Ao fim de dois meses, mudou tudo

26 abr, 19:03

Era uma coisa simples, mas não foi

A guerra na Ucrânia ainda não terminou, é de antever que não termine tão cedo. A notícia maior são os mais de dois meses desde o seu início, e a outra ainda maior notícia é que não se vê agora, sequer, que cheguem mais dois meses. O conflito, no entanto, está mais “privado”, menos exposto ao escrutínio, mais estranho e surpreendente. Por exemplo, as forças ucranianas estão a levar a cabo ações de sabotagem da cadeia logística russa dentro do território russo. Quem se atreveria a imaginar este cenário?

Depois, no que também podem ser ações para multiplicar as frentes das forças russas, e assim obrigá-las a dividirem-se, a Transnístria está a dar que falar, com várias explosões e ações de sabotagem. Para quem tenta olhar para estas coisas de uma forma mais ou menos imparcial, não parece plausível que desta feita seja obra russa, uma vez que os russos já tinham dado conta do seu apetite por aquela região e da possibilidade de andarem por ali, capturando todo o sul ucraniano. Isto implicaria, naturalmente, Odessa, e confesso que começa a parecer comida a mais para a digestão das forças de Vladimir Putin.

Continua a haver um facto indiscutível controvertido, como disse o Secretário-Geral Guterres, a seguir à sua reunião desta terça-feira, 26 de abril, com o MNE russo, Lavrov. E esse é que, podendo haver as mais díspares interpretações, duma coisa ninguém duvide: são as forças russas que estão na Ucrânia, não são as forças ucranianas que estão na Rússia.

As informações vindas do conflito estão agora a ser menos, porque o teatro de operações mudou para Leste. Aí, o controlo russo é mais apertado. Ainda assim, mantém-se a perceção de que, no conflito propriamente dito, a Ucrânia ganhou ou está a ganhar. Principalmente, porque não foi derrotada, porque já estão transcursos mais de dois meses da invasão, porque o poder político na Ucrânia se reforçou muito (de facto, ascendeu ao estrelato) e o poder político na Rússia levou uma estocada, daquelas que não matam no imediato, mas vão sangrando e debilitando sem remissão. Ou seja: o tempo, o tic-tac do relógio, vai, em proporção, custando cada vez mais à Rússia, cada vez menos à Ucrânia.

A avaliação de custos ucraniana

É inegável que a Ucrânia já interiorizou níveis de destruição do País muito elevados. Pelas últimas contas, já iam para lá dos 60 mil milhões de euros, mas, estranhamente, (embora a Ucrânia invoque sempre o contrário, como é de bom tom), esse aspeto já lhe é quase “irrelevante” – passe o exagero.

Primeiro, porque, se for do “lado” que a Rússia não controla, acionará um “seguro” de reconstrução contra todos os riscos, cujo capital ultrapassa em muito tudo aquilo que os bombardeamentos russos ou outros desmandos consigam deitar abaixo. Ou seja, como todos já sabem, os bens e haveres congelados, ou já confiscados, à Rússia e a alguns dos seus nacionais chegam, e sobram, para o efeito.

Depois, sendo este aspeto mais sombrio, se essa destruição estiver a ocorrer do “lado” ainda controlado pela Rússia, das duas, uma: ou a Rússia consegue manter a sua presença, e ficará em mãos com entulho e carcaças de tudo o que se possa imaginar. Ou, então, esses territórios voltam ao dono, ficarão sem russófonos e, quanto à sua recuperação, voltar-se-á à casa partida, passando pelo banco do dinheiro russo que retido com esse propósito. Em qualquer dos casos, “ganha” a Ucrânia. É por isso que a Ucrânia deixou de falar em negociações para terminar o conflito, evita até tocar no assunto, não quer cessar-fogo, não quer nada.

É curioso que, no entanto. Em Azovstal está a maior pedra no sapato da Ucrânia (muito mais do que em Mariupol), aquilo que ela não aceita perder. Ali estão civis, realmente muitos e em situação humanitária desesperada, mas cada vez é mais difícil aceitar que não saiam porque não querem ser transportados para a Rússia. É óbvio que a Rússia, saíssem eles, deixaria que fossem transportados por quem quer que fosse para onde muito bem entendessem. Apenas, aqueles civis são o seguro de vida dos combatentes do Batalhão de Azov que também se encontram naquelas instalações industriais – com violação do art. 27 da Convenção IV de Genebra, de 1949.

Este talvez seja o único caso em que se compreendeu que a Rússia tinha conseguido uma “vantagem”, quase psicológica, sobre o Presidente ucraniano. Este logo declarou que, se aqueles combatentes (aqueles combatentes, especificamente) fossem eliminados, não participaria mais em negociações. E, mais tarde, a Ucrânia propôs que a nova ronda negocial fosse em Mariupol, junto a Azovstal. Além de aquele batalhão ser, talvez, a força mais credível e competente da Ucrânia, pelo que a sua perda (significativa, pelo menos) seria pesada para o moral das forças ucranianas, há outras razões, muito políticas, extremamente políticas, que agora não interessa desenvolver, que explicarão esta preocupação apaixonada de Zelensky.

No que mais importa, voltemos ao assunto: a Ucrânia quer é uma vitória clara, e vai a caminho de, com tempo, a conseguir. Vejam-se, a este respeito, as declarações a este respeito do Secretário da Defesa norte-americano – é muito claro e incisivo quanto ao assunto.

A Ucrânia, nossa cobaia

Esta escolha é a única que permite três derivações suplementares. Em primeiro lugar, a estratégia de resistência que foi seguida era a única que permitia desgastar, usar e diminuir de forma duradoura a capacidade da Rússia fazer mal – à Ucrânia, claro, mas principalmente a outros dos seus vizinhos ou, afinal, a quem quer que seja. A Ucrânia foi, assim, a nossa “cobaia”, utilizado o termo sem desprimor. Faríamos tudo o que estivesse ao nosso alcance para a armar (só os Estados Unidos, até ver, já alocaram à Ucrânia capacidades no valor de 3,7 mil milhões de dólares) e para lhe dar a possibilidade de continuar a dizer não ao agressor. A Alemanha, por exemplo, deu o passo que faltava, e está agora a fornecer armamento pesado à Ucrânia, uma bomba política, cultural e histórica (além de, evidentemente, militar) extraordinária.

O preço da Ucrânia é, portanto, o de ser a nossa frente-tampão; de perder vidas e recursos. Em contrapartida, se esse é o preço, é também o prémio, a lotaria da Ucrânia, de uma vitória que a História nunca apagará, mas de muito mais do que isso. Pense-se, por exemplo, que em dois meses e quanto à União Europeia, a Ucrânia passou de um sim, claro, talvez, porventura, quiçá, quiçá nunca, vamos a ver, logo se verá, esperemos que sim, esperemos que não, para um sim. O ponto de chegada (da adesão) ainda não é conhecido. Mas o ponto de partida, de forma revolucionária, passou a ser positivo.

Os custos assumidos pela Ucrânia (não integro nestas contas, por decência, vidas humanas) serão, em breve – ou já – custos da Federação Russa.

Estragou, pagou.

Mas, além do custo daquilo que destruiu, a Rússia, percebe-se já, tem aqui apenas o seu introito, o seu hors-d’oeuvre no banquete para que nos convidou a 24 de fevereiro, sem saber que ia, afinal, ser o prato principal.

Tudo isto me lembra, de alguma maneira, o filme “Dîner de cons”, em que havia a incumbência de convidar para um jantar um palerma, um tonto, para que este fosse a vítima involuntária dos restantes comensais, que dedicavam todo o tempo a humilhá-lo para seu miserável deleite. A Rússia tinha como certo que esse convidado seria a Ucrânia. Parece que a Ucrânia não está e nunca esteve pelos ajustes. E afinal, que papel vai ter a Rússia?

O custo para a Rússia vai ser inimaginável, em muitos planos (diplomático, militar, económico), porque nunca mais nos vai ter como interlocutores. Evidentemente, o “nunca mais” nas relações internacionais não existe. Mas, desta vez, vai ser um daqueles “nunca mais” muito longos, estruturais, em que deixaremos de olhar a Federação Russa sob qualquer consideração que não seja o da preservação da paz e segurança internacionais. Muito más notícias, a médio e longo prazo (quando a Ucrânia for um conflito que aconteceu, e não um conflito atual), para a Rússia. Logo, como é fácil de ver, caras alegres do lado ucraniano.

Em terceiro lugar, como a Ucrânia tem mostrado capacidade para bem mais do que aguentar (e espere-se pelo armamento pesado que está a chegar, quentinho a sair do forno), dá assim tempo àqueles que a apoiam para recomporem os fluxos das suas necessidades energéticas (2027 já foi definido como o prazo para comprar zero à Rússia) e, bem assim, para prepararmos outros contra-ataques. O primeiro será a apresentação dos pedidos de adesão simultâneos à NATO por parte da Finlândia e da Suécia, com a tenaz a fechar-se à conta da debilidade e sangramento do opositor. O segundo, a redefinição clara de um novo quadro de relações internacionais (mas esse é tema para depois).

Guerra, qual guerra?

A invasão da Ucrânia já vai agora muito para além da Ucrânia, vai muito para além do próprio sentimento de ameaça perante a Rússia. Quando Vladimir Putin ordenou às suas forças que invadissem o vizinho, passou um Rubicão bem mais escarpado do que aquilo que imaginaria – e, sejamos francos, do que quase todos, sem exceção, imaginariam. Com aquele comportamento, assumiu a condição de agressor, e a Ucrânia a de vítima – nem vale a pena voltar a repisar o assunto, porque, a partir de certa altura, quem quiser ver, vê, quem não quiser, tivesse visto, e fique na sua.

Pensou-se, a dado momento, que – sendo, muito embora, uma violação do direito muito grave – a invasão da Ucrânia ainda podia ter ficado mais ou menos circunscrita.

Não ficou, e o que aí está a ser preparado ultrapassa em muito a defesa da soberania e integridade territorial ucraniana, a reparação que lhe é devida e toda a responsabilidade que se está a apurar em matéria de crimes internacionais; ultrapassa até, como é evidente, qualquer pacote de sanções, seja o sexto sejam os pacotes sucessivos.

O paradoxo das dependências

A história da invasão ucraniana teria tido menos impacto quanto a algumas decisões fundamentais que se estão a desenhar se, porventura, tantos dos nossos não dependessem tanto da Rússia. Dependência, foi a dependência, mais até do que a perceção de ameaça, que desencadeou uma reação tão unida e consistente da União Europeia e dos Estados Unidos. A dependência, com efeito, é percebida como debilidade fundamental e de estrutura em relação a um poder que não é confiável. Ora, a possibilidade de chantagem da Rússia, que além disso cometeu o erro tático impensável de nos dizer que sabia que nós sabíamos que ela sabia que muitos de nós não podiam parar negócios em curso (petróleo, gás) colocou o chamado bloca das democracias ocidentais perante uma decisão vital.

Nunca mais. Nunca mais, assim que pudermos, dependeremos de quem quer que seja que, aproveitando-se dessa dependência, possa querer vergar-nos neste ou naquele assunto – e nunca mais dependeremos, sobretudo, de regimes autoritários ou autocráticos. Esta consciência, avassaladora, foi a sorte grande da Ucrânia, que, é claro, teve o enorme mérito de no-lo berrar aos ouvidos até a ouvirmos.

Em 2014, é bom que o digamos sem especial remorso, a Rússia fez o que fez na Ucrânia, invocou até, de forma algo displicente, que se tratava de uma operação em que nem sequer estava diretamente envolvida. E todos achámos mal, mas fizemos como se achássemos que, pronto, alguma razão teria, sempre eram “maiorias russófonas” na Crimeia, é verdade que tinha havido um referendo, e por aí adiante. E que, por si, aquilo chegava, até se “compreendia”, assim fechava-se o assunto. A Rússia disse-nos: ficamos ambos por aqui, estou saciada.

Estaria a Rússia, estaríamos nós mais ou menos satisfeitos, mas não estava a Ucrânia.

Desde 2014, nunca mais deixou de se preparar para aquilo que considerava inevitável (mais ações militares russas) e para aquilo que não considerava inevitável (dar por perdidos, não só a Crimeia, como também parcelas do Donbass). Por isso, se quisermos despir por uns instantes a camisola do nosso clube, veremos que os acordos de Minsk, sobretudo o II, nunca foram cumpridos por nenhuma das partes envolvidas. Dito de outra forma: Ucrânia e Rússia souberam, desde 2014, que ia haver mais temporadas da série. A Ucrânia construiu a sua teia de forma meticulosa, preparou-se (ajudada por vários amigos, naturalmente) para um conflito do séc. XXI, apostou na incapacidade de a Rússia ver, acalentou a ideia de que o agressor era enorme e imbatível. E tem sido o que se vê.

A Rússia, ficou claramente a dormir (já agora, ainda bem para a paz mundial e ainda bem para a Ucrânia), não se questionou, não esteve atenta, deixou-se ultrapassar. É das situações de cegueira e insensatez mais estranhas, e a responsabilidade vai subindo, subindo, até chegar a uma pessoa. Vladimir Putin. Mas isto ainda não era suficiente.

A Rússia de Putin mentiu-nos de forma escandalosa, ainda queria mais, ainda não tinha saciado a fome. Violou todas as regras, nomeadamente uma regra de decência, e a questão passou a ser pessoal. Porque, nas relações internacionais, com todos os ardis e habilidades, há coisas que nem os infratores se atrevem a fazer.

 

O filme “Dîner de cons” é uma comédia ácida de 1998, tem como protagonistas Thierry Lhermitte e Jacques Villeret, e está muito acima do “remake” americano de 2010, “Dinner for Schmucks”. Para algumas das melhores cenas, ver aqui.

 

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