opinião

Porque está a META a aderir ao Fediverso

23 mar, 14:51

Mark Zuckerberg não tem tido anos fáceis, ultimamente. Nem a Google. Ou o TikTok. O maior entendimento do impacto social, económico e até mesmo democrático destas BigTech tem feito com que a União Europeia (EU), o Congresso Norte-Americano ou os governos Canadiano e Australiano, para citar apenas alguns, estejam hoje a escrutinar mais estas empresas e criando regras que visem maior abertura do mercado a outras, para permitir maior concorrência e sobretudo defender os cidadãos e os seus direitos. Mas então, o que tem isto a ver com a META, que detém Whatsapp, Facebook, Instagram e agora a Threads, e o Fediverso?

O Fediverso

Já tenho debatido e falado do Fediverso e dos possíveis impactos que pode vir a ter no ecossistema digital. O desenvolvimento do protocolo vem avançando desde 2017 mas até há pouco tempo sempre associado a plataformas “underdog”, desconhecidas, pequenas, heróicas e estóicas, mas sem número de utilizadores na ordem das centenas de milhões que fazem a investidores e leitores despertar o interesse. 

Mas eis que com o lançamento da Threads, a rede social lançada pela Meta em articulação com o Instagram, para concorrer com a X (ex-Twitter), veio mudar um pouco este estado de silêncio, ao ser tornado público pela empresa que a Threads iria aderir ao protocolo ActivityPub e ao Fediverso.

O que é isso do Fediverso

Num relance, muito abreviado, trata-se de um ecossistema de plataformas aderentes ao protocolo acima referido, ActivityPub, que com isso permite que ao invés de ter de criar uma conta em várias redes sociais para seguir e interagir com os criadores e amigos nessas redes sociais, possa fazer tudo numa só.

Ao invés de ter de perfil no Facebook para ver posts do Facebook, ou ter perfil no Linkedin para ver posts do Linkedin, imagine que poderia só ter perfil numa rede social (por exemplo Instagram), e que recebia no seu feed do Instagram os posts dos amigos e dos famosos e das marcas que segue tudo aí, fossem eles vídeos do Youtube, fotos do Instagram, posts do Facebook de galerias, etc...

Além disso, no dia em que quisesse mover a sua conta para fora do Instagram, tal seria fácil, e poderia levar também os seus seguidores e todo o conteúdo criado até então.

Imagine como seria o seu dia a dia – em vez do périplo de instalar várias apps e abrir uma a uma todos os dias para ver o que há de novo, ter apenas uma conta, uma app, e gerir tudo aí. E melhor, sem prisões ou obrigações, podendo alterar a qualquer momento.

Imagem gerada por recurso à ferramenta de I.A. Copilot

Porque quer a META entrar nisto

Nas palavras do gestor da Threads e do Instagram, Adam Mosseri:

“If you’re wondering why this matters, here’s a reason: you may one day end up leaving Threads, or, hopefully not, end up de-platformed. If that ever happens, you should be able to take your audience with you to another server. Being open can enable that.”

Uma daquelas frases pomposas, bonitas e para se emoldurar na parede.. o que faz precisamente tremer de suspeição muitos dos profissionais da área, tendo em linha de conta o histórico de uma empresa que ainda hoje não se livra do escândalo do Cambridge Analytica.

A especulação inicial apontava então que a intenção está entre a colonização e a comunicação. A primeira, no sentido crítico de alguns de querer a META tomar conta do Fediverso para mais tarde o controlar. A segunda, advogando que isto não se trata mais do que comunicação pública para granjear ‘goodwill’.

Bom, para começar é preciso lembrar que a rede social Threads foi construída a partir do código fonte do Instagram e não do código aberto do Mastodon (a principal rede social do Fediverso em número de utilizadores à data) e também não tendo o protocolo ActivityPub de base; é portanto um esforço adicional que a empresa está a fazer (e este esforço significam horas de talento, que significa muito dinheiro).

Para quê?

As especulações começam aqui.

A primeira razão já está referida acima: para controlar o ecossistema e poder influenciar o caminho do Fediverso. Diria altamente improvável. E quanto à segunda... bem, há formas mais eficazes de Relações Públicas (e menos onerosas).

Terceira hipótese levantada por alguns dos especialistas que têm sido chamados à META para debater esta abordagem e a empresa ouvir as suas opiniões: é de que tal como a Google tirou partido do Android vs iPhone para ter um papel condutor no ecossistema aberto dos smartphones, também assim aqui possa acontecer o mesmo, não perdendo a META força no ecossistema das redes sociais

Quarto argumento (também, a meu ver, pertinente): trata de ser uma forma da META poder provar e demonstrar aos reguladores de vários países (sob os quais está pressionada) que está a aderir e a estimular a concorrência e um ecossistema aberto.

O quinto e sexto e sétimo... 

...bem, podemos encontrar muitos mais, tais como a aversão de Zuckerberg a Elon Musk e com isso por aqui poder destruir o Twitter/X. Mas há um argumento adicional que não é de descurar, que é o passado de Zuckerberg, tal como o de tantos dos pioneiros da Web 2.0, inspirados por hackatons e encontros geek entre programadores de uma web onde só uma coisa inspirava: a inovação. Ser pioneiro na descoberta de caminhos novos. E se Zuckerberg foi um dos que dentro da META primeiro encontrou entusiasmo em estar na linha da frente do Fediverso, como se julga por várias fontes da empresa que têm partilhado essa história, isso pode bem explicar então porque esta entrada via Threads é não apenas uma “experiência” da equipa, mas uma iniciativa apoiada “de cima”.

Já fui mais seguidor e apoiante de Zuckerberg do que me tornei nos últimos anos (escusado será explicar porquê, creio que óbvio), mas a adesão da rede social Threads ao Fediverso e ao conceito de uma web finalmente mais descentralizada e aberta como preconizada nos anos 1960/70 parece-me sempre de louvar. Mesmo que os reais objetivos por detrás possam por ora ser nebulosos. Ofereçamos o benefício da dúvida e acompanhemos o desenrolar dos factos neste ano de 2024. 

...sem deixar de estar no Mastodon e não apenas na Threads, pois claro.

Colunistas

Mais Colunistas

Mais Lidas

Patrocinados