opinião

O que é que Orbán, Erdogan e Putin têm em comum?

19 mai, 18:29

A resposta mais óbvia é esta: são três autocratas. Que se disfarçam de democratas, quando lhes convém, mas que na esmagadora maioria do tempo gerem os seus países com pulso de ferro, eliminando qualquer espécie de oposição e em permanentes tentativas de prolongar os seus mandatos ad eternum. São três ditadores – de dimensões diferentes – que vão resistindo a todas as tentativas de derrube e sempre astutos na sua capacidade de criarem novos inimigos que lhes vão alimentando o discurso de homens providenciais. 

Orbán e Erdogan, por exemplo, gerem países distintos, de dimensões e realidades muito diferentes, mas é muito mais o que os une do que aquilo que os separa. O total desprezo pela liberdade de imprensa, os ataques constantes às minorias e os castigos sem lei nem ordem a quem os ouse desafiar. Terroristas é o selo que normalmente levam todos os que lhes fizerem frente.

E a Hungria e a Turquia não são dois países quaisquer. O primeiro aderiu à NATO em 1999 e entrou para a União Europeia cinco anos depois, em 2004. Já a Turquia, não sendo fundadora, aderiu à Aliança do Atlântico Norte em 1952. Claro que as lideranças não eram as mesmas, que o mundo não era igual e que a história serve, sobretudo, para aprendermos com ela sobre o presente e o futuro.

Mas eis-nos aqui chegados, com uma guerra na Europa e sob permanente ameaça russa, ditada pelo autocrata Vladimir Putin, que decidiu invadir um país livre, soberano e independente só porque sim. Porque, na cabeça de Putin, o império dos Czares não pode ter morrido com eles e, qual ungido por um qualquer ser divino, o presidente russo considera que não existem regras nem fronteiras que não seja ele a ditar.

Eis-nos aqui, no momento presente, sem sabermos bem o que vai na cabeça de um homem que tem o maior arsenal nuclear do mundo e uma mala sempre à mão, pronta a disparar para qualquer país que lhe apeteça. Eis-nos numa inconstância diária de sabermos se estamos ou não prestes a entrar na III Grande Guerra Mundial.

O Ocidente “contra-atacou”. Não pegou em armas e foi lutar ao lado dos ucranianos, mas forneceu-lhes equipamento militar para se defenderem e iniciou um processo de asfixia económica à Rússia, impondo sanções, umas atrás das outras, retirando investimento estrangeiro de Moscovo e congelando contas bancárias. O Ocidente, mais unido do que nunca, tomou uma posição comum de condenação política contra o invasor e defendendo o invadido. Recebeu quase 6 milhões de refugiados, lançou ações humanitárias e fez aquilo que devia ser feito – mesmo que alguns partidos políticos continuem a sua cegueira ideológica e nostálgica.

O problema é que, ao mesmo tempo que fizemos tudo isto, continuámos – e continuamos – a financiar esta guerra de Vladimir Putin. Desde o início da guerra, os países da União Europeia já passaram cheques de dezenas de milhões de euros em petróleo e gás vindo da Rússia. Dinheiro que serve para matar, todos os dias, nas aldeias, nas vilas e cidades ucranianas. Que serve para prolongar um conflito até que o presidente russo encontre uma porta de saída que lhe permita cantar vitória. 

Fechar a torneira do petróleo e do gás não é coisa que se faça do pé para a mão. Toda a gente sabe isso. Mas, a caminho do terceiro mês de guerra e conscientes que estão, todos os líderes europeus, do impacto que este tipo de sanções teria no regime de Moscovo, está na hora de tomar decisões. Só que não.

Na União Europeia, o senhor Viktor Orbán, que permitiu – tal como outros Estados-membros – que a Hungria estivesse tão dependente da Rússia do ponto de vista energético, decidiu boicotar qualquer espécie de acordo. Primeiro, precisava de mais de um ano para encontrar alternativas ao petróleo e gás russo; agora, já vai em cinco anos para fazer a transição — e, na verdade, a questão começa a colocar-se entre os diplomatas europeus: será que a Hungria quer mesmo encontrar uma solução? Será que Orbán quer mesmo travar Vladimir Putin ou só lhe está a dar mais tempo?

A pergunta é legítima. Tão legítima quanto a que podemos fazer sobre a posição de Erdogan relativamente à adesão da Finlândia e da Suécia à NATO. Em plena guerra e perante uma das alterações geopolíticas mais relevantes das últimas décadas – dois países historicamente neutros virem pedir proteção à NATO –, o presidente turco decidiu fazer chantagem e exigir que lhe devolvam exilados curdos, seus opositores e a quem continua a chamar terroristas. Ele viu uma oportunidade e, como oportunista que é, aproveitou-a. 

Portanto, Erdogan está mais preocupado em vingar-se de quem lhe fez frente do que em salvar a Europa de uma guerra. Tal como Orbán está mais preocupado em financiar Vladimir Putin do que em contribuir para o anular como ameaça mundial. 

Veremos que destino terão estes dois assuntos, mas uma coisa é, hoje, mais clara do que nunca: se a União Europeia e todo o Ocidente continuarem a olhar para o lado e a partilharem os mesmos fóruns com chefes de Estado que têm valores democráticos completamente opostos aos nossos, depois não se queixem. Porque, infelizmente, não há apenas um Putin no mundo.

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