Rússia-Ucrânia: o que é o Nord Stream 2 e porque é que importa? Portugal pode ser afetado?

22 fev, 20:54

A Rússia apoiou a independência das repúblicas separatistas de Lugansk e Donetsk e Olaf Scholz respondeu ao atacar onde mais dói ao regime russo, ao travar a certificação do gasoduto Nord Stream 2. O que é o Nord Stream 2 e porque é que Portugal pode acabar a pagar mais pelo seu gás natural?

Era a uma das principais armas do Ocidente para tentar travar o ímpeto expansionista de Vladimir Putin na Ucrânia e, esta terça-feira, o chanceler alemão, Olaf Scholz, carregou no gatilho ao anunciar que a certificação do gasoduto Nord Stream 2 vai mesmo ser travada devido às mais recentes ações da Rússia, na Ucrânia. 

“Sem esta certificação, o Nord Stream 2 não pode entrar em operação”, afirmou o líder alemão, que justificou a mudança de posição alemã com as alterações levadas a cabo por Moscovo na região do Donbass. “A situação hoje é fundamentalmente diferente”, acrescentou.

Anunciou também a criação de um gabinete com o objetivo de diversificar as importações de gás natural para o país. Na mesma conferência, Scholz destacou a importância da manutenção do modelo da Normandia na continuação dos diálogos diplomáticos. O chanceler alemão sublinhou também que a política de venda de armas para Ucrânia mantém-se inalterada, com Berlim a preferir seguir a rota do apoio económico a Kiev.

MAPA: O chanceler alemão Olaf Sholz suspendeu a aprovação do Nord Stream 2, um gasoduto entre a Rússia e a Alemanha

Horas depois, o ministro da Energia russo, Nikolai Shulginov, afirmou em Doha que a Rússia está empenhada em honrar contratos com países europeus e em continuar a exportar gás natural "sem interrupção". "As empresas russas estão a honrar os seus contratos e a trabalhar para desenvolver a produção e exportação de gás natural para países como a Turquia, França e Alemanha", disse o ministro da Energia num discurso na 6.ª Cimeira do Fórum dos Países Exportadores de Gás (FPEG), que está a decorrer na capital do Qatar.

O que é o Nord Stream 2 e porque importa?

O Nord Stream 2 foi concluído em 2021, mas aguardava ‘luz verde’ dos reguladores europeus e alemães. A iniciativa do Nord Stream 2 nasceu com o objetivo de criar uma rota paralela ao projeto Nord Stream 1, que funciona desde 2011 no fundo do Mar Báltico. À semelhança do seu antecessor, o projeto tem capacidade de fornecer à Alemanha cerca de 55 mil milhões de metros cúbicos de gás natural anualmente, o que faria com que a Alemanha conseguisse receber 110 mil milhões metros cúbicos por ano.

O gasoduto estende-se ao longo de cerca de 1230 quilómetros e liga Ust-Luga, na Rússia, a Greifswald, no nordeste da Alemanha. Apesar de ter sido projetada em 2011, a sua construção só arrancou em maio de 2018 e terminou a 10 de setembro de 2021, com cerca de um ano e meio de atraso. A obra pertence à empresa estatal russa Gazprom, que construiu o gasoduto em parceria com um consórcio europeu composto por empresas como a francesa Engie, a britânica Shell, as alemãs Uniper e Wintershall Dea e a austríaca OMV, embora tenha assumido mais de metade do valor final da fatura, avaliado em 9,5 mil milhões de euros.

Imagem do gasoduto Nord Stream 2 (Stefan Sauer/dpa via AP)

Desde cedo surgiram as críticas ao projeto, com Donald Trump, então presidente norte-americano, como um dos seus maiores críticos. O antigo presidente Estados Unidos da América argumentou que este aumento da dependência energética alemã do regime russo poderia vir a colocar a Europa nas mãos de Vladimir Putin, que, a qualquer momento, poderia fechar o abastecimento europeu.

Para além disso, o aumento do transporte do gás natural através do mar Báltico com destino à Alemanha deu ao presidente russo um instrumento de pressão política sobre a Ucrânia, por onde passa um dos principais gasodutos com destino à Europa e que representa uma importante fonte de rendimento para Kiev. Apenas em 2021, o regime russo exportou menos 25% de gás natural através desta rota, criando receios de que Moscovo aumente a pressão no futuro.

Mapa: os gasodutos Bratstvo e Soyuz garantem à Ucrânia uma importante fonte de rendimento

Uma dependência pouco saudável

O gás natural é o segundo recurso energético mais utilizado na Europa, apenas atrás dos produtos de combustível petrolíferos. Antes da pandemia, em 2019, o gás natural correspondia a 22,3% do consumo energético do continente, com a Rússia a fornecer quase um terço de todo o gás natural utilizado na Europa. Ao todo, a Rússia fornece 35% do gás natural utilizado na UE. Esta dependência tem vindo a aprofundar-se desde 2010, quando a União Europeia começou a acelerar a transição energética e a afastar-se da energia produzida através do carvão e viu no gás natural uma alternativa mais viável.

Esta realidade torna-se particularmente mais dura durante os meses de janeiro, fevereiro e março, quando o continente regista as temperaturas mais baixas. A dependência de importações energéticas aumentaram de 56% no ano de 2000 para 60% no ano de 2019.

É igualmente importante analisar a perspetiva oposta. A Rússia detém uma das maiores reservas de gás natural do mundo, na região da Sibéria, e exportou aproximadamente 177 mil milhões de metros cúbicos de gás natural para a Europa e Turquia em 2021. Estas exportações representam cerca de 71,9% das exportações russas deste recurso. Apenas a Alemanha, França e Itália representaram 36% das exportações russas de gás natural em 2020. Uma quebra nestas vendas atinge fortemente uma das principais fontes de receita de um país com uma economia ainda pouco diversa.

Gráfico: Europa e Turquia são os principais consumidores de gás natural russo

Os dirigentes russos assinaram recentemente um acordo de 30 anos para o fornecimento de gás natural para a China, através de um novo gasoduto, o Power Siberia 2, aproximando os dois países. Porém, o projeto só estará concluído em 2025 e, no seu auge, não conseguirá exportar um quinto do gás natural vendido para a Europa. Além disso, a China tem investido fortemente no setor nuclear. Recentemente, anunciou planos para construir 150 novas centrais nucleares, demonstrando não estar interessada na dependência energética de potências estrangeiras.

Sanções podem custar caro

No final do mês de janeiro, um grupo de analistas da S&P Global Platts Analytics classificou uma suspensão do fornecimento de gás natural russo na Europa como “altamente improvável”, uma vez que, dado o atual momento de recuperação económica pós-pandemia, pequenas disrupções na oferta poderiam levar a aumentos significativos dos preços de vários bens essenciais, acabando por prejudicar os consumidores europeus.

Para responder a esta questão é preciso compreender melhor a rede de abastecimento de gás natural russa que abastece a Europa, que passa pelos principais gasodutos Nord Stream 1, situado no mar Báltico, o Yamal, que passa pela Bielorrússia, o Brotherhood, que atravessa a Ucrânia e o Turkstream, que chega à Europa através da Turquia. Cerca de um terço do abastecimento europeu passa pela Ucrânia e a Rússia já demonstrou vontade de arranjar alternativas que permitam privar os ucranianos do rendimento que conseguem assegurar com este empreendimento, pressionando ainda mais o governo de Kiev.

O antigo presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, foi dos primeiros a reagir ao anúncio de suspensão da certificação da construção do gasoduto Nord Stream 2 sugerindo que os preços vão disparar. Em tom irónico, e através do Twitter, o ex-chefe de Estado deu as boas-vindas a "um novo mundo onde os europeus vão muito em breve pagar dois mil euros por mil metros cúbicos de gás natural".

E Portugal?

Portugal não é cliente do gás natural russo, mas pode vir a sofrer economicamente com o aumento da procura sobre os seus fornecedores, a Argélia e a Nigéria, numa altura em que vários outros países tentam colmatar a quebra na oferta. Dessa forma, é provável que o país acabe por pagar mais pelo preço do gás. Em 2022, o gás natural correspondeu a 31,27% da geração de eletricidade em Portugal. No entanto, a capacidade de armazenamento nacional é muito limitada, o que levou o Governo a aprovar a criação de uma reserva no sistema nacional. 

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