A (outra) vítima da Guerra da Rússia na Ucrânia, que está à vista de todos mas poucos veem

CNN , Ivana Kottasová
22 mai, 19:22
Meio ambiente destruído na guerra da Ucrânia

ESPECIAL. Além do custo humano, a destruição que as forças russas causaram à natureza é brutal e omnipresente: terra queimada, chão de florestas devastado por mísseis e árvores partidas e arrancadas, enquanto equipamentos militares abandonados estão espalhados pelas florestas.

O meio ambiente da Ucrânia é outra vítima da guerra. Estragos podem ser sentidos durante décadas

As florestas de pinheiros à volta de Irpin são o lugar feliz de Oleh Bondarenko. Ele descobriu-os em criança, quando a sua mãe o mandou para ali num acampamento de verão, e ele tem voltado desde então.

"É um lugar cheio de memórias. Vorzel, Irpin, Bucha, as florestas, o ar fresco. Para mim, este é um lugar de descanso", disse o cientista ambiental de 64 anos à CNN, durante uma viagem recente a Irpin.

A viagem de uma hora de Kiev - uma viagem que ele fez muitas vezes ao longo das décadas - foi feita cheia de angústia para Bondarenko, que estava preocupado com o que encontraria em Irpin. "Esta é a primeira vez que volto desde que os nossos irmãos ‘visitaram’ Irpin", afirmou, referindo-se às tropas russas.

A zona esteve sob controlo russo várias semanas em março; tornou-se posteriormente conhecida em todo o mundo como o local de algumas das piores atrocidades cometidas pela Rússia nesta guerra. Pelo menos 1.200 corpos de civis foram descobertos na região desde que as tropas russas se retiraram, segundo a polícia de Kiev. Pelo menos 290 deles foram encontrados em Irpin, segundo o presidente da câmara da cidade.

Além do custo humano, a destruição que as forças russas causaram à paisagem aqui é brutal e omnipresente: terra queimada, chão de florestas devastado por mísseis e árvores partidas e arrancadas, enquanto equipamentos militares abandonados estão espalhados pelo chão. Muitas das casas elegantes da cidade estão em ruínas; a floresta e os espaços verdes à sua volta estão vedadas.

Anzhelika Kolomiec, uma amiga de Bondarenko que mora em Irpin, disse à CNN que as autoridades proibiram as pessoas de entrar na floresta: "Temos uma bela floresta aqui, mas este ano não haverá caminhadas, não haverá colheita de cogumelos, não haverá bagas. Não podemos entrar por causa das minas e dos mísseis não detonados".

Crateras criadas por bombardeamentos estão espalhadas por um campo em Moschun.

Enquanto os olhos do mundo estão focados no sofrimento humano causado pela invasão da Rússia, especialistas ambientais na Ucrânia estão a manter um registo rigoroso dos danos ambientais causados, para tentar repará-los o mais depressa possível, e na esperança de obter indemnizações.

A floresta minada e destruída em Irpin é apenas um exemplo dos estragos ambientais causados ​​pela guerra da Rússia na Ucrânia.

Imagens de satélite mostram que grandes áreas do leste e do sul da Ucrânia estão atualmente envolvidas em incêndios florestais provocados por explosões e agravados pelo facto de que os serviços de emergência, os trabalhadores florestais e o exército não conseguirem chegar até eles. O fumo dos incêndios está a poluir o ar.

O solo fértil da Ucrânia está a ser contaminado com metais pesados ​​e outras substâncias potencialmente venenosas, que vazam de mísseis, equipamentos militares e munições usadas. O combustível derramado está a poluir as águas subterrâneas e os ecossistemas estão a ser afetados por tanques e outras tecnologias pesadas. Tudo isto são estragos que serão sentidos décadas depois do fim da guerra.

A maioria das pessoas pode não ver a natureza como uma prioridade, pelo menos não agora, enquanto o futuro da Ucrânia está em jogo, e há pessoas a morrer todos os dias no conflito.

"Quando você vê os crimes contra a humanidade, as atrocidades inacreditáveis, pessoas a serem mortas, torturadas, violadas, centenas delas... é natural não pensar em impactos ambientais", disse Natalia Gozak, diretora executiva do Centro de Iniciativas Ambientais em Kiev. “Portanto, é nossa tarefa prestar atenção e garantir que este tipo de ações também seja considerado como crimes e que os russos paguem por tudo – não apenas por matar pessoas, mas também por matar o nosso futuro e prejudicar o nosso bem-estar futuro”.

Para manter as colunas blindadas russas afastadas, as forças ucranianas rebentyaram uma barragem perto de Demydiv, uma vila ao norte de Kiev.

Reunindo provas

Bondarenko participou na batalha de Kiev em março. Ele e o seu filho juntaram-se à Força de Defesa Territorial - a seção maioritariamente voluntária das forças armadas da Ucrânia - nos primeiros dias da guerra.

Agora foi libertado do dever por causa da sua idade e está a voltar lentamente ao seu trabalho ambiental. Ele quer que a Ucrânia esteja pronta a começar a reconstruir-se de forma inteligente e sustentável quando a guerra terminar.

“Estamos diante de uma crise muito maior agora e temos de deixar tudo o resto de lado, embora ache que muito em breve voltaremos à agenda ambiental e temos que começar a pensar nisso agora”, afirmou. Especialistas como Bondarenko e Gozak também estão a tentar aumentar a consciencialização sobre os riscos decorrentes dos danos ambientais.

Bondarenko é físico nuclear de formação e passou grande parte da sua carreira a trabalhar em segurança ambiental na zona de Chernobyl. O risco de poluição nuclear está no topo das preocupações de todos, depois das tropas russas entrarem em Chernobyl e atacarem a maior central nuclear da Europa em Zaporizhzhia, no sul da Ucrânia.

Wim Zwijnenburg, líder do Projeto de Desarmamento Humanitário da PAX, uma organização de paz holandesa, afirmou que as organizações internacionais estão a começar a prestar mais atenção aos danos ambientais causados ​​pelos conflitos armados.

"O que vimos no Iraque e na Síria é que a poluição ambiental causada pela guerra pode representar riscos agudos para a saúde das pessoas", salientou. “Mas ninguém estava a prestar atenção a isso. Toda a gente pensava que o meio ambiente é algo que se conhece, para os 'abraçadores de árvores' e pessoas que gostam de abelhas e borboletas, mas a realidade era que as pessoas, e principalmente as crianças, podem ser expostas a resíduos tóxicos de guerra, todos os tipos de produtos químicos, materiais de bombas, fábricas, ou outros tipos de produtos químicos perigosos."

Devido a essas experiências passadas, cientistas ambientais e organizações humanitárias começaram a construir e a usar bases de dados de locais que se sabem conter materiais perigosos. Agora, quando recebem informações sobre um ataque, podem verificar a base  de dados para estimar um impacto nos ecossistemas circundantes.

Um ciclista passa por uma secção danificada de uma floresta em Irpin.

O Centro de Iniciativas Ambientais construiu um mapa interativo de incidentes em toda a Ucrânia, discriminando-os por tipo de estrago, incluindo poluição nuclear e química, resíduos perigosos de gado e degradação de ecossistemas terrestres e marinhos.

"Durante estes ataques maciços, toneladas de produtos químicos tóxicos e cancerígenos, incluindo urânio, entram no solo", disse Olena Kravchenko, diretora executiva da Environment People Law, um think tank ambiental em Lviv.

Segundo ela, as enormes quantidades de mísseis, explosivos e outros tipos de armas e tecnologia militar descartada que são usadas na guerra não são a única causa da poluição. Os sepultamentos em massa, realizados sem considerar a segurança ambiental, também podem causar contaminação do solo e das águas subterrâneas a longo prazo. A Ucrânia acusou a Rússia de enterrar corpos em valas comuns cavadas à pressa para encobrir crimes de guerra.

O sistema de monitorização partilhado também pode ajudar a definir prioridades em situações em que os recursos são extremamente limitados. "A maioria dos danos ambientais pode ser tratada depois do conflito, mas há aqueles 5 a 10% para os quais é precisa enviar especialistas, porque existem certos tipos de produtos químicos para os quais é precisa especialistas para limpá-los, e não de pessoas que não sabem muito sobre o assunto", disse Zwijnenburg.

Às vezes, os danos podem não ser imediatamente óbvios.

Quando o exército ucraniano derrubou um míssil russo que sobrevoava o distrito de Kremenets, no oeste da Ucrânia, no mês passado, alguns dos destroços caíram numa instalação agrícola, segundo a Administração Estatal Regional de Ternopil. O local do impacto foi limpo em poucas horas, mas as substâncias tóxicas que vazaram durante o incidente permaneceram no solo e na água durante dias, de acordo com a Inspeção Estatal de Ecologia do Distrito de Polissya.

As pessoas nas aldeias vizinhas foram instruídas a não beberem água dos seus poços e, alguns dias depois o incidente, foram descobertos peixes mortos num rio a vários quilómetros de distância.

Quando a Inspeção de Polissya mediu os níveis de amónio no rio, descobriu que eles eram 163 vezes mais altos do que o nível considerado seguro.

Destroços de um veículo blindado russo abandonado, na floresta em Irpin.

As populações de animais também estão a sofrer, em consequência do conflito. Especialistas dizem que os habitats únicos na costa do mar de Azov, no sul da Ucrânia, estão a ser irreparavelmente degradados à medida que a Rússia continua a atacar a área com mísseis e bombas.

Preciosas florestas perenes e pântanos salgados na Reserva Kinburn Spit, na região de Mykolaiv, estiveram em chamas durante mais de uma semana, e os seus habitats únicos foram devastados, de acordo com Zinoviy Petrovich, chefe da Reserva de Kinburn Spit.

Petrovich disse à CNN que os incêndios foram provocados por rockets explosivos; e disse que os bombardeamentos contínuos na área dificultam a extinção dos incêndios. "Outra razão é a falta de equipamentos e de combustível para os bombeiros", declarou.

O Parque Natural Nacional das Lagoas Tuzly, perto de Odessa, é geralmente um refúgio para dezenas de espécies de aves que lá vão para nidificar. Este ano, a maioria não conseguiu fazê-lo, afirmou Ivan Rusiev, biólogo e chefe do departamento científico do parque, à CNN.

Rusiev estima que as tropas russas lançaram cerca de 200 bombas no parque.

"Todos os seres vivos sentem o impacto desta guerra agressiva", disse, acrescentando que as poucas aves que conseguiram ter crias agora não conseguem alimentá-los adequadamente. A área é famosa pelos seus pelicanos dálmatas e brancos, disse Rusiev, com uma população de cerca de 1.500 em tempos de paz. "Agora há apenas um punhado de pássaros", disse.

Rusiev afirmou que o aumento repentino do número de navios de guerra e de submarinos no Mar Negro está a causar mais danos. "Encontrámos golfinhos mortos na costa, mortos pelas sondas de baixa frequência", afirmou.

Tentativa ucraniana de extinguir um incêndio causado por um bombardeamento em Sydorove, no leste da Ucrânia, a 17 de maio de 2022.

Esperança em indemnizações

Cientistas e ativistas ambientais já estão a reunir provas dos estragos causados ​​à natureza pela guerra, esperando usá-las no futuro. "Quando derrotarmos triunfantemente [os russos], poderemos contar o dano real e apresentá-lo aos bárbaros que nos atacaram à traição", disse Rusiev.

Uma ONG ambientalista, a Save Dnipro, construiu um chatbot – software que simula conversas entre humanos – para facilitar o acesso a dados sobre poluição e denunciar suspeitos de crimes de guerra ambientais. Estão a compilar a lista e a verificar os factos a partir de fontes abertas, mas a verificação e a investigação adequada ficarão a cargo das autoridades.

Mas obter reparações de guerra por danos ecológicos é uma tarefa difícil. Zwijnenburg explicou que, com a lei internacional atual, a fasquia é "muito alta".

"Para atingir o limite em que os governos podem ser responsabilizados por danos ambientais, é preciso que haja danos severos e de longo prazo provocados ao meio ambiente, antes de se poder realmente dizer que é um crime de guerra. E a única vez que essa barreira ou o limite foi ultrapassado foi em 1991, quando o Iraque incendiou centenas de poços de petróleo no Kuwait", relatou.

A Comissão de Compensação das Nações Unidas ordenou que o Iraque pagasse ao Kuwait cerca de três mil milhões de dólares pelos danos ambientais causados ​​durante a invasão de 1990, como parte de seu pacote de reparação de guerra de 52,4 mil milhões de dólares.

Muitos ativistas estão também preocupados com mais danos causados ​​desnecessariamente em nome do esforço de guerra.

Uma investigação conduzida pela União Europeia em 2017 e 2018 sobre o setor florestal da Ucrânia dizia que o seu sistema de controlo florestal "não estava a funcionar corretamente". Esse relatório, publicado em 2020, apurou que os indícios do terreno “apontam para uma cultura de corrupção generalizada e extração ilegal de madeira”.

Os organismos de vigilância nacionais da Ucrânia suspenderam em grande parte o seu trabalho de proteção ambiental por causa da guerra. Segundo Kravchenko, isso pode levar à exploração de recursos nacionais. "Sabemos que os silvicultores ucranianos estão a derrubar a floresta e a explicação é que é por causa das necessidades do exército. Mas é pelas necessidades do exército ou pelas necessidades da corrupção que existe na indústria florestal? O meio ambiente sofre impactos de todos os lados", afirmou ela.

De volta a Irpin, a natureza está lentamente a lutar. Ao lado dos destroços de um veículo blindado russo incendiado, rebentos verdes começam a surgir numa árvore danificada. Os arbustos de lilás do lado de fora das casas ao longo da estrada, através da floresta, estão a explodir de cor.

O grande êxodo de pessoas da capital, combinado com a escassez aguda de combustível, fazem com que, paradoxalmente, a qualidade do ar na região esteja melhor do que em anos.

As tropas russas foram embora, mas a floresta continua danificada.

"A natureza é, como se costuma dizer, a ‘irmã pobre’", disse Bondarenko. "Pensamos na natureza em último. Em primeiro lugar, pensamos nas nossas vidas e nas vidas de nossos entes queridos, dos nossos amigos e de outras pessoas, depois pensamos nas nossas casas e empregos, e assim por diante, e então, no fim da lista, pensamos na natureza”.

"Acredito que temos uma hipótese, apesar da guerra, de fazer mudanças fundamentais na nossa atitude em relação à natureza, à proteção ambiental, à energia e uso de recursos verdes", acrescentou.

A cidade de Irpin usa o nome do rio Irpin, que serpenteia pela região antes de desaguar no Dnipro. "O rio desempenhou um papel importante na defesa de Kiev", recordou Bondarenko. "As nossas forças armadas rebentaram pontes e foram forçadas a abrir barragens para inundar o leito do rio Irpin, para impedir que os invasores o atravessassem em pontes flutuantes e chegassem a Kiev".

Quando o exército abriu a barragem no rio Irpin, em Demydiv, no segundo dia da guerra, vastas áreas húmidas antigas que foram drenadas durante a era soviética regressaram ao seu estado original – e, nesse processo, ajudaram a proteger Kiev.

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