O que precisa de saber sobre a Finlândia, a Suécia e a NATO

CNN , Joshua Berlinger
15 mai, 11:09

A Finlândia está à beira de aderir à NATO e a Suécia está prestes a seguir o exemplo. Eis o que precisa de saber sobre como a guerra na Ucrânia empurrou os dois estados nórdicos para mais perto da aliança apoiada pelos EUA - e o que vem a seguir.

Por que razão a Finlândia e a Suécia ainda não aderiram à NATO?

Enquanto outros países nórdicos como a Noruega, a Dinamarca e a Islândia foram membros originais da aliança, a Suécia e a Finlândia não aderiram ao pacto por razões históricas e geopolíticas.

Tanto a Finlândia - que declarou a independência da Rússia em 1917 após a revolução bolchevique – como a Suécia adotaram posições neutras de política externa durante a Guerra Fria, recusando-se a alinhar com a União Soviética ou com os Estados Unidos.

Para a Finlândia, isso revelou-se mais difícil, pois partilhava uma enorme fronteira com uma superpotência autoritária. Para manter a paz, os finlandeses adotaram um processo que alguns chamam de "finlandização", no qual os líderes de tempos em tempos acatam exigências soviéticas.

Os atos de equilíbrio de ambos os países terminaram efetivamente com o colapso da União Soviética. Juntaram-se à União Europeia em 1995 e, gradualmente, alinharam as suas políticas de defesa com o Ocidente, enquanto ainda evitavam juntar-se à NATO [ou, em português, OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte].

Cada um dos países tinha razões diferentes para evitar a adesão ao pacto da NATO, em conjunto com a UE.

Para a Finlândia, a razão foi mais geopolítica. A ameaça para a Rússia é mais tangível, graças à fronteira de 1.300 quilómetros partilhada pelos dois países.

"A Finlândia tem sido o país exposto, nós temos sido o país protegido", disse o ex-primeiro-ministro sueco, Carl Bildt, a Christiane Amanpour, da CNN, em entrevista conjunta ao lado do ex-primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb.

Embora seja uma nação independente, a geografia da Suécia coloca-a no mesmo "ambiente estratégico" dos seus vizinhos democráticos liberais, disse Bildt. A Finlândia e a Suécia desfrutam de uma parceria próxima há décadas, com Estocolmo a ver a sua decisão de se abster de entrar na NATO como uma forma de ajudar a manter a tensão fora de Helsínquia. Agora, no entanto, é provável que a Suécia siga o exemplo da Finlândia.

"Partilhamos a ideia de que uma cooperação estreita beneficiará ambos", disse a atual primeira-ministra sueca, Magdalena Andersson, numa conferência de imprensa no mês passado, ao lado de sua colega finlandesa, Sanna Marin.

Membros europeus da NATO: os que se juntaram antes de 1991 (a amarelo claro) e os que se juntaram depois disso (a amarelo carregado).  

O que implica a adesão à NATO?

A razão pela qual a maioria dos países aderiu à NATO foi por causa do Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte, que estipula que todos os signatários consideram um ataque a um membro como um ataque contra todos.

O Artigo 5 tem sido a pedra angular da aliança desde que a NATO foi fundada em 1949 como contrapeso à União Soviética.

O objetivo do Tratado, e especificamente do Artigo 5, era impedir que os soviéticos atacassem as democracias liberais que careciam de força militar. O Artigo 5 garante que os recursos de toda a aliança - incluindo as maciças forças armadas dos EUA - podem ser usados ​​para proteger qualquer nação membro, incluindo países menores que estariam indefesos sem os seus aliados. A Islândia, por exemplo, não tem exército permanente.

Bildt afirmou que não vê novas grandes bases militares a serem construídas em nenhum dos países se eles se juntarem à NATO. E disse que ingressar na aliança provavelmente significaria mais treino e planeamento militar conjunto entre a Finlândia, a Suécia e os 30 membros atuais da NATO. As forças suecas e finlandesas também podem participar noutras operações da NATO em todo o mundo, como as dos países bálticos, onde várias bases têm tropas multinacionais.

"Haverá preparativos para contingências, como parte de dissuadir quaisquer aventuras em que os russos possam estar a pensar", disse Bildt. "A mudança real será bastante limitada."

Forças da NATO ao longo da fronteira a leste. Cerca de 12 mil militares da NATO e soldados americanos constituem a primeira linha de defesa na Europa de leste. A NATO tem também 22 caças na região e um centro de defesa de mísseis balísticos na Roménia, com outro em construção na Polónia.

Por que razão a Rússia odeia a NATO?

O presidente russo, Vladimir Putin, vê a aliança como um baluarte apontado à Rússia, apesar de ela ter passado grande parte dos anos pós-soviéticos a concentrar-se em questões como terrorismo e manutenção da paz.

Antes de invadir a Ucrânia, Putin deixou claro a sua crença de que a NATO se havia aproximado demais da Rússia e deveria ser despojada das suas fronteiras da década de 1990, antes que alguns países vizinhos da Rússia ou ex-estados soviéticos se juntassem à aliança militar.

O desejo da Ucrânia de ingressar na NATO e seu estatuto como parceiro da NATO - visto como um passo no caminho para uma eventual adesão plena - foi uma das inúmeras queixas citadas por Putin na tentativa de justificar a invasão do seu país ao vizinho.

A ironia é que a guerra na Ucrânia deu, efetivamente, um novo propósito à NATO.

"O Artigo 5 está de volta ao jogo, e as pessoas entendem que precisamos da NATO por causa de uma potencial ameaça russa", disse Stubb em entrevista à CNN antes da invasão.

Porque a guerra na Ucrânia mudou tudo

A invasão da Ucrânia pela Rússia foi a gota de água que levou a Suécia e a Finlândia a acionar o gatilho para a adesão à NATO.

Se o Kremlin esteve disposto a invadir a Ucrânia, um país com 44 milhões de pessoas, um PIB de cerca de quase 500 mil milhões de euros e um exército de 200 mil soldados ativos, o que impediria Putin de invadir países mais pequenos, como a Finlândia e a Suécia?

"Tudo mudou quando a Rússia invadiu a Ucrânia", disse Marin em abril. "A mentalidade das pessoas na Finlândia, e também na Suécia, mudou e mudou muito dramaticamente."

Desde a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro, o apoio público à adesão à NATO na Finlândia saltou de cerca de 30% para quase 80%, em algumas sondagens. A maioria dos suecos também aprova a adesão do seu país à aliança, de acordo com sondagens de opinião.

"A nossa adesão à NATO foi decidida em 24 de fevereiro, às 5 horas da manhã, quando Putin e a Rússia atacaram a Ucrânia", disse Stubb. "A Finlândia e a Suécia não se teriam juntado sem este ataque."

Autoridades da Suécia e da Finlândia também expressaram a sua frustração porque, no período que antecedeu a guerra na Ucrânia, a Rússia tentou exigir garantias de segurança da NATO para que a aliança parasse de expandir-se para leste. Tal concessão, no entanto, teria efetivamente dado à Rússia o poder de ditar as políticas externas dos seus vizinhos, tirando a sua capacidade de escolher os seus próprios aliados e parceiros.

A Rússia, disse o ministro da Defesa sueco Peter Hultqvist à CNN, quer "influência real nas escolhas de segurança na Europa". "Eles querem uma influência sobre os países vizinhos. E isso é totalmente inaceitável para a Suécia."

O que vem depois?

Os líderes finlandeses anunciaram na quinta-feira a sua intenção de se juntarem à NATO. A Suécia deve seguir o exemplo, possivelmente já na segunda-feira, de acordo com o Bildt.

A Finlândia disse que espera solicitar a adesão "sem demora" e concluir as etapas necessárias a nível nacional "nos próximos dois dias". Isso incluirá uma votação no parlamento finlandês, que finalmente votará sobre a decisão de aderir.

Diplomatas da NATO disseram à Reuters que a ratificação de novos membros pode demorar um ano, já que as legislaturas de todos os 30 atuais membros devem aprovar novos candidatos. Ambos os países já cumprem muitos dos critérios de adesão, que incluem ter um sistema político democrático funcional baseado numa economia de mercado; tratar de forma justa as populações minoritárias; comprometer-se a resolver conflitos pacificamente; a capacidade e a vontade de fazer uma contribuição militar para as operações da NATO; e comprometer-se com as relações e instituições democráticas civis-militares.

Sendo duas democracias liberais prósperas, a Suécia e a Finlândia cumprem os requisitos para entrar na NATO - embora a Turquia, por exemplo, possa tornar o processo mais difícil para os aspirantes a membros. O presidente daquele país, Recep Tayyip Erdogan, disse na sexta-feira que não estava a ver “positivamente” os dois países juntarem-se à NATO, acusando-os de abrigar "organizações terroristas" curdas.

Enquanto isso, ambos os países terão de contar com os seus atuais aliados e parceiros para ter garantias de segurança, em vez do Artigo 5. A Suécia e a Finlândia receberam garantias de apoio dos Estados Unidos e da Alemanha caso sejam atacados, enquanto o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, assinou esta semana acordos de segurança mútua com os seus colegas finlandeses e suecos.

Quando aderiram os países à NATO

1949 - A NATO foi formada com os membros fundadores Bélgica, Canadá, Dinamarca, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Portugal, Reino Unido e Estados Unidos
1952- Grécia, Turquia
1955 - Alemanha Ocidental
1982 - Espanha
1999 - República Tcheca, Hungria, Polónia
2004 - Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Roménia, Eslováquia, Eslovénia
2009 - Albânia, Croácia
2017 - Montenegro
2020 Macedónia do Norte
Nota: a antiga Alemanha Oriental tornou-se parte da NATO quando a Alemanha se reunificou, em 1990.

Como reagiu a Rússia?

A Rússia criticou a decisão. O seu Ministério dos Negócios Estrangeiros disse em comunicado que a Finlândia adotou uma "mudança radical" na política externa, que forçará a Rússia a tomar "medidas de retaliação, tanto de natureza técnico-militar quanto de outra natureza".

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que "a expansão da NATO não torna o mundo mais estável e seguro". E acrescentou que a reação da Rússia dependerá "para quão longe e quão perto das nossas fronteiras a infraestrutura militar se moverá".

A Rússia partilha atualmente cerca de 1.200 quilómetros de fronteira terrestre com cinco membros da NATO, de acordo com a aliança. A adesão da Finlândia significaria que uma nação com a qual a Rússia partilha uma fronteira de quase 1.300 quilómetros se tornaria formalmente alinhada militarmente com os Estados Unidos.

A soma da Finlândia e da Suécia seria não apenas uma má notícia para o Kremlin, mas beneficiaria a aliança. Ambos os países são sérias potências militares, apesar das suas pequenas populações.

No entanto, Bildt e Stubb, ex-primeiros-ministros sueco e finlandês, acreditam que até agora a resposta da Rússia tem sido relativamente silenciosa. "O Kremlin vê a adesão da Finlândia e da Suécia à NATO como uma solução nórdica e, nesse sentido, não uma ameaça radical", disse Stubb. "Não estamos muito preocupados."

Stubb e Bildt disseram acreditar que Moscovo vê os dois países como vizinhos confiáveis, apesar de sua decisão de se juntarem a uma aliança apoiada por Washington. Bildt remata: "O fato de a Finlândia e a Suécia fazerem parte do Ocidente não é uma surpresa".

 

Luke McGee, Nic Robertson e Paul LeBlanc da CNN e a Reuters contribuíram para este artigo

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