Navios petroleiros russos estão a desaparecer do mapa

CNN , Por Matt Egan
9 abr, 15:00
Extração de petróleo em Nefteyugansk, Rússia (Reuters)

Regulamentos internacionais exigem que navios como os petroleiros mantenham os seus transmissores quase sempre ligados

A invasão da Ucrânia pela Rússia tornou o país um intocável no mercado global de energia. Desde o início da guerra, surgiu um embargo ao petróleo russo, com as empresas petrolíferas, os intermediários, as transportadoras e os bancos a recuarem, todos ao mesmo tempo.

No entanto, agora, há sinais de que a energia russa está a atrair o interesse de potenciais compradores. À medida que se arrasta a guerra na Ucrânia, os petroleiros russos que transportam o crude bruto e os produtos petrolíferos estão a desaparecer cada vez mais dos sistemas de rastreamento.

A chamada atividade obscura, quando os transmissores dos navios são desligados durante horas a fio, já foi vista no passado pelas autoridades dos EUA como uma prática enganosa de transporte que é frequentemente usada para evitar sanções.

A atividade obscura entre os petroleiros ligados à Rússia aumentou 600 % em comparação com o que acontecia antes do início da guerra, disse à CNN a empresa de informações Windward.

“Assistimos a um aumento de situações em que os petroleiros russos desligam os transmissores deliberadamente para contornar as sanções”, disse o CEO da Windward, Ami Daniel, em entrevista. “A frota russa começa a esconder o seu paradeiro e as suas exportações.”

E isso não acontece apenas com o crude. Também estão a acontecer tendências semelhantes com outros produtos petrolíferos.

Durante a semana de 12 de março, houve 33 ocorrências de atividade obscura por parte de petroleiros russos de transporte de produtos químicos e derivados de petróleo, segundo a Windward, que usa inteligência artificial para rastrear a indústria marítima. Isso é 236 % mais do que a média semanal dos 12 meses anteriores.

“Estes navios querem desaparecer”

Os regulamentos internacionais exigem que navios como os petroleiros mantenham os seus transmissores quase sempre ligados.

Em maio de 2020, o Departamento do Tesouro dos EUA enviou um aviso de sanções às indústrias marítima, energética e metalúrgica para abordar “as práticas ilícitas do transporte e a fuga às sanções.”

O primeiro exemplo listado foi “a desativação ou manipulação” dos sistemas de identificação automática (AIS) nas embarcações para “disfarçar os seus movimentos”.

“A manipulação e a interrupção do AIS podem indicar potenciais atividades ilícitas ou sancionáveis”, alertou o Tesouro.

Os navios também podem desligar os transmissores por razões de segurança, inclusive quando viajam em águas infestadas de piratas. Mas Daniel, CEO da Windward, disse que não é por isso que os navios estão a desaparecer agora.

“Estas embarcações querem desaparecer do radar. Do ponto de vista do cumprimento dos regulamentos, é um sinal de alerta”, disse ele.

Em comunicado à CNN, um porta-voz do Tesouro disse que a agência está “consciente destes relatórios” e trabalha com parceiros e através de uma “variedade de métodos” para não depender apenas dos transmissores para rastrear embarcações de interesse.

Copiando uma página do manual do Irão

Um comportamento semelhante foi observado na década passada, quando os Estados Unidos impuseram sanções contra a Venezuela e o Irão, tornando ilegal a compra de petróleo a estes países.

“A Rússia está a seguir os manuais venezuelano e iraniano, com uma pequena reviravolta”, disse Andy Lipow, presidente da consultora Lipow Oil Associates.

A reviravolta é que, ao contrário do que aconteceu com a Venezuela e o Irão, o Ocidente não impôs sanções diretamente ao petróleo da Rússia.

Sim, a Casa Branca proibiu as importações de petróleo russo para os Estados Unidos. Mas isso não proíbe outros países de comprarem energia russa.

“Um desastre de relações públicas”

Ainda assim, o mero estigma de fazer negócios com a Rússia, juntamente com a incerteza das sanções, criou um embargo de facto. Os analistas dizem que isso ajuda a explicar o aumento da atividade obscura dos navios de pavilhão russo. Os compradores não querem ser apontados como aqueles que usam petróleo russo durante a guerra mortífera na Ucrânia.

“É um desastre de relações públicas”, disse Robert Yawger, vice-presidente de futuros de energia da Mizuho Securities.

Da mesma forma, as companhias de navegação podem querer evitar o escrutínio que resulta do manuseamento do petróleo russo.

“Os navios estão a desligar os transmissores porque temem que, ao aceitarem negócios russos, sejam postos na lista negra durante um certo período de tempo e fiquem impossibilitados de negociar no futuro”, disse Lipow.

No entanto, há uma razão financeira para comprar petróleo russo agora. A procura por energia está muito alta e - em grande parte por causa das sanções - o petróleo russo está a ser negociado a cerca de 30 dólares abaixo do Brent, a referência mundial.

“É um grande desconto”, disse Michael Tran, diretor-geral de estratégia global de energia da RBC Capital Markets. “O incentivo económico existe, se não estiverem preocupados com as sanções.”

Para onde vai o petróleo?

A empresa de pesquisa Rystad Energy estima que tenham desaparecido, por dia, entre 1,2 e 1,5 milhões de barris das exportações russas de petróleo bruto, nas cinco semanas desde o início da guerra.

“O destino das restantes exportações de petróleo da Rússia... é cada vez mais 'desconhecido'”, escreveu a Rystad Energy num relatório, esta semana, observando que esse petróleo misterioso totaliza cerca de 4,5 milhões de barris por dia.

Então, quem está a comprar o petróleo russo?

Os analistas dizem que há evidências de que algumas refinarias na China e na Índia, dois dos maiores consumidores de petróleo do mundo e das economias de crescimento mais rápido, estão a comprar energia russa às escondidas.

Tran diz que as empresas de trading podem estar a comprar o petróleo russo e a armazenar os barris, incluindo no chamado “armazenamento flutuante” em petroleiros que permanecem no mar.

Além da atividade obscura, Windward descobriu que alguns navios e empresas ainda lidam com petroleiros ligados à Rússia e realizam transferências de navio para navio.

Em 2020, o Tesouro alertou que as transferências de navio para navio, especialmente à noite ou em zonas consideradas de risco elevado de fuga às sanções, são “frequentemente usadas para evitar as sanções, ocultando a origem ou o destino” do petróleo, do carvão e de outros materiais.

Apesar da guerra na Ucrânia e das sanções contra a Rússia, o número de encontros entre navios - que duraram pelo menos três horas - entre petroleiros ligados à Rússia e outros navios, tem sido “relativamente normal”, disse Windward.

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