Fim do gás natural da Rússia está à vista e Alemanha avisa europeus para "grandes poupanças"

11 jul, 16:31
Nord Stream 1 (Jens Buettner/AP)

Manuntenção do Nord Stream 1 está a deixar a Alemanha em suspenso, sendo aquele um dos países mais dependentes do gás natural que chega da Rússia

A Alemanha entrou nesta segunda-feira num período de incerteza que vai durar pelo menos 10 dias. É esse o período estimado para as obras de manutenção do Nord Stream 1, o gasoduto que transporta o gás natural da Rússia para a Europa, sendo que a Alemanha é um dos grandes beneficiários. De manhã os recetores de Lubmin já estavam vazios, o que deixa uma incerteza no ar.

Embora o lado russo garanta que não há má vontade, o governo alemão já admitiu que não sabe se o gasoduto vai voltar a reabrir, o que deixa um país “às escuras”. Uma expressão quase literal: é que mais de metade do gás natural consumido na Alemanha é importado da Rússia, um negócio que se faz exclusivamente pelo Nord Stream 1, e que agora pode reduzir-se a zero.

Outro dos países mais dependentes, talvez até o mais, é a República Checa, cujo gás natural consumido vem 86% da Rússia. Por isso mesmo os ministros da Economia dos dois países encontraram-se em Praga tendo como grande objetivo fazer face à incerteza.

O ministro alemão admitiu que não sabe se e quando o Nord Stream 1 vai reabrir, deixando sérios avisos caso esse cenário se verifique. “O inverno vai ser crítico e temos de nos preparar o melhor possível”, disse Robert Habeck, já depois de dizer que “é difícil dizer que o Nord Stream 1 vai voltar a funcionar após a manutenção.

Ciente de que o gás natural não chega apenas às casas alemãs, o ministro afirmou que o país planeia distribuir o combustível existente de forma equitativa entre aqueles que precisem, ao mesmo tempo que procura uma forma de continuar a garantir abastecimento por outra via.

Uma possibilidade é a construção de terminais de gás natural liquefeito, sendo que dois desses terminais poderão estar completos até ao final do ano, segundo o responsável. Uma solução semelhante à que Portugal tem em Sines, e que permitiria ao centro da Europa receber gás natural de países como Nigéria, Angola ou Catar.

Foi com essa noção de entreajuda que os ministérios alemão e checo emitiram um comunicado conjunto sobre a questão, comprometendo-se a continuar “unidos para cooperar em caso de disrupção do fornecimento de gás natural, que pode acontecer nas próximas semanas”, tendo sobretudo em conta o inverno, altura em que o gás se torna crítico para o aquecimento das casas. Neste ponto, Robert Habeck deixou um novo aviso: “As pessoas na Europa sabem que grandes poupanças na utilização de gás natural são possíveis.” Isso significa que a eletricidade pode ficar bem mais cara, uma vez que o gás natural é a fonte mais barata de produzir energia elétrica para aquecimento.

 “Temos de nos preparar para vários cenários, incluindo a não renovação dos envios após a manutenção”, acrescentou Robert Habeck, que depois admitiu: “A Alemanha tornou-se demasiado dependente da Rússia.” 

Uma dependência que começou com Gerhard Shröder, chanceler alemão e amigo próximo de Vladimir Putin que impulsionou o Nord Stream 1, mas que continuou com Angela Merkel, que deu luz verde ao Nord Stream 2, um segundo gasoduto que estava praticamente concluído e cuja conclusão foi suspensa já este ano, por causa da guerra. O objetivo germânico era manter a Rússia como um parceiro de negócios, garantindo assim que aquele país nunca derivaria para um conflito, o que acabou por se revelar mal calculado.

“Estamos muito preocupados que o fornecimento de gás natural à União Europeia seja utilizado como arma política com a intenção deliberada de dividir os Estados-membros da União Europeia”, finalizam Alemanha e República Checa.

Recorde-se que Portugal é dos países menos dependentes do gás natural que chega da Rússia, importando apenas 10% do total consumido no país. Isso deve-se à situação periférica, mas também ao terminal de Sines, que permite a importação daquele combustível de outros países como Argélia ou Nigéria.

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