Pagar em yuan, receber em armas e comprar à Índia. Como os petroleiros russos estão a contornar as sanções

28 jun, 11:14
Petroleiro russo (David Ryder/Getty Images)

Cada vez mais petroleiros desligam sistemas de identificação para transferir petróleo russo sem serem detetados. E, para que não fique rasto da transação, países europeus estarão a pagar em yuan, provavelmente à Índia, o petróleo que a Europa não quer comprar para prejudicar a economia de Moscovo

A Índia aumentou as suas importações de petróleo russo nos últimos meses, numa altura em que a Europa procura reduzir a dependência energética de Moscovo; o aumento das importações indianas, porém, faz desconfiar de que a Índia estará a comprar petróleo russo com desconto para o enviar para a Europa. 

Em maio, a Índia importou cerca de 800 mil barris de petróleo por dia da Rússia, e a agência Fitch prevê que este número possa chegar rapidamente ao milhão de barris diários, 20% do total das importações indianas. 

Fontes citadas pelo The Guardian admitem que é muito difícil monitorizar os carregamentos de petróleo russo que chegam à Europa via Índia, até porque os petroleiros recorrem a várias táticas para se tornarem invisíveis e as transações são feitas de forma a não levantar suspeitas.

Financeiramente, esta ocultação é feita pagando o petróleo russo em yuan, até porque as trocas de moeda chinesa e rublos russos têm vindo a subir de forma sustentada desde fevereiro, mês em que o Kremlin decidiu invadir a Ucrânia, sem que a China se posicionasse contra a ofensiva e sem manifestar oposição a Moscovo, aliado de longa data.

Em alternativa ao uso de yuan, os vendedores estarão igualmente a trocar o petróleo russo por bens como ouro, comida ou mesmo armas.

Também aumentaram as transferências de cargas entre embarcações, sugerindo que o petróleo está a ser mudado de petroleiros russos para petroleiros com bandeiras de outros países. E cada vez mais petroleiros estão a desligar os sistemas de identificação enquanto o petróleo é transferido em alto mar.

Grécia, Chipre ou Malta tanbém duplicaram a quantidade de petróleo russo que enviam desde que a guerra começou, e os produtos petrolíferos da Rússia estão provavelmente a acabar nos Estados Unidos, acrescenta ainda o Business Insider

Petróleo com desconto

"As refinarias indianas estão claramente a receber volumes significativos de crude russo com desconto e a reexportar uma proporção material de produto refinado para fora do país", disse ao Guardian Craig Howie, analista da Shore Capital, empresa especializada em prestação de serviços financeiros com sede no Reino Unido. "O racional comercial aqui é naturalmente compreensível, mas parece ser contrário ao claro objetivo do Ocidente de dificultar a economia russa e a máquina de guerra", acrescenta o analista.

Com a guerra a arrastar-se na Ucrânia, os petroleiros russos que transportam o crude bruto e os produtos petrolíferos estão mesmo a desaparecer cada vez mais dos sistemas de monitorização: a atividade obscura dos petroleiros ligados à Rússia aumentou 600 % em comparação com o que acontecia antes do início da guerra.

A maioria destas transferências ocorre em águas onde o risco de derramamento de petróleo é reduzido drasticamente. As trocas costumavam ter lugar na costa da Dinamarca, mas recentemente têm sido observadas no mar Mediterrâneo, a norte de Ceuta ou no Mar do Norte, perto de Roterdão. Mais recentemente, foram detetadas quase em águas portuguesas, ao largo dos Açores.

Na sequência da invasão da Ucrânia, a Comissão Europeia aprovou no final de maio um embargo ao petróleo russo, que prevê o corte de 90% das importações de petróleo da Rússia até fim do ano. O vice-primeiro-ministro da Rússia, Alexander Novak, veio entretanto dizer que a medida é "motivada politicamente, não economicamente" e que afetará os consumidores europeus em primeiro lugar.

O porta-voz do Kremlin sublinhou mesmo que, se a procura diminui nalguns locais, aumentará noutros, pelo que a Rússia nunca venderá petróleo "com prejuízo". 

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