Quando dois vírus respiratórios atacam em simultâneo. Dez respostas sobre a Flurona

3 jan, 18:47
Quando dois vírus respiratórios atacam em simultâneo
Quando dois vírus respiratórios atacam em simultâneo

O primeiro caso documentado de infeção simultânea por gripe e covid aconteceu em Israel numa mulher grávida e não vacinada. O duplo contágio é uma possibilidade, mas as medidas de proteção individual podem ser um escudo-protetor eficaz

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1. O que é a Flurona?

Flurona é o nome dado à infeção simultânea pelo vírus da gripe (Influenza) e pelo vírus que causa a covid-19 (SARS-CoV-2). O nome surge da junção de flu (de Influenza) e rona (de coronavírus). 

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2. Onde e quando foi detetada?

A questão da coexistência do vírus da gripe com o da covid-19 não é novidade, tal como noticia o El País, e chegou mesmo a ser discutida no verão passado, sob a forma de alerta para os riscos que o inverno poderia trazer, uma vez que os dois vírus apresentam uma sazonalidade semelhante. No entanto, até agora foi apenas documentado um caso de flurona. Esse primeiro caso de co-infeção pelos vírus da gripe e da covid-19 aconteceu no Beilinson Hospital, em Israel. A pessoa duplamente infetada era uma mulher grávida, não vacinada, que teve alta hospitalar no passado dia 30 de dezembro. Suspeita-se que no Brasil também já existam casos de dupla infeção, embora não tenha sido documentado oficialmente nenhum, lê-se no site G1.

3. Como atuam os dois vírus respiratórios ao mesmo tempo?

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De acordo com o infeciologista Vitor Laerte, embora ainda não se saiba ao certo “quais os mecanismos” de ação do Influenza e do SARS-CoV-2 quando estão ao mesmo tempo no organismo humano, é possível que cada um dos vírus atue de forma isolada. “Sabemos que têm recetores celulares diferentes, mas podem causar a síndrome respiratória aguda grave” quando entram em ação em simultâneo. Tal como acontece com a coexistência de outros vírus respiratórios.  

4. Quão habitual é dois vírus respiratórios coexistirem em simultâneo?

“A coinfeção nesta altura do ano é a coisa mais frequente, às vezes com pacientes até a precisar de internamento por estarem infetados com dois vírus respiratórios”, diz Vitor Laerte. No entanto, quando em causa está o recente SARS-CoV-2 e o vírus Influenza, a certeza já não é tanta, sobretudo pelo facto de a incidência do vírus da gripe ter sido muito reduzida nos meses passados, limitando a possibilidade de coexistência com o vírus da covid-19.

Um estudo publicado em novembro na revista BJM Open e que teve por base a análise da primeira onda de covid-19 no Bangladesh, em 2020, revela que a “coinfecção com SARS-CoV-2 e vírus influenza não foi muito comum [nessa altura] e teve menor gravidade da doença considerando a mortalidade”, no entanto, defende mais estudos sobre o tema, não existindo ainda dados relativos ao inverno no Hemisfério Sul e ao outono e inverno (que ainda decorre) no Hemisfério Norte.

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De acordo com o pneumologista António Morais, também presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, “a possibilidade de coexistência destes dois vírus é baixa, pois o SARS-CoV-2 está com uma incidência alta, mas a do outro vírus, o da gripe, está mais baixa”, muito à boleia de um menor contacto com o vírus Influenza nos últimos meses por causa das medidas de proteção individual e coletiva adotadas um pouco por todo mundo.

Embora a coinfeção da mulher grávida em Israel tenha sido o primeiro caso formalmente comunicado, é possível que este não seja um caso único, tal como adverte Vítor Laerte, que destaca o aumento de casos de H3N2 no Brasil, numa altura em que o SARS-CoV-2 ainda assombra o país. 

Além da baixa incidência do vírus da gripe em 2020 e 2021, o facto de ser “raro testar para os dois vírus” faz com que seja possível que tenham passado despercebidos casos ligeiros de duplo contágio, diz António Morais. “Ao testar alguém para a covid-19, numa época de gripe, não podemos garantir que a pessoa não possa estar concomitantemente com o influenza”, diz, frisando que “é possível que já tenha acontecido em quem tem maior risco de infeção, que são os imunodeprimidos”.

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5. O corpo humano consegue produzir anticorpos em simultâneo para dois vírus?

Sim. Salvo casos em que há algum tipo de imunossupressão, diz o infeciologista Vitor Laerte, “as infeções são simultâneas, mas a resposta imune é contra ambas”, isto é, “a pessoa acaba por responder aos dois vírus”, criando anticorpos para cada ou usando os anticorpos obtidos em infeções anteriores ou através da vacinação.

6. Quais os sintomas?

Segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS), os sintomas mais comuns de gripe são o mal-estar e cansaço, a febre alta, as dores musculares e articulares, as dores de cabeça, a tosse seca e a inflamação dos olhos. No caso da covid-19, os sintomas associados à infeção pela variante Ómicron, que já representa a maioria dos casos em Portugal, são muito idênticos, estando agora a ser também relatados pingo no nariz e espirros.

A semelhança de sintomas nas duas infeções pode dificultar o diagnóstico até que seja feito um teste de despiste de covid-19, mas, em caso de duplo contágio, os sinais de alerta “são sobreponíveis, o que pode haver uma potencialização dos mesmos”, refere o médico António Morais.

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7. Quais os riscos?

Os riscos dependem sempre do estado de saúde prévio da pessoa infetada e a escassez de relatos confirmados não permite uma avaliação concreta do que pode acontecer quando se está simultaneamente com gripe e covid-19, dizem os especialistas entrevistados pela CNN Portugal. “São muitos os fatores em jogo”, considera Vitor Laerte.

Segundo o infeciologista Vitor Laerte, “são muitos os fatores em jogo” que podem determinar a gravidade de uma coinfeção por Sars-CoV-2 e Influenza, mas salienta que “teoricamente é possível um quadro [clínico] pior”. E diz teoricamente porque, de facto, há poucos casos relatados e muitas vezes apenas é possível medir os danos quando a coinfeção foi tratada.

Mas olhando para o impacto que os dois vírus podem ter separadamente no ser humano, é possível que as consequências respiratórias sejam maiores, porém, o facto de a Ómicron apresentar um impacto mais suave pode ser uma mais-valia. 

Um recente estudo publicado na revista científica Nature Communications, a 5 de outubro, e levado a cabo em ratos de laboratório, indica que a permanência da circulação do SARS-CoV-2 aumenta a probabilidade de coinfeção deste vírus com o Influenza A. Diz o estudo que os ratos que contraíram gripe apresentaram uma maior probabilidade de ter doença grave de covid-19 se fossem infetados com o SARS-CoV-2 dois dias depois de terem contraído o Influenza. Os autores dizem que a coinfecção está associada a cargas virais de influenza elevadas nos órgãos respiratórios, mas que, “notavelmente, imunidade prévia à gripe, mas não ao SARS-CoV-2, previne doenças graves e mortalidade”. Esta proteção é dependente de anticorpos. os resultados obtidos “suportam experimentalmente a necessidade de vacinação contra influenza sazonal para reduzir o risco de comorbidade influenza grave / covid-19 durante a pandemia de covid-19”, lê-se na investigação.

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O facto de, no ano passado, a incidência de gripe ter sido “mais baixa e o contacto das pessoas menor”, isso pode levar a que a imunidade da população seja, agora, “mais baixa e isso pode levar a infecções mais graves” em caso de infeção, alerta António Morais, que destaca que, embora ainda estejamos “em fase de poder ter gripe”, o certo é que “com medidas de proteção passaremos mais um ano com uma incidência gripal baixa”. 

Além disso, continua o pneumologista, uma vez que “há dados que referem que a Ómicron tem menor apetência para causar doença pulmonar, causa mais doença nas vias aéreas superiores”, é possível que o duplo contágio seja mais leve e possa mesmo não causar sequelas. Porém, destaca António Morais, “obviamente que uma infecção conjunta das duas pode potenciar uma situação mais grave, mas é uma possibilidade teórica, não temos essa evidência, pois os casos reportados não têm sido evidenciados com maior gravidade, é uma possibilidade com muita cautela”.

8. Qual o papel da vacinação?

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Seja na prevenção do duplo contágio ou de que se desenvolva doença grave, a vacinação contra a gripe e contra a covid-19 é, para os dois especialistas, determinante.

António Morais considera que “a vacinação é fundamental”. “Tivemos uma boa adesão à vacina, temos dados muito positivos, nomeadamente nos grupos para o qual a vacina antigripal é dirigida, e isso é fundamental não são para a incidência da infecção, mas para a diminuição do risco de doença de grave”, explica o médico pneumologista.

9. Como prevenir?

Manter as regras de etiqueta de higiene - espirrar para o braço, lavar e desinfetar as mãos, não tocar no nariz, olhos e boca -, usar a máscara em ambientes fechados ou quando se está junto de muitas pessoas, arejar os espaços e manter o distanciamento físico sempre que possível não são apenas formas de prevenir o contágio de SARS-CoV-2, podem mesmo ser a forma mais eficaz de prevenir a gripe e o motivo pelo qual a incidência do vírus influenza foi baixa em 2020 e 2021 e se mantém baixa atualmente.

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“No ano passado, o risco [de duplo contágio] foi muito mitigado”, afirma António Morais, explicando que “gripe teve uma incidência muito baixa graças às medidas de mitigação”.

10. Quem são as pessoas mais vulneráveis?

As pessoas imunodeprimidas são as mais vulneráveis a qualquer tipo de vírus respiratório e um duplo contágio não é exceção.

A estes juntam-se as pessoas que fazem parte do grupo de risco de covid-19 (os idosos e pessoas com doenças crónicas, como doenças cardíacas e doenças pulmonares, segundo a DGS) e do grupo de risco de gripe (pessoas consideradas com alto risco de desenvolver complicações pós gripe, como as que têm 65 anos ou mais, grávidas, independentemente do tempo de gestação e doentes com mais de seis meses de idade (incluindo mulheres a amamentar) e que apresentem doenças crónicas ou imunitárias, esclarece o site do Serviço Nacional de Saúde). Os não vacinados podem também estar mais vulneráveis, uma vez que se tem verificado que a maioria das pessoas atualmente internadas não está inoculada contra a covid-19.

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