Quando Nélson Veríssimo treinou Ruben Amorim

16 abr, 12:02
Amorim e Veríssimo

Há sete anos, os treinadores de Benfica e Sporting reencontraram-se em papéis diferentes, eles que têm vários pontos em comum

Na tarde de 22 de fevereiro de 2015 o Benfica B recebia o Oriental para a 29ª jornada da II Liga. No banco estava Nélson Veríssimo, então treinador-adjunto de Hélder Cristovão. Em campo Ruben Amorim, de passagem pela equipa secundária para ganhar ritmo, depois de uma lesão grave que condicionou muito aquela que seria a sua última época no Benfica. Os treinadores que vão defrontar-se neste domingo sentados nos bancos dos dois rivais de Lisboa têm desde logo em comum o facto de ambos terem começado a formação no Benfica, antes de seguirem caminhos diferentes. Defrontaram-se em várias ocasiões em campo como jogadores, mas nesse início de 2015 reencontraram-se no Seixal em papéis diferentes.

Amorim começou essa época de 2014/15 a jogar os 120 minutos da Supertaça ganha pelo Benfica ao Rio Ave nas grandes penalidades e foi titular no arranque do campeonato, mas o azar chegou logo à segunda jornada, no Bessa. Antes da meia hora de jogo, o joelho direito cedeu e teve se ser substituído. O diagnóstico foi uma rotura total do ligamento cruzado anterior e para o médio, então com 29 anos, começava aí mais um longo calvário naquela que seria a reta final de uma carreira marcada por muitas lesões.

Amorim focou-se na recuperação e menos de seis meses mais tarde estava de volta. O regresso aconteceu a 11 de fevereiro, quando saiu do banco para jogar os últimos 15 minutos do jogo com o V. Setúbal para a Taça da Liga. O Benfica assinalava o momento com um vídeo que mostrava alguns dos passos da dura recuperação de Amorim.

Jorge Jesus saudava o regresso com um elogio rasgado ao seu jogador. «Mesmo não estando bem, vê-se que ele tem outro andamento, outra classe», dizia o treinador que mais tempo trabalhou com Amorim, do Belenenses ao Benfica, numa relação marcada por altos e baixos. Para trás, por essa altura, tinha ficado o desentendimento entre ambos que no final de 2011 motivou um processo disciplinar a Rúben Amorim e a saída do jogador para o Sp. Braga, para um ano e meio de empréstimo.

Amorim voltou à Luz no verão de 2013 e tinha reencontrado o seu espaço, até à lesão. Apesar daquele regresso no início de fevereiro de 2015, ainda estava longe da forma ideal. «Não está nem a 30 por cento», dizia Jesus. E foi nessa perspetiva de uma reintegração progressiva que passou pela equipa B.

Amorim, o «exemplo» 

O médio Rúben Pinto era um dos jovens do Seixal e recorda esses dias em conversa com o Maisfutebol. «O Rúben Amorim sempre teve uma relação muito boa com toda a gente. Nas vezes em que estivemos juntos ele era um exemplo para todos nós, para os miúdos, tentava ajudar ao máximo, falava muito connosco e brincava connosco», conta o agora jogador dos húngaros do Fehérvar FC, notando o que representava Amorim na Luz por essa altura: «Era uma pessoa muito importante para a estrutura e para o próprio clube. Mesmo os jogadores mais velhos, como o Luisão e o Aimar, tinham uma excelente relação com ele. O Rúben tinha uma personalidade também muito forte e era muito respeitado.»

João Nunes, defesa central que cumpria então a primeira época de sénior na equipa B e também está a jogar na Hungria, na Puskás Akademia, explica ao Maisfutebol o que significava para os jovens da B a presença dos jogadores da equipa principal. «Havia momentos em que vinham alguns jogadores da equipa A, lembro-me também do Fejsa, do Jonathan Rodríguez. Eram jogadores que vinham de lesão ou que tinham poucos minutos de jogo e precisavam de recuperar alguma regularidade. Para os jovens era sempre uma oportunidade de aprendizagem. Aprender com a experiência deles, com a abordagem ao jogo, era muito importante. Por norma os jogadores que vinham da equipa A transmitiam algum apoio aos mais jovens, partilhavam alguma experiência. A equipa B era o espaço de transição e eles ajudavam nessa aprendizagem.»

Eram ainda assim «contactos esporádicos», explica João Nunes: «Normalmente os jogadores da equipa A vinham para o jogo. Podia haver uma situação em que vinham treinar no dia anterior, mas normalmente vinham para o jogo.» Daí que os dois jogadores guardem apenas memórias difusas desses dias. «O que me lembro de falarem o Veríssimo e o Rúben Amorim nessas ocasiões juntos eram coisas do jogo, coisas muito específicas, do treino», diz Rúben Pinto.

A atenção e as «duras» de Veríssimo

Veríssimo, dizem os antigos jogadores do Benfica B, era um treinador muito próximo dos jogadores. «Falava muito connosco, até porque era o elemento da equipa técnica mais próximo dos jogadores e dava muitas indicações individuais. Tentava tirar o maior proveito do jogador e passar a melhor mensagem a todos. É muito profissional, muito sério», diz Rúben Pinto, acreditando que o agora treinador do Benfica «vai ter um grande futuro».

João Nunes guarda memórias de muita aprendizagem com o técnico que trabalhava especificamente o seu sector. «Com o Nélson Veríssimo partilhei muitos mais momentos. Foi meu treinador adjunto na primeira vez na equipa B, ainda com o mister Norton de Matos, e depois mais duas épocas com o mister Hélder. Trabalhávamos mais juntos, de forma recorrente. Ele dava mais atenção ao que era o trabalho defensivo, daí termos tido mais trabalho em conjunto. Em várias situações era ele que coordenava esse trabalho defensivo, a coordenação da linha, a subida das linhas, a importância das bolas paradas, corrigir posicionamentos, dava muita atenção a esses aspetos, obviamente também por ter sido defesa», conta. De vez em quando também levantava a voz. «As duras fazem parte…», sorri João Nunes. «Chamava muito a atenção aos centrais, insistia na ideia de que o pormenor podia fazer a diferença, por exemplo nas bolas paradas defensivas. Uma vez chamou-nos, durante um jogo com o União, na Madeira. O União era uma equipa forte nessas situações. Acabou por usar uma expressão que era algo como: ‘Este tipo de situação custa dinheiro, custa sustentar a família. Decide títulos, decide manutenções.’ Era esse tipo de atenção que dava.»

Voltando àqueles dias na equipa B. Amorim foi titular no jogo com o Oriental. O Benfica venceu por 3-0, com o primeiro golo marcado, por sinal, pelo agora também «leão» Nuno Santos. Amorim lançou Jonathan Rodríguez para o segundo golo e saiu a vinte minutos do final. Voltaria uma semana mais tarde, dessa vez para jogar os 90 minutos frente ao União Madeira, que venceu no Seixal por 3-1. A partir daí regressou ao seu espaço natural, a equipa principal, para ser opção regular na reta final do campeonato que terminou com a conquista do título nacional, o seu terceiro com a camisola do Benfica. No final da época deixou a Luz e ainda rumou ao Catar, onde jogou por uma temporada no Al-Wakrah, antes de pendurar as botas aos 31 anos.

Veríssimo, «padrinho» da estreia de Amorim na Liga

Nélson Veríssimo, sete anos mais velho que Amorim, tinha deixado de jogar três anos antes, em 2012, no final de uma carreira que começara na Luz. Foi lá que fez grande parte da formação e chegou a sénior, foi de lá que saiu para o Alverca, por empréstimo. Depois de se desvincular do Benfica jogou duas épocas na Académica e voltou a Alverca. A 14 de dezembro de 2003 estava em campo, no centro da defesa do clube ribatejano, na visita ao Restelo em que o Belenenses estreava um médio promissor. Rúben Amorim saiu do banco para jogar os descontos, no jogo que marcou o início da sua estreia profissional.

Defrontaram-se em mais quatro partidas daí para a frente, Amorim pelo Belenenses e Veríssimo pelo V. Setúbal, onde o agora treinador do Benfica chegou em 2004/05 e jogou três temporadas, antes de representar o Fátima e terminar a carreira em Mafra. Amorim estava então em plena afirmação. O médio que aliás tinha passado também por Alverca, mas pelo hóquei em patins, crescia no Restelo e em 2008 deixou o Belenenses para assinar pelo Benfica. Era na verdade um regresso ao clube onde tinha começado a formação e de onde fora dispensado dez anos antes, quando a direção de Vale e Azevedo decidiu cortar na formação.

Em comum, além das origens ribatejanas, Veríssimo e Amorim têm também o facto de ambos não terem perdido tempo a optar pela carreira de treinador. Com percursos diferentes, mas com algumas semelhanças na forma de trabalhar, analisa João Nunes. «Na abordagem ao jogo tanto do Rúben Amorim como do Nélson Veríssimo vemos padrões que se repetem, situações que são repetidamente trabalhadas. São rotinas, muitos treinos, muitas horas de trabalho. A nível de semelhanças entre eles, acho que podemos falar no detalhe. O Benfica tem estado a crescer nos princípios de jogo, tem ganhado estabilidade. Aquando da troca de treinador acabou por mudar o sistema e isso tem de ser trabalhado. No Sporting já há trabalho desde o ano passado, as movimentações, o posicionamento dos jogadores, as trocas posicionais, a forma como abordam o jogo, a pressão, as bolas paradas.» O defesa português vê também semelhanças na forma de estar de ambos os treinadores: «O mister Nélson Veríssimo, com quem tive mais contacto, é uma pessoa muito tranquila, que passa a mensagem muito clara. Dá uma dura, diz o que tiver a dizer, mas é muito tranquilo e direto. O Rúben Amorim, do que vejo como espectador, parece também um treinador muito aberto com o grupo, muito tranquilo na abordagem.» As diferenças, essas, começam no estilo de jogo: «O Benfica mais na transição, na velocidade, o Sporting mais apoiado, com o ponta de lança muitas vezes a baixar para os jogadores de dentro irem buscar espaços.» O dérbi, conclui o jogador português, vai jogar-se partindo desses princípios: «Penso que será um Sporting mais forte na posse de bola e um Benfica perigoso nas transições ofensivas. O Sporting vai querer manter a sua ideia, mesmo na Liga dos Campeões não abdicou do que tem sido, do futebol apoiado, de paciência. O Benfica vai tentar contrariar essa posse de bola para sair a jogar.»

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