"Se António Costa fosse advogado ficaria rico, mas ele escolheu ficar pobre": o homem que disse isto, Lacerda Machado, é um dos cinco detidos em dia de buscas ao Governo (saiba ainda quem são os outros)

Henrique Magalhães Claudino , com Beatriz Céu
7 nov, 11:18
O ex-administrador não-executivo da TAP, Diogo Lacerda Machado, durante a sua audição na Comissão Parlamentar de Inquérito à Tutela Política da Gestão da TAP na Assembleia da República (Lusa/ José Sena Goulão)

Ministério Público realizou buscas no Palácio de São Bento e em ministérios do Governo

Cinco pessoas foram detidas na sequência das buscas efetuadas pelo Ministério Público à residência oficial do primeiro-ministro, António Costa, e ministérios envolvidos num processo relacionado com a exploração de lítio. António Costa demitiu-se entretanto.

O empresário Diogo Lacerda Machado, que se apresenta publicamente como um amigo de António Costa, está entre os detidos, bem como o chefe de gabinete do primeiro-ministro, Vítor Escária, e o presidente da Câmara de Sines, o socialista Nuno Mascarenhas.

Lacerda Machado é padrinho e um dos mais íntimos conselheiros de António Costa, com quem mantém uma amizade desde os tempos da Faculdade de Direito - e tem vindo a ter ao longo dos anos um assento de destaque em alguns dos dossiês mais importantes para o país. Foi administrador da TAP, negociou com os lesados do BES e com os antigos acionistas do BPI e foi agora detido após buscas na residência oficial de Costa e em vários ministérios.

Diogo Lacerda Machado, que tem assumidamente sublinhado a “excelente amizade” com António Costa ao longo dos anos, destacando sempre que a tem “prejudicado mais do que beneficiado”, nasceu em maio de 1961, filho de Nuno Pereira de Sá Nogueira de Lacerda Machado, capitão de Cavalaria e de Regina Amélia Campos Barradas.

Licenciou-se pela Faculdade de Direito em 1985 e foi na Universidade de Lisboa que travou amizade com António Costa. O “António”, como descreveu na comissão de Inquérito à gestão da TAP este ano, “é um extraordinário advogado”. “Sempre lhe disse que se fosse advogado ficaria rico, mas ele escolheu ficar pobre.”

A amizade viria a prolongar-se durante mais de 30 anos e Lacerda Machado foi mesmo escolhido por António Costa para padrinho quando o primeiro-ministro se casou, em julho de 1987. Os dois, como foi revelado numa entrevista à Visão, chegaram mesmo a procurar casa juntos - primeiro no Restelo antes de comprarem “uns t0” em Carnide.

A estreia no setor público não foi em Portugal, contudo. Lacerda Machado foi assessor do secretário adjunto para a Administração e Justiça do Governo de Macau em 1988. 

No regresso a Portugal, viria a ser membro do Conselho Superior de Magistratura dois anos antes de, em 1999, ter chegado a secretário de Estado da Justiça pela mão de António Costa, que foi o detentor desta pasta no governo de Guterres até 2002. Foi ele quem, na altura, serviu de mediador das vítimas na tragédia de Entre-os Rios.

O advogado passou ainda pela Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos e pelo Conselho Geral e de Supervisão da EDP, até que, em 2007, tornou-se diretor da Geocapital, do empresário e magnata dos casinos Stanley Ho, numa altura em que esta empresa finalizava uma parceira de investimento da TAP, na compra da brasileira VEM.

A ligação de Lacerda Machado à TAP viria a prolongar-se quando, em 2015, integrou a equipa do antigo ministro do Planeamento, Pedro Marques, para negociar a alteração da privatização da TAP, que culminou na reconfiguração da estrutura acionista da companhia, baixando para 45% a parte privada e subindo para 50% a participação do Estado.

Mais tarde viria a assumir funções como administrador não executivo da TAP, tendo deixado a administração em abril de 2021, alegadamente em rota de colisão sobre a estratégia da empresa com o então ministro das Infraestruturas Pedro Nuno Santos.

O advogado conta também com várias passagens por bancos no continente africano, como a Caixa Económica de Cabo Verde, o Banco Mais (Moçambique) e o Banco da África Ocidental (Guiné-Bissau). E, em articulação com o ministro das Finanças, foi responsável por sentar à mesa de negociações Isabel dos Santos com os espanhóis do CaixaBank para um acordo - que não chegou a acontecer. 

Ainda por causa desta negociação, foi chamado para testemunha do primeiro-ministro quando este processou o antigo governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, que alegou que António Costa lhe ligou no sentido de manter a empresária angolana no EuroBic, no sentido de desbloquear o impasse na estrutura acionista do BPI.

Lacerda Machado é ainda apontado como um dos responsáveis pela assinatura de um acordo preliminar com os "lesados" do BES, o Banco de Portugal e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários.

Sportinguista, futebolista nas horas livres e apaixonado por aviação, Lacerda Machado está também desde 2019 na Holding MysticInvest e, recentemente, apareceu ligado a um consórcio nacional com o objetivo de entrar na corrida pela compra da TAP e que contaria com o empresário Germán Efromovich. 

Mas sobre o assunto TAP, como disse também na comissão de inquérito deste ano, não fala com Costa. “É a melhor forma de preservar a nossa excelente amizade”. 

Mais detidos

Os restantes detidos são o CEO da empresa Start Campus, Afonso Salema, e o diretor Jurídico e de Sustentabilidade, Rui Oliveira Neves, confirmou a CNN Portugal.

A CNN Portugal sabe que não haverá mais detenções no âmbito deste processo e que os detidos serão presentes a julgamento e medidas de coação.

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