeral de Estado que irá acontecer na próxima semana. De acordo com as sondagens, uma larga maioria da população nipónica (60%) opõe-se à cerimónia. A opinião pública mostrava-se dividida mais ou menos a meio quando o governo anunciou o funeral de Estado, em julho, mas desde então o apoio diminuiu e a oposição cresceu.

Para este forte sentimento da maioria da população japonesa contribuem vários fatores: primeiro, as revelações sobre as ligações de Shinzo Abe e de inúmeros políticos de topo do seu partido a uma seita sul-coreana, a Igreja da Unificação; depois, o custo astronómico da cerimónia, num contexto de subida de inflação e de crise económica. Por fim, o facto de funerais de Estado serem algo muito raro no Japão - não acontece nenhum há mais de cinco décadas, e a maioria da população não parece concordar que Abe mereça essa honra.

Shinzo Abe foi o primeiro-ministro que governou o Japão durante mais tempo (mais de oito anos seguidos, e quase uma década no total), e o político que mais terá influenciado a história recente do país - e essas são as razões para que o governo tenha decidido realizar o funeral de Estado. Abe chefiou o governo até se afastar em 2020, por razões de saúde. Mas continuou a ser o político mais conhecido do país, e uma das figuras de proa do Partido Liberal Democrata (PLD), o mesmo partido do atual primeiro-ministro, Fumio Kishida. Em julho, quando participava num comício de campanha eleitoral, Abe foi morto a tiro por um atirador solitário.

A popularidade de Kishida e do seu governo tem caído a pique por causa da decisão de realizar o funeral de Estado. Segundo a sondagem mais recente, só 40% dos japoneses apoiam o atual chefe do governo, valor que compara com mais de 60% em julho, após o assassinato.

Tetsuya Yamagami, o homem que matou Abe, justificou o seu ato alegando que o antigo primeiro-ministro tinha laços com a Igreja da Unificação, organização à qual imputava a desestruturação da sua família. Esta seita é conhecida pela forma agressiva como incentiva os seus crentes a fazer doações de dinheiro e bens, e a mãe de Yamagami terá levado a família à falência ao oferecer à igreja tudo o que tinha, até a sua casa. 

Desde então, as ligações de Abe à organização sul-coreana (conhecida em Portugal como Seita Moon) foram escrutinadas e confirmadas - o antigo primeiro-ministro não era membro da seita, mas tinha fortes ligações a membros e dirigentes. E o caso também destapou a enorme influência da Igreja da Unificação sobre centenas de políticos do PLD, desde membros do governo até deputados e titulares eleitos em todos os níveis de poder. Pelo menos metade dos deputados do PLD têm ligações à igreja, havendo suspeitas de troca de favores entre a os políticos e a seita.

Para além destas descobertas, que mancharam a imagem de um primeiro-ministro que em vida já havia sido bastante divisivo, os custos da cerimónia causaram escândalo no Japão. O funeral de Estado vai custar pelo menos 12 milhões de euros, sendo que a estimativa inicial apontava para “apenas” 1,7 milhões. 

São aguardados 6 mil convidados estrangeiros nas cerimónias, representando mais de 70 países. Ferro Rodrigues, ex-presidente da Assembleia da República, será o representante oficial de Portugal.

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