É difícil a indústria pesada mover-se em direção ao “net zero”

ECO - Parceiro CNN Portugal , Ana Batalha Oliveira
27 ago 2023, 19:30
Indústria pesada

A indústria pesada mostra-se atenta à necessidade de descarbonização, e está a investir em várias soluções que, se não avançarem mais depressa, podem pôr em causa o objetivo do ‘net zero’ em 2050

A indústria não fica bem na fotografia que capta os esforços para a descarbonização. A Agência Internacional de Energia (AIE) indica que as indústrias do ferro e aço, dos químicos, cimento, alumínio e papel estão desalinhadas com o objetivo de atingir a neutralidade carbónica em 2050, tendo de encetar maiores esforços e com celeridade.

Em 2022, a indústria foi responsável por um quarto das emissões de dióxido de carbono do sistema energético. Houve um “ligeiro declínio”, à semelhança de 2020, “mas não o suficiente para alinhar com o cenário de neutralidade carbónica em 2050”, sendo que a evolução tem sido “demasiado lenta”, escreve a AIE, na estimativa anual que faz das emissões poluentes relacionadas com energia, atualizadas em julho. “As políticas governamentais podem acelerar o progresso, inclusivamente ao reduzir os riscos associados ao desenvolvimento de novas tecnologias, assim como através da adoção de políticas obrigatórias de redução de CO2 [dióxido de carbono”, sugere a agência.

Fábrica da Ancor, empresa de papelaria (📷 Ricardo Castelo)

No setor do papel e da pasta de papel, as emissões atingiram um pico histórico em 2021, apesar de a intensidade carbónica – as emissões geradas por cada unidade de riqueza criada – estar a descer há mais de uma década. As projeções indicam que a produção vai continuar a subir, embora de forma moderada, até 2030 – apesar de o suporte digital estar a substituir o papel, o crescimento das economias supera este efeito negativo. Ainda neste setor é preciso um afastamento dos combustíveis fósseis e melhorias na eficiência (tanto na tecnologia de produção como através da reciclagem), sobretudo para contrariar as grandes necessidades energéticas do processo de secar a polpa.

Desta forma, as bombas de calor, que reaproveitam o calor gerado, deverão ser uma tecnologia chave, pelo que duas forças se juntaram: a Confederação para as Indústrias Europeias do Papel e a Associação de Bombas de Calor Europeia. O objetivo é usar as bombas de calor nos processos de forma a reduzir as necessidades energéticas em 50%.

O maior produtor de papel do mundo, a China, anunciou um plano quinquenal, para aplicar até 2025, que aposta na economia circular, por exemplo através da meta de reciclar 60 toneladas métricas de papel até a final do plano. A China lançou também as linhas guias para créditos com eficiência energética, encorajando os bancos a terem este critério em atenção no momento de emprestar dinheiro a empresas da pasta e do papel.

Num nível “acima”, ou seja, mais longe de ser alcançado, estão soluções como o fabrico de papel sem recurso a água, o que dispensaria a grande quantidade de calor necessária para a evaporar. Um protótipo, com o defeito de não servir para grandes escalas, já foi criado na Alemanha e Suécia. Já na Holanda, está a ser trabalhado um sistema de remoção de água sem recurso à evaporação, do qual se esperam resultados em 2024.

📷 TRAIMAK.BY/Freepik

As cimenteiras, a nível internacional, registam um aumento das emissões de cerca de 1,5% ao ano desde 2015, quando o necessário para chegar ao ‘net zero’ em 2050 é diminuir as emissões em 3% ao ano até 2030. São precisos mais investimentos para desenvolver e implementar tecnologias que permitam descarbonizar, defende a AIE.

Em Portugal, a descarbonização é “desde há mais de uma década, uma prioridade total do setor” do cimento, assegura a ATIC – Associação Técnica da Indústria do Cimento. As cimenteiras nacionais investiram mais de 205 milhões de euros em medidas de redução do impacto ambiental e em inovação entre 1990 e 2017. Isto traduziu-se numa redução superior a 14% das emissões específicas de CO2 por tonelada de cimento. A indústria espera que, até 2030, a quebra atinja os 48%, o que exige investimentos na ordem dos 500 milhões de euros. Em 2050, a percentagem subirá para 65%. O resto, poderá ser abatido com recurso ao hidrogénio verde e à captura de carbono.

Otmar Hübscher, vice-presidente da ATIC e CEO da Secil, defende que o cimento é “insubstituível”, sendo o elemento fundamental do betão, que por sua vez é o segundo bem mais consumido no mundo “e que nos permite as comodidades da vida moderna”. A favor deste material, está o facto de ser 100% reciclável e um “poderoso sumidouro de carbono”, indica Marta Feio, secretária-geral executiva da ATIC.

O desafio do setor é que, para descarbonizar, não basta substituir os combustíveis fósseis que alimentam os processos por energias limpas; 60% da pegada carbónica vem também do processo químico da produção do clínquer, o “elemento base do cimento”. E estas emissões têm “uma margem reduzida” para baixarem. Até 2030, o objetivo desta indústria é baixar a incorporação de clínquer para 65%, já que este pode ser parcialmente substituído por alternativas – no entanto, a nível mundial, esta incorporação tem mesmo crescido, aponta a AIE.

A redução de emissões será também efetuada através do desenvolvimento de novos tipos de cimento, produzidos a partir de clínquer de baixo teor em carbono e da utilização de outros tipos de adições, acrescenta a ATIC. A economia circular também é uma ajuda: pretende-se atingir uma maior reciclagem do betão de resíduos de construção e demolição como matéria-prima para a produção de cimento e betão.

Em relação à energia necessária nos processos, as cimenteiras acreditam que o hidrogénio será um substituto viável dos combustíveis fósseis até 2050, estando envolvidas em projetos para o desenvolvimento deste combustível. Em paralelo, o setor tem em curso projetos para aumentar a eficiência dos fornos, e há investimentos em energias alternativas, como a solar.

Por fim, a ATIC entende que os esforços para descarbonizar totalmente o setor dependerão fortemente da capacidade de captura de carbono nas fábricas de cimento e da sua subsequente utilização e armazenamento, soluções estas que “ainda não estão maduras, mas perspetiva-se que no final desta década poderão já ser usadas a nível industrial”.

De momento, uma das principais preocupações espoletadas pela descarbonização é a competitividade do setor. As cimenteiras portuguesas exportam até 50% da sua produção de clínquer e cimento, mas estas exportações “correm o risco de ser muito penalizadas em relação a concorrentes de países terceiros com regras muito menos restritivas no que às emissões de carbono diz respeito”, alerta a ATIC.

“Estamos perante um processo de transformação exigente que carecerá de um pacote abrangente de políticas que se estenda a toda a cadeia de valor do cimento e do betão e que forneça os incentivos certos, incluindo a criação de condições que permitam aos produtos de menor pegada de carbono competir em pé de igualdade com os demais”, conclui a ATIC.

A AIE indica que os governos podem estimular o investimento na descarbonização deste setor ao financiar inovação ou criando procura para cimento de zero emissões, em conjugação com medidas vinculativas de redução de emissões. Em Portugal, o betão Verdi Zero, o primeiro com zero emissões de CO2 no país, chegou ao mercado no ano passado pela mão da Secil.

O setor químico é o maior consumidor industrial de energia do globo e o terceiro subsetor da indústria com o maior volume de emissões de carbono, aponta a AIE. E tudo indica que a procura por produtos como a amónia, o metanol ou outros que são base para os plásticos vai crescer, fortemente, nos próximos anos. Cerca de um quarto das emissões do setor resulta de reações químicas necessárias ao fabrico de produtos, e o resto é referente à queima de combustíveis.

A portuguesa Bondalti, na voz do administrador executivo Luís Delgado, indica que a indústria química está presente em 95% de todos os bens produzidos a nível global, pelo que o compromisso com a descarbonização segue duas vias: por um lado, no desenvolvimento de uma nova geração de produtos e materiais que permitam reduzir a pressão sobre os recursos naturais e a dependência das matérias-primas de origem fóssil; por outro, através da descarbonização dos processos e da cadeia de valor.

Entre os produtos sustentáveis que a Bondalti tem na calha está o lítio verde, que terá uma instalação-piloto em Estarreja, bem como o hidrogénio verde, sobretudo para autoconsumo. Neste campo, está envolvida em dois projetos que estão a nascer em Portugal, o H2Enable, em Estarreja, e o GreenH2Atlantic, em Sines, que se prevê que entrem em operação no final de 2025. Para colmatar as grandes necessidades de eletricidade, a empresa está ainda a desenvolver projetos de energia renovável para autoconsumo.

O principal desafio, agora, é executar a transição sem perder competitividade, indica a Bondalti. Nesse sentido, considera importante que existam apoios para a aposta em novas tecnologias, como o hidrogénio verde.

A indústria da metalúrgica e metalomecânica produz sobretudo bens que servem de base à produção dos demais setores. E, para que se mantenha um pilar forte, é necessário apostar na sustentabilidade, reconhece a Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP). De acordo com a AIE, a palavra é “acelerar” — projetos de elevadas emissões pesam ainda mais de um terço entre os anúncios de novos projetos de produção de aço. A intensidade de emissões da produção de aço e ferro tem-se mantido algo constante, quando tem de descer “significativamente”.

Neste sentido, já começaram a ser aplicadas algumas medidas, como a substituição dos combustíveis fósseis por fontes de energia renováveis nos processos produtivos e instalações, mas também o cálculo da pegada de carbono, de modo a perceber que oportunidades existem nos processos produtivos para a descarbonização dos mesmos e, finalmente, a transformação digital das indústrias para reduzir os consumos ao nível da produção. Há que eletrificar caldeiras e fornos e utilizar maquinaria mais eficiente, também alimentada por energias limpas. De forma a pôr mãos à obra, a AIMMAP candidatou o projeto CarbonFree_Guide4Metal aos apoios do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

A travar a ação estão dificuldades como a falta significativa de recursos humanos para estas indústrias, a escassez e consequente aumento dos preços das matérias-primas e a subida dos custos energéticos e dos combustíveis, que afetaram o panorama já depois de um período “crítico” de pandemia. Também é de salientar alguma dificuldade na interpretação deste tipo de medidas e ações por parte de algumas micro e pequenas empresas, assim como um certo desconhecimento dos apoios existentes para auxiliar na implementação de alternativas. Ainda assim, “muitas empresas têm adaptado os seus processos com novas tecnologias, conseguindo uma redução a nível de emissões”, garante a AIMMAP, apesar de reconhecer que há um longo caminho a percorrer.

As perspetivas, a nível mundial, estão a melhorar. Depois de um projeto sueco, o Hybrit, ter conseguido entregar pela primeira vez aço livre de combustíveis fósseis a um cliente, em agosto de 2021, projetos deste tipo têm-se multiplicado, relata a AIE. “A intensidade de emissões de CO2 do aço tem mostrado um cenário misto nos últimos anos, mas necessita cair significativamente para se alinhar com o cenário de ‘net zero’”, alerta, contudo.

O alumínio em particular é responsável por 3% das emissões industriais diretas de dióxido de carbono. Embora a intensidade de emissões tenha vindo a cair numa média de 2% ao ano na última década, é necessário que essa taxa suba para 4% até 2030, estima a AIE.

No passado mês de junho, a Associação Portuguesa do Alumínio anunciou o lançamento do primeiro ciclo de vida útil do alumínio desenvolvido totalmente em Portugal, desde a reciclagem da matéria-prima ao produto final, sendo que os testes estão a utilizar hidrogénio em substituição ao gás natural. “Com o ciclo de vida do alumínio totalmente desenvolvido em Portugal, torna-se possível retirar o alumínio da janela ou fachada de um edifício e reutilizá-lo na nova caixilharia“, indicava a associação, em comunicado. Além disso, o desenvolvimento do ciclo de vida totalmente fechado em Portugal permite às empresas do setor da construção avaliar o impacto ambiental dos produtos durante toda a sua vida útil e do seu investimento, desde a matéria-prima até à fase final.

Na visão da AIE, é preciso de facto olhar para toda a cadeia. Se no início está a utilização de tecnologias com baixas ou zero emissões, no “final” tem de haver a recolha efetiva de sucata, separação e reciclagem, sublinha.

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