"É a melhor forma de destruir forças inimigas". Ucrânia prepara-se para mudar de estratégia

28 dez 2023, 08:00
Guerra na Ucrânia (Associated Press)

Depois do fracasso da contraofensiva ucraniana, a Rússia está a começar a ganhar a iniciativa em algumas regiões da linha da frente e isso obriga a liderança militar em Kiev a rever a sua estratégia.

A Ucrânia pensou que o número de baixas que infligiu à Rússia seria o suficiente para travar a vontade russa de prosseguir a guerra, mas isso foi um erro, segundo o principal general ucraniano, Valerii Zaluzhnyi. Passados quase dois anos de conflito e de uma contraofensiva fracassada, a Ucrânia prepara-se para cavar trincheiras e defender o seu território perante um inimigo que começa a ganhar iniciativa enquanto continua a contar com eventos externos para ganhar vantagem no campo de batalha.

“A Ucrânia está a fazer uma revisão da sua operação. Está a passar de uma postura ofensiva para postura defensiva. No próximo ano, não devemos assistir a grandes ataques ucranianos. Depois de uma contraofensiva falhada e de grandes perdas humanas e materiais, a Ucrânia precisa de um ano para refazer o seu exército”, afirma o major-general Agostinho Costa.

O chefe do exército ucraniano vai mais longe e afirma que “2024 tem de ser diferente de 2023”, dando a entender que se avizinha uma mudança de estratégia. No próximo ano, a Ucrânia tem de tomar medidas para continuar a sua luta contra a Rússia e “agir de forma mais eficaz” para “salvar pessoas”. As palavras do general surgem numa altura em que o país se prepara para mobilizar perto de meio milhão de soldados, para continuar a repor os veteranos na linha da frente.

Em declarações aos jornalistas, Valerii Zaluzhnyi acredita que a Ucrânia tem capacidade de formar quase dez brigadas no próximo ano. Cada uma destas unidades pode ter entre mil a oito mil soldados e podem ajudar a travar novos avanços russos. No entanto, admite que é difícil prever “quantas mais perdas” terão de ser causadas para que Moscovo pare. “Acredito que é necessário fazer isso continuamente até que a guerra termine e o inimigo se recuse a conduzir hostilidades no nosso país”, sublinha.

Para Agostinho Costa, especialista em assuntos militares, esta estratégia do comando ucraniano é a que pode colher melhores resultados. O major-general defende que, ao focar-se na construção de posições defensivas ao longo da frente e com a formação de novas unidades, Kiev fica numa melhor posição para causar o maior número de baixas possíveis à Rússia. “Há indicações de que a Ucrânia está a preparar posições ao longo de toda a frente, como a Rússia fez antes da contraofensiva. A melhor forma de destruir forças inimigas é a defesa”, explica.

E é precisamente nos locais onde a Ucrânia tinha defesas preparadas onde a Rússia mais sofreu. Quando invadiu a Ucrânia a 24 de fevereiro de 2022, o exército russo conseguiu progredir em várias direções, mas teve muitas dificuldades na região do Donbass, onde Kiev preparou as defesas ao longo de oito anos. Se o exército ucraniano conseguir criar uma linha defensiva semelhante, todo o conflito pode chegar a um impasse.

Mas, do lado russo, apesar do discurso de vitória com a conquista de Marinka e com o fim da contraofensiva ucraniana, a situação não é fácil. O número de baixas não é público, mas a mais recente estimativa dos serviços secretos norte-americanos davam contra de mais de 315 mil perdas, entre mortos e feridos russos. As perdas materiais não são menores, com mais de 2.200 veículos blindados foram destruídos. Além disso, ao fim de quase dois anos de guerra, a Rússia, uma das maiores potências militares do mundo, passou grande parte do ano sem a iniciativa dos combates. Em 2024, permanece uma incógnita se o cenário será diferente.

“A Rússia já começa a recuperar alguma iniciativa. Na direção de Bakhmut existem avanços. Marinka caiu e Avdiivka é uma questão de tempo, apesar do preço alto que está a ser pago. Os primeiros seis meses, a iniciativa será dos russos. Depois veremos até que ponto é que a mobilização terá alguma eficácia”, defende o especialista.

Mas a Ucrânia permanece dependente do apoio dos Estados Unidos da América e da União Europeia e Vladimir Putin sabe disso. Sinal disso mesmo foram as palavras da vice-primeira-ministra ucraniana, que admite que os salários e pensões de milhões de ucranianos podem ficar por pagar, caso o apoio financeiro ocidental acabe por não chegar. Yulia Svyrydenko admite que um possível atraso pode levar o executivo a colocar a economia da Ucrânia em "modo de sobrevivência", uma vez que o apoio ocidental "é extremamente crítico" para o país.

Na União Europeia, o pacote de 50 mil milhões de euros também acabou vetado, por oposição da Hungria. No dia 1 de fevereiro, os líderes europeus voltam a reunir-se para tentar aprovar um plano de financiamento alternativo, no valor de 20 mil milhões de euros, que não necessita da aprovação de Budapeste. As palavras de Svyrydenko, que detém também a pasta de ministra da Economia, surgem dias depois do pacote de ajuda americano proposto pela administração Biden ter sido reprovado pelos políticos republicanos, na Câmara dos Representantes.

Por isso, as eleições norte-americanas, marcadas para 5 de novembro, podem ter um impacto estratégico no desfecho da guerra. O candidato republicano Donald Trump aparece à frente das sondagens, o que poderia ter sérias consequências para o apoio militar à Ucrânia, particularmente numa altura em que o apoio militar e financeiro proposto para 2024 continua por aprovar. Em maio, o antigo presidente disse que, se fosse presidente, acabaria com a guerra “em menos de 24 horas”, deixando no ar possibilidade do fim do apoio militar e de obrigar a Ucrânia a fazer concessões territoriais à Rússia.

“Nenhuma das partes quer um impasse. O tempo é importante para os dois, mas é mais importante para a Ucrânia que está dependente de fatores externos. Para a Rússia, quanto mais tempo a Ucrânia tiver para reequipar-se, mais se arrisca a levar com outra contraofensiva”, destaca o major-general.

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