Aos 21 anos, é o melhor marcador do campeonato italiano e a surpresa da primeira convocatória de Portugal depois da despedida de Cristiano Ronaldo. Cresceu nos relvados onde o pai trabalhava, passou pelo Sporting, atravessou a Europa ainda criança e regressou sozinho para jogar no Benfica, o clube do coração. A história de Gustavo Varela já tinha um capítulo improvável antes de Jorge Jesus lhe abrir as portas da Seleção
Fernando Varela tinha por hábito levar o filho aos treinos.
Gustavo ainda era pequeno e, quando chegava a hora de o treinador reunir os jogadores para dar instruções, lá aparecia também ele, no meio dos adultos, a ouvir a conversa. O pai, defesa-central internacional por Cabo Verde, desculpava-se com os colegas. "Não liguem."
A cena repetiu-se durante anos, à medida que Fernando foi mudando de clubes e de países. Gustavo cresceu a acompanhar-lhe a carreira e, quando começou a jogar futebol, tinha em casa alguém que sabia reconhecer-lhe os erros antes de ele próprio perceber onde tinha falhado.
A 10 de novembro de 2024, encontraram-se no Seixal, pela primeira vez como adversários. Fernando representava o Alverca, Gustavo o Benfica B. O pai tinha avisado, numa entrevista: "Já lhe disse que se tentar passar leva umas cotoveladas". Era uma brincadeira, embora os dois soubessem que, dentro de campo, dificilmente poderiam evitar encontrar-se. Um era defesa-central, o outro ponta de lança.
"Quando o meu pai tinha a bola, tinha de o pressionar. Tive sempre mais cuidado para não o pisar, para não o magoar", contou Gustavo depois. Fernando também admitiu a dificuldade de enfrentar o filho, apesar de ter entrado para disputar o jogo como qualquer outro. O Benfica ganhou por 2-1, com um golo de Joshua Wynder aos 84 minutos, quando Gustavo já saíra.
No final, abraçaram-se. A mãe assistira à partida com uma camisola feita de duas metades, uma do Benfica e outra do Alverca.
Fernando despediu-se pouco depois do futebol, satisfeito por ter conseguido viver aquele encontro. O filho continuou. E, dois anos mais tarde, chegou à Seleção Nacional, esta sexta-feira, 6 de novembro, um dia depois de Cristiano Ronaldo anunciar que deixava de representar Portugal.
A convocatória de Jorge Jesus encontrou Gustavo Miguel Pereira Sousa Varela em Itália, onde o avançado do Monza, aos 21 anos, lidera a lista de marcadores da Serie A. Tem nove golos em nove jornadas, mais dois na Taça de Itália, números inesperados para um jogador que, poucos meses antes, o Benfica tinha vendido por 2,5 milhões de euros.
A despedida de Ronaldo abriu uma vaga entre os avançados e Gustavo foi chamado a disputá-la com Gonçalo Ramos e Fábio Silva. Até há pouco tempo, a equipa principal do Benfica parecia ser o seu destino mais ambicioso.
Nascido em Lisboa, a 30 de janeiro de 2005, começou a jogar no Clube Miúdos Talentosos, em Cascais, passou pelo Sporting e acompanhou o pai quando este, depois do Estoril e do Steaua de Bucareste, assinou pelo PAOK, em 2016. A família instalou-se em Salónica. Fernando viria a conquistar o campeonato grego e a tornar-se uma figura importante do clube.
Gustavo continuou a jogar nos escalões de formação, passando por várias equipas até chegar aos sub-19, ainda com 16 anos.
Foi também na Grécia que começou a marcar presença nas seleções jovens portuguesas. Na última meia época pelo PAOK, fez cinco golos em 12 partidas e marcou na UEFA Youth League frente ao Zilina. Em janeiro de 2022, decidiu regressar a Lisboa. Os pais ficaram em Salónica e Gustavo, que tinha 16 anos, foi jogar para o Benfica, onde encontrou o clube de que era adepto.
"É um sonho, porque quando estava na Grécia queria voltar a jogar em Portugal. Estou no clube do meu coração, o Benfica", disse, na apresentação.
O regresso implicava viver longe dos pais, embora a família já estivesse habituada às distâncias impostas pelo futebol. Gustavo continuava a falar regularmente com Fernando, que lhe analisava os jogos e lhe apontava defeitos. Quando era mais novo, não gostava muito de ouvir as críticas. Com o tempo, passou a procurar o pai depois das partidas para lhe perguntar onde tinha errado.
A formação no Benfica levou-o dos juvenis aos juniores, aos sub-23 e à equipa B. Renovou contrato até 2028 e, em maio de 2024, estreou-se pela equipa principal frente ao Rio Ave. A convocatória foi festejada em casa "como se tivesse feito um golo aos 90 minutos".
Fernando, então jogador do Casa Pia, também tinha disputado um encontro nessa jornada e ainda conseguiu assistir à estreia. Gustavo chegou nervoso ao estádio, sem saber sequer por que porta devia entrar. Quando Rui Costa o abraçou, teve dificuldade em controlar as lágrimas. "Quase deitei uma lágrima. Mas consegui conter-me."
Recordaria depois o que lhe custara deixar os pais na Grécia. "Foi um risco muito grande, mas sabia que iria valer a pena." Noutra entrevista, falou do esforço da família e do peso que isso tinha nas suas decisões. "Não quero que eles tenham lutado em vão. Quero ser alguém na vida e provar-lhes que lutaram por alguma razão."
Fernando era, nas palavras do filho, o seu "maior crítico e maior admirador". Ensinara-lhe a posicionar-se, a defender e a ganhar duelos. Gustavo aproveitou os conhecimentos de um defesa-central para aprender os movimentos que poderiam criar dificuldades aos jogadores da posição do pai.
Ainda hoje, quando termina uma partida, gosta de ouvir a opinião de Fernando.
O Benfica ficou para trás. Os golos apareceram em Itália
Apesar da estreia na equipa principal, Gustavo nunca se afirmou na Luz.
Fez 60 jogos e 15 golos pela equipa B e marcou sete vezes em dez encontros da Youth League. Em 2025/26, foi emprestado ao Gil Vicente, onde terminou a época com sete golos e três assistências em 33 partidas. O Benfica não lhe reservou um lugar na equipa principal e, em julho de 2026, aceitou a proposta do Monza, recém-promovido à Serie A. Recebeu 2,5 milhões de euros e conservou direitos sobre uma futura transferência. O jogador assinou até 2030.
Em Itália, os golos apareceram quase imediatamente. Marcou ao Inter e à Udinese, fez dois ao Sassuolo e outros dois ao Cagliari, voltou a marcar contra Torino, Nápoles e Bolonha. Durante outubro, conseguiu quatro jogos consecutivos a marcar. Com nove golos nas primeiras nove jornadas, alcançou um registo que, segundo a Gazzetta dello Sport, nenhum jogador de 21 anos conseguia desde Pierino Prati, avançado do Milan, em 1968.
O português que chegara de Barcelos como uma aposta de futuro era já o melhor marcador do campeonato.
Ivan Juric, treinador do Monza, elogiou-lhe o trabalho nos treinos e a margem de progressão. "Não sei quantos golos vai marcar. Pode marcar muitos mais porque tem uma grande margem para continuar a melhorar." Gustavo prefere não fazer previsões: "Não penso muito mais à frente. Só em marcar no próximo jogo. As expectativas podem destruir a cabeça de um jogador".
Também não parece particularmente interessado na importância que lhe atribuem no Monza. Quando lhe perguntaram se já se considerava um líder, respondeu: "Não sou. Sou um jogador como os outros. Quero continuar assim para ajudar a equipa".
Havia, porém, um objetivo que o acompanhava desde as seleções jovens. "Sei que, ao dar o meu melhor pela equipa que represento, estou mais perto da Seleção Nacional", afirmara, quando ainda aguardava a primeira chamada. Jorge Jesus convocou-o esta sexta-feira para os encontros com a Dinamarca e o País de Gales, na primeira lista de Portugal sem Cristiano Ronaldo.
𝗚𝘂𝘀𝘁𝗮𝘃𝗼 𝗩𝗮𝗿𝗲𝗹𝗮 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮 𝗮 𝗯𝗿𝗶𝗹𝗵𝗮𝗿 𝗲𝗺 𝗜𝘁𝗮́𝗹𝗶𝗮. 💥
Português já tem o melhor registo de golos da carreira (11 golos em 2026/27), e está há 4 jogos consecutivos a marcar na Série A, algo que só um português ainda tinha feito: Cristiano Ronaldo. https://t.co/rcuGENz2ps
— Playmaker (@playmaker_PT) November 3, 2026
Ronaldo deixa a Seleção aos 41 anos, depois de mais de duas décadas a marcar golos por Portugal. Gustavo chega aos 21, com onze golos em dez jogos oficiais pelo Monza e apenas uma época completa na primeira divisão portuguesa. Terá de disputar o lugar com Gonçalo Ramos e Fábio Silva, num momento em que o futebol português procura habituar-se à ausência do seu melhor marcador de sempre.
Fernando Varela tinha 17 anos quando Gustavo nasceu. Quando se retirou, depois do encontro entre Alverca e Benfica B, disse que terminava a carreira feliz, sobretudo por ter vivido um momento que nunca imaginara possível. O filho confessou nessa altura que, quando era mais novo, pensava que um dia poderiam jogar juntos. Acabaram por se defrontar.
O rapaz que em criança se metia nas reuniões táticas do pai vai agora conhecer a primeira concentração da Seleção principal. Fernando já não joga, mas continua a acompanhar-lhe a carreira, a ver os jogos e a dizer-lhe o que podia ter feito melhor.