Maré rosa, versão 2.0? Falemos sobre Gustavo Petro

20 jun, 20:50
Gustavo Petro (Mauricio Duenas Castaneda/EPA)

Como uma vitória política inédita nos dá sinais sobre a esquerda e a direita num continente aqui ao lado

“Nunca senti uma vocação militar, o que eu queria era fazer a revolução.” Esta foi uma das frases mais marcantes de Gustavo Petro na biografia que o próprio escreveu quando ainda não tinha sido eleito presidente da Colômbia, feito que alcançou este domingo. Era daquela forma que o agora primeiro chefe de Estado de esquerda na história do país se referia ao grupo de guerrilha M-19, criado nos anos 1970 com o objetivo de tomar o poder pela força.

Nunca o conseguiu, tal como não o conseguiram as FARC, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Foi mesmo pela via democrática, pelo voto, que a esquerda conseguiu colocar um homem na presidência, um marco histórico que pode ter um significado muito além da Colômbia. Gustavo Petro foi eleito este domingo com 50,47% dos votos na segunda volta das eleições, de acordo com os resultados oficiais.

O seu adversário, o milionário Rodolfo Hernandez, obteve 47,27% dos votos, uma diferença de quase 700 mil votos, indicam os resultados publicados pelo Registo Nacional, responsável pela organização da eleição.

Uma nova maré rosa?

"Maré rosa" foi uma expressão que ficou popular no início do século XXI, quando Lula da Silva, Hugo Chávez e Evo Morales subiram às presidências de Brasil, Venezuela e Bolívia. Cristina Kirchner, presidente da Argentina por essa altura, chegou a chamar-lhes “os três mosqueteiros” da esquerda sul-americana.

A onda pegou e em 2011 apenas o Chile e a Colômbia não tinham governos de esquerda na América do Sul. A situação foi mudando e, em 2018, 8 dos 12 governos sul-americanos eram de direita. Eleições na Argentina, no Chile ou, como agora, na Colômbia, alteraram a situação: são agora 8 os governos de esquerda.

O embaixador Francisco Seixas da Costa, que representou Portugal no Brasil entre 2005 e 2008, explica à CNN Portugal que a América do Sul é uma região composta de ciclos, apontando uma deriva anti-liberal que se começa a notar: “Há um ciclo de exaustão do modelo liberal que proporcionou o surgimento destas figuras. A América do Sul tem ciclos, só que no caso da Colômbia, que é um caso particular, os ciclos não abrangiam a esquerda”.

E é Gustavo Petro a representar essa mudança. Um homem de 62 anos que se define como "revolucionário obstinado" e que ingressou na política logo aos 17, na altura de forma armada, quando decidiu que se iria juntar ao M-19. Filho de uma família de classe média, foi educado por padres e formou-se em economia e todos os dias se sentia assoberbado pela pobreza nos arredores de Bogotá, onde vivia.

Após 10 anos no M-19, acabou por ser preso por ações ligadas ao grupo em 1985 e estava na cadeia quando o M-19 ocupou o edifício máximo da Justiça. Nos 18 meses que esteve na prisão foi agredido e eletrocutado pelas autoridades por várias vezes. Durante os seus tempos de guerrilheiro adotou o nome Aureliano em homenagem ao personagem principal do livro "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez, de quem Gustavo Petro era admirador.

Mulher celebra vitória de Gustavo Petro com bandeira do M-19 (Ivan Valencia/AP)

O M-19 foi desmantelado em 1990, naquilo que foi considerado um grande acordo de paz para a altura. Transformou-se então num partido político (o Aliança Democrática M-19), que ajudou a reescrever a Constituição, focando a sua “luta” na igualdade e nos direitos humanos. Foi nesse crescendo que Gustavo Petro entrou em funções políticas.

Gustavo Petro foi eleito deputado no ano seguinte, em 1991, mas teve de fugir para a Bélgica depois de receber várias ameaças de morte. Regressou ao país para ser novamente eleito em 1998.

Entre 2006 e 2010 foi senador, alcançando uma maior preponderância. Fez campanha com denúncias sobre corrupção e revelou várias ligações entre políticos e fações criminosas, atacando inclusivamente o então presidente Álvaro Uribe. No fim desse período concorreu à presidência, mas não foi além dos 9%. Seguiu-se um mandato como prefeito de Bogotá, onde criou a secretaria da Mulher e foi responsável por vários avanços sociais nas áreas da Saúde, do Emprego e da Solidariedade Social.

Em 2018 voltou a candidatar-se, mas acabou por não se conseguir descolar da amizade que tinha com Hugo Chávez, tendo sido constantemente acusado de querer transformar a Colômbia na nova Venezuela. Agora voltou a encontrar Iván Duque, para na segunda volta levar a melhor.

Francisco Seixas da Costa separa o caso colombiano dos restantes, apontando que Gustavo Petro “não parece ser tão radical” como outros governantes que ascenderam recentemente ao poder, como é o caso de Gabriel Boric, eleito presidente do Chile.

“A sensação que eu tenho é que cada caso é um caso. Tem que ver com um momento de mal-estar, de reação às desigualdades e com a tal falência do modelo liberal”, afirma.

A ligação "íntima" aos Estados Unidos e o teste venezuelano

Se a Colômbia nunca teve governos de esquerda, em grande parte isso se deve a uma estreita relação com os Estados Unidos: “A Colômbia é o país da América do Sul que tem a relação mais íntima com os Estados Unidos”, diz o embaixador Francisco Seixas da Costa.

Esta relação estreitou-se com as operações de combate ao tráfico de droga, quando chegaram a existir vários agentes da Drug Enforcement Administration (DEA), órgão federal norte-americano que lida com os casos de droga, na Colômbia. Foi o combate aos narcos, que é retratado na série da Netflix com aquele mesmo nome e que se foca sobretudo em Pablo Escobar.

“O investimento norte-americano deu um respaldo muito grande às forças colombianas”, recorda Francisco Seixas da Costa, que vê esta relação a poder ser dificultada, o que “não deixa de corresponder a uma mudança da orientação da política colombiana”. “Este é o elemento mais disruptor relativamente à vitória do novo presidente”, acrescenta.

No discurso de vitória, Gustavo Petro propôs que a América Latina se una para dialogar com os Estados Unidos e lançar as bases para uma "transição energética" face aos danos causados pelas mudanças climáticas. "Proponho ao governo dos Estados Unidos e a todos os governos das Américas que nos reunamos num diálogo para estabelecer os passos da transição energética, os passos da construção de uma economia descarbonizada, os passos da construção de uma economia da vida em toda a América", disse Petro no domingo no primeiro discurso depois de vencer a segunda volta das eleições.

O economista, de 62 anos, disse que a prioridade da política diplomática do governo será que a Colômbia esteja "na vanguarda mundial no combate às mudanças climáticas". "A ciência mostrou-nos que, como espécie humana, podemos desaparecer a curto prazo. A dinâmica de acumulação de um mercado desenfreado, instintos desenfreados de ganância e um processo de consumo desenfreado estão prestes a terminar com os próprios fundamentos da existência. Nem a esquerda nem a direita nos dizem, é a ciência que nos diz", salientou.

Gustavo Petro sublinhou que os Estados Unidos são o país que mais emite gases de efeito estufa, “absorvidos no sul”, na Amazónia. "Se são emitidos lá e nós absorvemos aqui, porque não conversamos? Porque não estabelecemos outra forma de nos entendermos?"

Por outro lado, Francisco Seixas da Costa vê a forma como a Colômbia se vai relacionar com a Venezuela como decisiva para se perceber o posicionamento de Gustavo Petro. “A Venezuela é um teste de credibilidade. O presidente eleito deu sinais de querer fazer alguma normalização das relações”, indica o embaixador, vincando que “o problema não é entre esquerda ou direita, mas de democracia ou ditadura”. “Uma aproximação à Venezuela que esquecesse o ambiente de ditadura que se vive seria um mau sinal”, acrescenta, falando, nesse cenário, numa “conivência com Nicolás Maduro”.

Contágio do Brasil?

Francisco Seixas da Costa admite um “efeito de contágio” desta vitória da esquerda na Colômbia em vários países da América do Sul, até porque a situação é de uma reação por parte da esquerda. O embaixador refere que isso pode estar relacionado com a questão das desigualdades. O grande teste para se saber se existe efetivamente uma deriva de esquerda será em outubro, quando o Brasil vai ter eleições presidenciais.

“O grande país que toda a gente espera pelos resultados é o Brasil”, aponta o embaixador, mencionando a possível vitória de Lula da Silva sobre Jair Bolsonaro, o que traria de volta a esquerda ao Palácio do Planalto.

A esquerda de volta mas não a alta velocidade. É que, para o embaixador, Lula da Silva, mesmo que ganhe, nunca irá fazer uma guinada demasiado radical: “Se ganhar, como as probabilidades apontam, não se espera uma viragem à esquerda forte. O Brasil é como um grande paquete, para mudar de rumo tem de mudar devagar".

Ainda assim, Francisco Seixas da Costa admite que esta situação na Colômbia possa ser vista como um "farol" para o que se vai passar em outubro, quando Jair Bolsonaro vai tentar manter-se no poder, evitando o regresso da esquerda à presidência.

E Lula da Silva foi mesmo um dos primeiros a reagir à eleição de Gustavo Petro: "Felicito calorosamente os companheiros Gustavo Petro e Francia Márquez [no cargo de vice-presidente] e todo o povo colombiano pela importante vitória nas eleições deste domingo”.

O histórico líder da esquerda brasileira apoiou Gustavo Petro na campanha eleitoral como parte de um movimento para promover o regresso da esquerda ao poder na América Latina.

A antiga presidente brasileira Dilma Rousseff, também do Partido dos Trabalhadores (PT) do Brasil, comemorou a "vitória histórica" da esquerda na Colômbia e destacou a sua importância para o resto do continente. “É uma grande vitória para o bravo povo colombiano e é também um alento e uma esperança renovada para todas as nações da América Latina que lutam pela democracia e contra o neoliberalismo.”

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