“Moscovo diz que invadiu a Ucrânia para proteger os russófonos mas está a bombardeá-los em Kharkiv e Mariupol”

José Miguel Sardo
6 abr, 21:56
Maria Avdeeva, diretora de investigação da Associação Ucraniana de Peritos Europeus e especialista em temas europeus, segurança internacional e combate à desinformação

Maria Adveeva reside em Kharkiv, onde batalha contra a desinformação vinda do Kremlin - e é algo que faz por entre os bombardeamentos russos da cidade. É diretora de investigação da Associação Ucraniana de Peritos Europeus e especialista em temas europeus, segurança internacional e combate à desinformação. "A minha família era russófona e nunca ninguém em Kharkiv foi discriminado pela sua língua ou cultura", diz. "A realidade é que o regime de Putin hoje utiliza estratégias bastante similares às de Hitler no seu tempo. Os nazis também ocultavam as suas execuções nos campos de concentração, escondiam-nas mesmo dos próprios alemães, sob pretexto que agiam para defender a nação.

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Como começou a trabalhar nesta área da desinformação russa?
Eu já trabalhava como investigadora em 'soft power' russo no Instituto Nacional de Estudos Estratégicos ucraniano, antes do início da guerra em 2014. Nessa altura a Rússia tentava convencer a opinião pública com uma narrativa sobre a necessidade de neutralidade da Ucrânia e a necessidade do país de integrar essa união de estados com a Bielorrússia e a Rússia. Mas em 2014, durante a revolta do Euromaidan, os ucranianos manifestaram-se a favor de pertencerem à comunidade europeia e contra a adesão ao espaço de influência da Rússia. E foi algures nessa altura que a Rússia iniciou esta guerra de informação a que chamamos 'guerra híbrida', ou seja, o recurso às armas da informação e da economia em paralelo com as ações militares e paramilitares. Foi esta combinação que a Rússia utilizou desde 2014 na Ucrânia. Foi nessa altura que comecei a trabalhar na área da desinformação, pois a Rússia já tinha ocupado ilegalmente a Crimeia e já havia uma guerra na região do Donbass. E apercebemo-nos desde logo que estas operações só foram possíveis com o recurso à desinformação e víamos já que Moscovo estava a preparar terreno para uma possível ofensiva deste lado da fronteira. E já nessa altura ouvíamos pela primeira vez argumentos sobre os 'nazis ucranianos' que iam entrar no Donbass e alegadamente 'matar toda a população russófona da região'.

Os argumentos que Putin utiliza hoje para justificar a guerra são os mesmos que utilizou durante os últimos oito anos de conflito no Donbass?
Putin está, de facto, a utilizar os mesmos métodos e as mesmas táticas. Há algumas semanas, por exemplo, a Rússia festejou o aniversário da ocupação da Crimeia e neste festejo Putin pronunciou um discurso no qual disse que o objetivo desta guerra contra a Ucrânia era o de defender a população do Donbass de um genocídio por parte dos ucranianos. Ou seja, Putin continua a afirmar que está a agir para proteger os russófonos do país mas não afirma que a Rússia está a matar mulheres e crianças ucranianas e a bombardear áreas residenciais. As declarações seguem sempre na mesma linha desde 2014 e vão aumentando cada vez mais de tom, pois de alguma forma Putin necessita de legitimar esta guerra e esta agressão junto da população russa para mostrar que tem uma razão para invadir com tanques militares um país soberano.

Quando invadiu a Ucrânia, Putin referiu-se a uma “operação militar especial” com “forças de manutenção de paz”.
Esses argumentos são a continuação dessa campanha de desinformação, mas é preciso começar por perceber dois pontos. Em primeiro lugar a Rússia diz que tem de se proteger do avanço da NATO, mas quando a Rússia decide cruzar a fronteira com os seus militares a Ucrânia tinha um estatuto neutral inscrito na sua constituição e não fazia parte da NATO. Mas, ao mesmo tempo, desde o início do ataque que o apoio à NATO é crescente, pois a população procura qualquer forma de proteção face à Rússia. Em segundo lugar o “nazismo”: o partido na Ucrânia que tem alguma forma de abordagem nacionalista obteve pouco mais de 2% dos votos nas últimas eleições gerais, o que quer dizer que nem sequer tem representação parlamentar e é um resultado sem dúvida muito inferior ao de outros partidos nacionalistas na Europa - esses sim têm assento parlamentar. Existem também, de facto, grupos nacionalistas mais marginais na Ucrânia, mas como existem também noutros países europeus mas sem qualquer tipo de influência sobre a política externa ou interna do país. Eu própria vivo em Kharkiv, que é uma cidade onde vive um milhão e meio de pessoas. A minha família era russófona e nunca ninguém desta cidade foi discriminado pela sua língua ou cultura. Estes são apenas os argumentos que a Rússia utiliza para ganhar terreno e justificar qualquer tipo de intervenção sob pretexto de proteger a população russófona. E esta narrativa da proteção não corresponde à realidade, uma vez que a Rússia está a destruir cidades onde vive uma grande população russófona, como aqui em Kharkiv ou em Mariupol. E este argumento é particularmente ridículo para os membros da comunidade que vivem aqui e que sofrem também com a agressão russa.

A Rússia tinha aliás ocupado as centrais nucleares depois de ter denunciado que um comando ucraniano poderia atacá-las e acusar a Rússia. É mais um exemplo dessa chamada estratégia de “bandeira falsa”, ainda que este ataque nunca se tenha concretizado - ao contrário da ocupação russa das centrais?
É verdade que começaram a multiplicar-se as declarações de que a Ucrânia tinha um programa nuclear secreto e que estaria a desenvolver uma bomba nuclear para atacar o Donbass e que também tinha um programa para desenvolver armas biológicas em laboratórios secretos com a mesma finalidade de atacar a população russófona. E estas acusações não vinham de obscuros grupos conspiracionistas mas diretamente do Ministério da Defesa russo e do seu porta-voz, que anunciou ter provas destas alegações. Trata-se, uma vez de mais, de tentar legitimar a agressão aos olhos da população russa face a um alegado perigo nuclear ou biológico. Mas ao mesmo tempo pode ser também um sinal para lançar uma operação de dissimulação ou de “bandeira falsa”, ou seja, a Rússia pode assim, por exemplo, recorrer a um ataque com este tipo de armas, por exemplo no Donbass, e depois acusar a Ucrânia de ser a responsável. Uma situação que daria, por sua vez, o pretexto à Rússia para utilizar armamento mais pesado na Ucrânia, como poderia também abrir a possibilidade de recorrerem a armas nucleares táticas - e essa é atualmente a nossa preocupação, que possam encenar algo, acusar o lado ucraniano de ser o responsável e responder com este tipo de armas. E neste momento constato que a Rússia multiplica este tipo de acusações, que são de certa forma ameaças. Basta procurar num motor de busca da internet para encontrar cada vez mais referências a 'bombas sujas' e 'ataques biológicos' na imprensa russa e isso mostra, mais uma vez, que a Rússia está a preparar a opinião pública para esse facto e a garantir assim o apoio imediato da sua população. Estamos a assistir ao mesmo cenário de campanha maciça de desinformação que decorreu durante os dias iniciais da guerra e que justificaram então, para a Rússia, a urgência de uma intervenção. O mesmo pode acontecer agora.

O bombardeamento do teatro de Mariupol parece ter os mesmos contornos de desinformação, quando a Rússia nega a responsabilidade e acusa um comando ucraniano de ter bombardeado o edifício com civis no interior.
A Rússia afirma que um grupo de nazis mantinha essas centenas de pessoas sequestradas dentro do edifício, o que é bastante revoltante, sabendo que o próprio presidente ucraniano tentou, por várias vezes, negociar com a Rússia a abertura de um corredor humanitário para poder evacuar a cidade. O que se está a passar em Mariupol pode sem dúvida ser comparado a um 'genocídio' quando vemos pessoas sem água, sem eletricidade, sem alimentos e que continuam a ser bombardeadas todos os dias. A cidade está bloqueada, a Rússia bombardeou uma maternidade na cidade com duas grávidas no interior, uma sobreviveu e deu à luz e a outra ficou ferida e morreu durante o parto, assim como o bebé. E, neste caso, a Rússia também afirma que tudo isto é falso e que não estava nenhuma mulher no interior do hospital. E isto é afinal uma mentira que encobre também o facto de, na verdade, serem os russos que mantêm sequestrada toda uma cidade destruída a 80% pelos bombardeamentos. As pessoas refugiaram-se neste teatro, calcula-se que estariam refugiadas mais de um milhar de pessoas dentro do edifício, mas o contacto é difícil pois a cidade está sem eletricidade e sem comunicações. As autoridades ucranianas anunciaram que pelo menos 130 pessoas teriam saído dos escombros, o que deixa ainda interrogações sobre o número de pessoas que podiam estar ainda soterradas. Vemos também as imagens dos cadáveres nas ruas, sabemos que as morgues da cidade estão saturadas. É sem dúvida um comportamento próximo do genocida, uma vez que o exército russo sabe o que se está a passar na cidade e ainda assim continua a bombardear a população civil.

A Rússia também negou ter lançado um míssil sobre a Praça da Liberdade em Kharkiv e acusou grupos nazis, mas afinal um fotograma de um vídeo mostrava bem esse míssil. Qual é afinal o objetivo desta estratégia que resiste mesmo à comprovação da falsidade? Criar confusão?
Eu vou dizer-lhe muito claramente qual é o objetivo: a realidade é que o regime de Putin hoje utiliza estratégias bastante similares às de Hitler no seu tempo. Os nazis também ocultavam as suas execuções nos campos de concentração, escondiam-nas mesmo dos próprios alemães, sob pretexto que agiam para defender a nação. Na Rússia passa-se exatamente o mesmo e estou em contacto com especialistas russos que também fazem a mesma comparação, num momento em que Putin mantém um nível alto de popularidade e em que pelo menos 25% da população apoia de forma feroz esta guerra e está ao corrente do que se passa na Ucrânia. Há uma outra grande parte da população que se mantém silenciosa e que não protesta e isto é, sem dúvida, o resultado de uma audiência alimentada com mentiras revoltantes. Nós conhecemos a história da Segunda Guerra Mundial e sabemos como se passou quando vimos os generais de Hitler em Nuremberga a dizer que não sabiam o que se estava a passar e que só seguiam ordens. Vimos também a mesma situação durante Estaline, quando as pessoas eram dizimadas nas aldeias. E penso que esta situação se está a passar outra vez neste momento. E enquanto discutimos o último acontecimento e de quem foi a responsabilidade, já os russos cometeram mais uma série de ações - é um sistema que se carateriza pela produção constante de novas ações no terreno acompanhadas de manobras de dissimulação e de versões falsas. E a situação só pode piorar quando a Rússia bloqueou já uma grande parte das redes sociais e dos meios de comunicação social estrangeiros e as possibilidades de contradição desta narrativa oficial vão diminuindo a cada dia.

Pensa que foi importante a decisão da União Europeia e dos Estados Unidos de suspender a difusão de canais como o Russia Today ou o Sputnik, que alimentavam muitas dessas versões alternativas desde o início do conflito no Donbass?
Penso que foi importante mas não basta para pôr fim à maquinação: vemos que alguns desses canais continuam a poder ser vistos na Europa e, pior ainda, vemos como as contas oficiais do governo e ministérios russos continuam a debitar toda esta campanha nas redes sociais, as mesmas às quais a maioria dos cidadãos russos já não tem acesso. Penso que há um desequilíbrio evidente entre a Rússia que expulsou ou contribuiu para expulsar os meios estrangeiros do país mas que ao mesmo tempo mantém a presença dos seus ministérios e responsáveis oficiais no espaço público estrangeiro, onde fomentam essas teorias sobre armas biológicas e ataques químicos. É um pouco o que ocorreu em 1933 com Hitler, que durante a guerra continuava a dar entrevistas e a transmitir a sua propaganda através da imprensa livre americana. Não penso que seja uma questão de liberdade de expressão, trata-se de como lidar com um estado totalitário que não deve ter uma tribuna num mundo livre.

Como vê a possibilidade de um acordo que possa parar a ofensiva militar, sobretudo em torno, por exemplo, do reconhecimento da independência da região do Donbass por parte de Kiev, uma das condições apresentadas por Putin para negociar um cessar-fogo?
Zelensky é atualmente um presidente que tem não só o apoio mas também a admiração da população, uma vez que não fugiu de Kiev e resiste na cidade e na Ucrânia é raro ver esta união em torno de um governante. Zelensky sempre disse que está pronto a dialogar para encontrar uma solução que evite mais mortes e que está preparado para falar diretamente com Putin. Penso que é importante chegar a um acordo para dar mais tempo à Ucrânia, para poder ter mais ajuda e mais armas defensivas e mais homens no terreno. Qualquer iniciativa de diálogo é sempre positiva, mas o mais importante é salvar vidas e evitar mais mortes. Mas se me perguntar a nível pessoal, eu acho que não tenho qualquer razão para acreditar em qualquer coisa que diga ou faça a Rússia, sobretudo quando todos os responsáveis russos asseguraram por várias vezes que não iam invadir a Ucrânia e vemos hoje os militares russos no nosso país. Eles também assinaram o memorando de Budapeste, em que garantiam que não atacariam a Ucrânia e no qual a Ucrânia rejeitou ter armas nucleares e o resultado é que hoje as tropas russas invadem o nosso país. Mas, mesmo que não acredite neles, sei que é preciso tentar falar para travar esta ofensiva militar.

Qual é a situação atual em Kharkiv?
Os planos não estão a correr exatamente como previsto por Putin, que pensava, ao início, que poderia tomar a cidade numa operação relâmpago de dois ou três dias. Vemos que o exército ucraniano continua a reter o avanço dos russos. Em suma, os russos fizeram os 40 km que distanciam Kharkiv da fronteira em cerca de um dia até atingirem os arredores da cidade e desde então estão retidos no mesmo ponto, face à resistência e às contraofensivas do exército ucraniano. Vemos que o moral das tropas é baixo, que não esperavam enfrentar tanta resistência e que começam a faltar mantimentos, combustível e equipamento militar, pois não previam que a operação se prolongasse durante tanto tempo. Assistimos também a muitas pilhagens de lojas nas zonas ocupadas, pois os soldados russos não têm comida. O exército russo está estancado e é por isso que a Rússia recorre a esta estratégia de bombardear zonas residenciais e de aterrorizar a população civil. Há várias semanas que a cidade está a ser bombardeada de forma quase ininterrupta. E nestes ataques utilizam armas como bombas de fragmentação, armas que estão proibidas, uma vez que causam vítimas e destruição de forma indiscriminada quando largadas em zonas civis. Em Mariupol vemos que foram capazes de cercar a cidade, mas aqui, como não conseguiram fazê-lo, continuam a levar a cabo lançamentos de mísseis a partir de território russo. Viver na cidade é quase impossível, sobretudo no centro, onde muitas zonas foram totalmente destruídas, em especial zonas residenciais, onde não há eletricidade nem aquecimento e também não há água. No outro dia falei com o responsável da morgue, que me disse que todos os dias recebem uma média de 50 a 60 mortos. A situação é crítica e é por isso que Zelensky insiste na importância de encerrar o espaço aéreo e de instalar sistemas de proteção antiaérea, porque se conseguirmos defender os céus teremos mais possibilidades de vencer esta guerra.

Para alguém que está no terreno neste momento, há algo que a incomode na forma como é relatada atualmente a guerra no exterior da Ucrânia?
Há algo que me revolta bastante e que tem que ver com um debate atual na imprensa ocidental em torno do facto de que o Ocidente não deveria provocar Vladimir Putin para evitar uma chamada 'terceira guerra mundial'. A questão é que ele já está em guerra e já está a ameaçar também países da NATO, como vimos depois dos bombardeamentos junto à fronteira polaca, nos arredores de Lviv. Vemos como os meios de comunicação russos já estão a debater a possibilidade de o próximo alvo militar ser a Polónia e sobre a necessidade também de 'desnazificar' a Polónia, por ter também partidos ultranacionalistas. E quando vemos alguém a falar tão abertamente deste tema devíamos tentar admitir que talvez não seja o melhor momento para discutir se devemos ou não provocar Putin. Ele já está em guerra e ele só entende a linguagem da força. Se mostrarmos que a Ucrânia conta com todo o tipo de armamento estrangeiro – porque não estamos à espera que soldados estrangeiros venham combater por nós, pois já nos ocupamos nós disso - aí haverá pelo menos uma possibilidade dE a Ucrânia vencer esta guerra e a paz que conseguirmos alcançar aqui vai acabar por beneficiar toda a Europa. Penso que não é momento de debater mas de tomar decisões.

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