EXCLUSIVO. "Estou disposto a colaborar com as autoridades". Jovem hacker português em risco de ser extraditado para os EUA quer seguir exemplo de Rui Pinto

6 fev, 07:00

Tem 23 e foi detido em Inglaterra, onde um juiz aceitou recentemente a sua extradição para os EUA que o quer julgar por vários crimes, como conspiração. Está em risco de ficar mais de 50 anos na prisão, por ter criado uma das maiores plataformas do mundo para piratas informáticos. Na sua primeira entrevista desde que foi detido, em 2022, Diogo Santos Coelho garante que quer ajudar a policia portuguesa e pede à justiça portuguesa que não o abandone. "Sinto que Portugal virou-me as costas".

No número 54 da Doughty Street, em pleno centro de Londres, Diogo Santos Coelho, de 23 anos, prepara-se para falar pela primeira vez sobre o seu caso. Está em risco de passar o resto da vida, ou grande parte dela, numa prisão nos EUA e teme que as autoridades portuguesas “continuem de braços cruzados”. É suspeito de ter liderado um império no submundo da internet, o RaidForums, onde foram vendidos milhões de euros de dados de empresas americanas. Foi apanhado em Londres, onde um juiz já deu ordem para ser extraditado para os EUA, onde enfrenta uma pena de 57 anos.  

Os seus advogados – ingleses e portugueses – estão numa luta contra o tempo para tentar que seja julgado e cumpra pena em Portugal. Para isso, Diogo garante que até está disposto a colaborar com a autoridades, como sucedeu com Rui Pinto, pirata informático que criou o Football Leaks. “Eu não estou a tentar fugir à Justiça”, diz, garantindo que está “disponível a tudo o que for necessário, seja para ajudar a apanhar outras pessoas ou até ajudar a justiça portuguesa em casos semelhantes”.

A defesa do jovem acusa Portugal de estar a ter um comportamento diferente com este hacker, daquele que teve Rui Pinto. “Existem diferenças de tratamento absolutamente aberrantes” entre os dois, garante João Medeiros, um dos advogados do jovem. “Num caso as autoridades portuguesas acolheram, ofereceram-lhe e aceitaram a colaboração. Ao que parece, esse senhor colabora ativamente, tem a proteção do Estado português, inclusivamente do ponto de vista da proteção pessoal. Este Diogo é, de alguma forma rejeitado, numa situação muitíssimo mais gravosa, porque o senhor Rui Pinto estava num país onde a pena máxima é de 25 anos de prisão e o Diogo pode sujeitar-se a algo como 50 anos de prisão, o que, tendo nesta altura 24 anos, se cumprir a pena entrará um jovem e sai um velho”.

Segundo João Medeiros, Diogo não entende a opção das autoridades. “Tem um grau de incompreensão relativamente a isto, porque ele próprio já se ofereceu para colaborar com as autoridades portuguesas. A Polícia Judiciária teve oportunidade de analisar a informação de que o Diogo dispunha e sinaliza-a como de maior interesse”. E avisa mais uma vez: “O Diogo já deixou claro em várias ocasiões e eu reafirmo que está na disposição de colaborar com as autoridades portuguesas”.

Conspiração, fraude no acesso a dispositivos e roubo de identidade agravado

Diogo é acusado nos Estados Unidos dos crimes de conspiração, fraude no acesso a dispositivos e roubo de identidade agravado, por ser o principal suspeito de criar e administrar o RaidForums. A justiça britânica aceitou o pedido de extradição para os EUA, mas a defesa do hacker recorreu, alegando que o jovem foi diagnosticado com autismo e que corre o risco de pôr fim à sua própria vida caso seja enviado para cumprir sentença numa prisão americana. “As condições em que seria mantido nos Estados Unidos seriam extremamente austeras. Enfrentaria um provável regime de isolamento, a fim de o proteger dos riscos dos outros prisioneiros. E esse nível de isolamento acarretaria riscos em termos da sua saúde mental”, alega o advogado britânico Ben Cooper.

Depois de ter sido apanhado pelas autoridades britâncias, Diogo esteve detido na prisão de Wandsworth, no Reino Unido, durante sete meses. No relatório do psiquiatra Simon Baron-Cohen, o jovem admitiu ser incapaz de viver sem rotinas. “Tenho rotinas rigorosas. Durmo exatamente 7 horas e 45 minutos. Na prisão não podia fazer as minhas rotinas. Não posso funcionar se não trabalhar”, insiste.

Em Portugal, Diogo é apenas suspeito num processo-crime de branqueamento de capitais devido à sua atividade ligada ao site. No entanto, a defesa do hacker alega que este crime só aconteceu devido à existência dos crimes antecedentes que são investigados pelos EUA.

Por isso, a equipa de advogados portuguesa fez um requerimento ao DIAP regional do Porto para que as autoridades portuguesas emitissem um mandado de detenção e investigassem também os crimes de que Diogo é acusado pela justiça americana. No entanto, o Ministério Público recusou o requerimento, defendendo que, como os alegados crimes tiveram efeito nos EUA, este é o país competente para os julgar.

Mas a defesa tem outro entendimento e os advogados João Medeiros e Inês Almeida e Costa fizeram uma reclamação hierárquica à Procuradoria-Geral da República (PGR). “Parte dos crimes foram cometidos em Portugal e, por conseguinte, ao abrigo do princípio da territorialidade, cabe ao Ministério Público português proceder à investigação desses crimes”, defende João Medeiros. A reclamação aguarda resposta.

“Eu tenho muito medo de ir para lá”, diz Diogo, que neste momento está e prisão domiciliária, no seu apartamento em Londres, podendo sair durante o dia. Naquela tarde foi ao escritório do seu advogado para falar em exclusivo com a CNN. “Sinto que Portugal virou-me as costas.”, adianta, admitindo que a sua "única esperança é Portugal pedir a extradição”.

Caso fosse feito o pedido de extradição para Portugal, os advogados de Diogo acreditam que a justiça britânica optaria por enviar o pirata informático para a sua terra natal. "Entre enviá-lo para os Estados Unidos ou para Portugal, seria uma decisão óbvia é enviá-lo de volta para a sua terra natal, para a sua família", defende Ben Cooper.

A CNN Portugal tentou contactar o PGR mas, até à data, não obteve qualquer resposta.

Montou um império no submundo da net numa casa nos arredores de Viseu

Corria o dia 31 de janeiro de 2022, quando foi detido no aeroporto de Gatwick, Reino Unido. Estava a tentar entrar no país para visitar a mãe, que sofre da doença de Huntington, que causa a morte das células do cérebro. É acusado pelos Estados Unidos dos crimes de conspiração, fraude no acesso a dispositivos e roubo de identidade agravado, por ser o principal suspeito de criar e administrar o RaidForums. Prestes a fazer 24 anos, arrisca ficar atrás das grades até aos 76 anos.

“O Diogo é um rapaz que sempre teve alguma dificuldade em socializar e o sítio onde se encontrou melhor e mais confiante para socializar foi no mundo cibernético. Desde cedo resguardou-se no mundo cibernético sem qualquer supervisão parental. Isto tem consequências dramáticas num miúdo qualquer”, explica a advogada Inês Almeida e Costa.

De origens humildes, Diogo Santos Coelho admite que não cresceu rodeado de tecnologia. O primeiro contacto com um computador com acesso à internet chegou no primeiro ciclo do ensino básico e abriu logo “um outro mundo” para o jovem que viria a ser diagnosticado com autismo. “O meu primeiro portátil e o meu primeiro acesso a um computador foi ainda no ensino básico. Quando utilizei um portátil Magalhães foi um outro mundo para mim. Desde aí fiquei muito focado em computadores”, conta o jovem à CNN Portugal.

Com apenas nove anos, mudou-se para o Reino Unido com os pais, mas a integração não foi fácil. Não falava a língua e na escola “as outras crianças eram cruéis” e diz ter sido vítima de bullying. Ao mesmo tempo, a relação entre os pais deteriorava. Este cocktail, segundo jovem, levou a que Diogo se refugiasse cada vez mais no seu computador. “Como não tinha amizades, não saia de casa”, recorda.

E os estudos ressentiram-se. Eram raras as vezes que ia às aulas e não conseguiu completar o ensino secundário. No entanto, com apenas 15 anos, as suas capacidades de programação já eram fortes o suficiente para ser chamado por uma empresa tecnológica britânica para fazer um estágio. Mas o que poderia ter sido uma carreira, acabou por durar pouco tempo. Menos de dois meses depois de ter começado, o pai de Diogo separou-se da mãe e levou, sem consentimento, de volta para Portugal. “Quando voltei para Portugal, o meu pai levou-me contra a minha vontade. Eu não queria ir. Fui sem o consentimento da minha mãe”, relembra.

Reservado e solitário, foi do interior do seu quarto, numa rua isolado nos arredores de Viseu, que Diogo é suspeito de ter criado um verdadeiro império no submundo da internet. A comunidade de hackers que criou terá facilitado a venda de mais de 10 mil milhões de dados individuais roubados, num valor de 400 milhões de euros, segundo a acusação.  À data do encerramento da plataforma, em 2022, tinha perto de 530 mil membros ativos. Segundo as autoridades, era “o maior fórum de hackers do mundo”.

Ataques aos gigantes das telecomunicações

Nos documentos com a investigação norte-americana, a que a CNN Portugal teve acesso, são relatadas algumas histórias das vítimas do hacker. Um dos casos é o alegado golpe ao gigante de telecomunicações T-Mobile, que sofreu um roubo de dados de 50 milhões de utilizadores que depois foram divulgados no fórum. A empresa terá aceitado pagar 252 mil euros em Bitcoin para reaver a informação.

As autoridades acreditam que Diogo Santos Coelho fez muito dinheiro com este sistema que ajudou a criar. Apesar de não ser acusado de estar envolvido em alguns dos maiores roubos de dados que foram colocados à venda na plataforma, os EUA acusam o jovem de criar um sistema de filiação, que obrigava os membros do fórum a comprar créditos no site, que eram utilizados para fazer as compras. Ao todo, as autoridades acreditam que os piratas fizeram mais de 400 milhões de euros com a venda de dados roubados no RaidForums.

Os investigadores americanos acreditam que Diogo obteve muito dinheiro com o serviço de mediação da venda de dados roubados com criptomoedas. O jovem hacker português oferecia-se para verificar a veracidade do conteúdo dos ficheiros roubados antes de o comprador enviar o dinheiro para os comprar. Assim que as duas partes estivessem satisfeitas, a transação era completa e Diogo recebia uma comissão pré-determinada. 

Diogo Santos Coelho terá recebido comissões de muitas destas vendas. Usava nomes como “Omnipotent”, “Downloading”, “Shiza” ou “Kevin Maradona” e liderava o site pelo menos desde 2015.

A operação que levou à sua detenção, a "Operação Tourniquet", teve a colaboração da Polícia Judiciária portuguesa e das autoridades dos EUA, Reino Unido, Suécia e Roménia. Além de Diogo Santos Coelho, foram presos dois dos seus alegados cúmplices. São todos suspeitos de terem traficado ou mediado vendas e resgates de dados de importantes empresas norte-americanas.

Muitos destes alegados crimes, garante a investigação, foram “praticados com recurso a um servidor informático alojado em Portugal”. Perante a dimensão e complexidade do caso, o FBI chegou mesmo a pedir a intervenção dos serviços secretos dos EUA que se infiltraram na operação e nos negócios do fórum de Diogo Santos Coelho.

Relacionados

Crime e Justiça

Mais Crime e Justiça

Patrocinados