Andrei Kurkov: de quase espião do KGB a maior escritor contemporâneo da Ucrânia. "A guerra só acaba quando Putin desaparecer"

5 out, 10:00
Andrei Kurkov. Foto: DR

Um dos autores mais aclamados da literatura ucraniana, Andrei Kurkov deixou de escrever ficção desde que a guerra começou. Ucraniano de etnia russa, vinca a diferença de mentalidades dos dois lados da fronteira: "os russos aceitaram não ter liberdade porque queriam estabilidade. Para os ucranianos, a liberdade é mais importante"

 Aos 13 anos sonhava com as palavras, aos 37 já vivia da literatura numa Ucrânia recém-saída da União Soviética. A guerra obrigou-o a mudar o foco.

“A 24 de fevereiro interrompi a escrita do meu mais recente romance. Tentei voltar à escrita de ficção duas vezes, mas falhei. Por isso, passo os dias a escrever apenas artigos e ensaios sobre a Ucrânia, a agressão russa, política… Apenas temas relacionados com a guerra”, explica Kurkov numa conversa nos corredores do centro de documentação do Museu do Oriente, em Alcântara.

Com 61 anos, está excluído da faixa etária de homens ucranianos mobilizados pela lei marcial. Escapou com a mulher (uma inglesa que decidiu trocar o ocidente pela Ucrânia pós-soviética) dos bombardeamentos em Kiev, onde vivem, e acabaram por encontrar refúgio na casa de uma desconhecida na região fronteiriça da Transcarpátia, onde viveram durante cinco meses. Mas desde março que Andrei Kurkov passa a maior parte do tempo em viagem pela Europa e Estados Unidos para falar da guerra.

É a primeira vez que está em Portugal. A agenda ocupada permite uma estadia de apenas quatro dias. No primeiro, visitou Sintra e o centro de Lisboa. É no segundo dia que o encontramos no Museu do Oriente. Estudante de línguas estrangeiras, Kurkov já não se lembra muito de japonês, mas na juventude sabia o suficiente para chamar a atenção dos serviços secretos da União Soviética. “Disseram-me que ia servir 18 meses nas ilhas Kuril, perto do Japão, e ia ouvir as comunicações por rádio dos militares do Japão. Perguntei à minha mãe, que era médica no hospital da polícia, se ela tinha um paciente importante, algum general que pudesse mudar os meus documentos no comissariado. Ela encontrou um e passei do KGB para a polícia militar”, conta Kurkov.

A liberdade à frente da estabilidade e do dinheiro

Andrei trabalhou como guarda prisional, em Odessa, onde começou a escrever livros infantis. Hoje, os seus livros estão publicados em mais de 40 línguas. Kurkov é fluente em seis - russo, ucraniano, polaco, francês, alemão e inglês – mas escreve sobretudo em russo. “Tenho discussões regulares com intelectuais falantes de ucraniano que tentam provar que não sou um escritor ucraniano.” Nascido perto de Leningrado, na União Soviética, com um ano de idade já vivia em Kiev mas só aos 14 aprendeu ucraniano. A questão da identidade é recorrente nos seus livros, mas Kurkov parece ter isso bem resolvido. “Faço parte da sociedade ucraniana. Sou de etnia russa, se houver uma minoria nacional russa – duvido – mas se isso for organizado assim, então faço parte dessa minoria. A língua russa deve ser uma língua minoritária, como a língua húngara, a língua tártara da Crimeia na Ucrânia e as literaturas minoritárias devem ser aceites na literatura nacional ucraniana”, defende Kurkov para quem a língua russa não é sinónimo de mentalidade russa.

E qual é afinal a mentalidade russa? Se no Ocidente há quem chame Putin de louco, Kurkov apressa-se a responder: “O Putin não é louco, deveríamos dizer que a sociedade [russa] é que está doente. O Putin está a ficar velho, vai desaparecer mais cedo ou mais tarde, e quer ser lembrado na história da Rússia como alguém que voltou a tornar a Rússia grandiosa, que recriou o império russo”. Kurkov compara a narrativa de Putin à teoria de uma “raça superior” que alimentou a Alemanha nazi. “E os russos aceitaram. E enquanto o aceitavam, foram tiradas liberdades aos russos, pouco a pouco. Liberdade de imprensa, liberdade de pensamento, liberdade religiosa… Eles aceitaram não ter liberdade porque queriam estabilidade. Para os ucranianos, a liberdade é mais importante do que a estabilidade ou o dinheiro. É por isso que estão a lutar”.

Para Kurkov, está claro que Putin falhou nos seus objetivos. Mas tão ou mais claro ainda é o facto de que nem o presidente nem a Rússia irão admitir que falharam. Acredita que vai levar décadas para a sociedade “tornar-se sã” e volta ao exemplo da Alemanha: “para os alemães, foi muito difícil, depois da Segunda Guerra Mundial, aceitar a culpa. Foram obrigados a ver documentários de todos os campos de concentração e, mesmo assim, isso não mudou a opinião de muitos alemães comuns”. 

Ainda assim concorda que a resposta dos russos à mobilização parcial (“parcialmente total”, diz Kurkov) possa ser o início da queda de Putin. “A sociedade russa finalmente está descontente com a guerra porque esta guerra pode chegar a qualquer família [russa] como já chegou a muitas famílias na Ucrânia. Isso é um sinal positivo”.

Quanto ao futuro da Ucrânia, Kurkov acredita que a guerra só irá acabar “quando Putin desaparecer” e realça que será ainda mais difícil governar um país depois de uma guerra. Prevê que Volodymyr Zelensky se irá recandidatar à presidência da Ucrânia, mas deixa um alerta. “Na tradição ucraniana, ninguém é reeleito pela segunda vez. Diria que é uma decisão arriscada porque pode repetir o destino de Churchill. Se ele vencer a segunda eleição e permanecer como presidente, será um grande, grande desafio para ele e para os ucranianos, porque os ucranianos tradicionalmente não gostam de representantes do poder, não gostam das regras e nunca confiaram nos políticos ucranianos”.

Uma zona cinzenta que já não existe

A escrita de Andrei Kurkov é repleta de humor, sarcasmo e realidade. “Abelhas Cinzentas” é o primeiro livro publicado em Portugal. Escrito em 2017, conta a história dos últimos dois habitantes de uma aldeia abandonada na zona cinzenta do Donbass. Hoje, essa realidade faz parte do passado, o que não surpreendeu o autor. Mas até mesmo para um conhecedor da mentalidade, narrativa e história da Rússia, o que se seguiu “era algo inimaginável”.

Mesmo num hipotético cenário de paz, Kurkov acredita que o Donbass nunca mais será o mesmo. “Creio que haverá uma grande zona desmilitarizada entre a Rússia e a Ucrânia porque nunca voltará a haver confiança na Rússia por parte da Ucrânia. A Ucrânia estará sempre à espera de um novo ataque ou algo mau. Por isso, irão manter uma espécie de cordão de território muito longo que será desperdiçado, mas apenas para ter uma distância que dê tempo para reagir se notarem mais um avanço das tropas russas”.

Depois de Portugal, Andrei Kurkov vai para Berlim e de lá regressará à Ucrânia. Sonha com o dia em que irá voltar à normalidade e aos romances. “Adoro escrever romances, romances muito longos." Quando a guerra acabar, Kurkov terá outras batalhas para travar. "Os meus romances longos não são publicados com tanta frequência porque os editores têm medo de livros grossos”, ri-se.

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