opinião
Psicólogo e Presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicólogo Responde: Os problemas de saúde mental são hereditários?

17 dez 2021, 20:25

"O Psicólogo Responde" é uma nova rubrica de saúde mental do site da CNN Portugal

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Esta não é uma resposta de sim ou não. Porquê? Em primeiro lugar porque os problemas de saúde mental são vastos e tão variáveis quanto as diferenças entre as pessoas. Em segundo lugar, porque deveremos distinguir problemas de saúde mental de doenças ou perturbações mentais. Talvez seja bom alertar para o facto de a saúde ser um contínuo e não uma dicotomia entre pessoas com doença e sem doença. Todos nós sofremos com problemas psicológicos ao longo da nossa vida na sequência de relações afetivas e dos seus conflitos, perdas de rendimento, morte de familiares ou outras pessoas próximas, por exemplo, e pese embora isso possa causar dificuldades no nosso dia-a-dia não significa que estejamos a sofrer de uma doença, embora até possamos precisar de ajuda, para não a virmos a desenvolver e para recuperarmos o nosso bem-estar e qualidade de vida.

De uma forma geral, é frequente dizer-se que não existem doenças, mas sim doentes. Esta expressão pretende ser uma metáfora sobre a variabilidade dos sintomas de uma doença. Na verdade, somos todos diferentes, pelo que as doenças, quer sejam primariamente originadas por um agente patogénico, por uma lesão ou um desequilíbrio fisiológico, se manifestam de forma diversa em função das diferenças físicas e psicológicas da pessoa.

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Não temos, contudo, dúvidas que as diferenças entre as pessoas são muito mais marcadas do ponto de vista psicológico do que do ponto de vista físico. Ou seja, se é verdade que o Ser-humano é o animal mais diferente entre os elementos da sua espécie quando comparada com todas as outras espécies animais, essa diferença é muito mais marcada do ponto de vista psicológico, do funcionamento mental, do que do ponto de vista físico. O mesmo acontece com as doenças. A variabilidade na manifestação de doenças e problemas de saúde mental é muito maior do que nas outras doenças. Não há seguramente uma pessoa com problemas de saúde mental ou psicológica iguais ao de outra pessoa. Mas, então, como se fazem os diagnósticos? Como e para que é que identificamos as doenças? O para quê, sem ser exaustivo, passa pela importância de classificar, como forma de orientação da própria intervenção e compreensão das consequências e limitações possíveis, mas também pela necessidade de comunicar entre os diversos agentes que intervêm na saúde mental. O como, através da criação de um conjunto de sintomas amplo, a partir dos quais identificamos naquela pessoa alguns deles para levar a cabo um diagnóstico. De tal forma que, no limite, duas pessoas podem ter o mesmo diagnóstico, a partir de sintomas diferentes. Mas, na saúde mental, tantas vezes, mais importante que fazer um diagnóstico é compreender se aquele quadro vivido pela pessoa é normal no contexto da sua vida, e qual o nível de incapacidade que provoca. Ou seja, interessa compreender se existiram alterações sérias no funcionamento da pessoa sem razões que as justifiquem, e se essas alterações lhe trazem prejuízos em algumas das suas dimensões pessoal, social, familiar, profissional, entre outras. Também por isso, é mais adequado utilizar a expressão “pessoas que sofrem de uma doença” do que “doentes”, além de que diminui o estigma tantas vezes associado.

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É, pois, nesta enorme variabilidade que perde um pouco sentido a questão se os problemas de saúde mental são hereditários. Já há muito tempo está identificada uma tendência familiar para certo tipo de doenças mentais, mas não necessariamente para os problemas de saúde mental no geral. Mas não é seguro que essa tendência familiar seja resultado de fatores genéticos, ambientais ou ambos. Não podemos esquecer que as doenças mentais podem provocar problemas sérios na vida das pessoas, o que, incontornavelmente, vai ter reflexos nas dinâmicas familiares. Por isso mesmo, estes padrões podem gerar uma tendência de replicação, que pode vir a dar uma maior probabilidade de desenvolvimento de problemas de saúde mental nos outros membros da família, nomeadamente na descendência. Mas mesmo isto, evidentemente, é tudo menos determinante. Se é verdade que existe uma tendência familiar nas doenças mentais, essa possibilidade acrescida não pode ser apontada a apenas um fator, uma vez que se existem problemas multidimensionais estes são os relacionados com a saúde mental e psicológica. Torna-se, por isso, muito difícil desenvolver estudos em que se consigam separar e controlar estes fatores para compreendermos as suas causas principais.

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A existir alguma tendência genética, ela será sempre complexa e terá que ser estudada tentando identificar alterações genéticas padronizadas em pessoas com diagnósticos de perturbações mentais, o que é difícil e complexo. Mas o caminho está a ser percorrido. Nos estudos existentes atualmente, algumas variações genéticas encontradas serão responsáveis por uma muito pequena quantidade de risco para o desenvolvimento de doenças mentais, mas constituem pistas importantes para podermos saber mais sobre o tema.

Os estudos a nível genético vão continuar a ser desenvolvidos e vamos seguramente saber mais coisas relevantes sobre o funcionamento humano. Mas importa sublinhar que a área da saúde mental tem que ser compreendida através de uma intervenção personalizada que procure aquilo que de particular exista em cada pessoa. As manifestações de doenças e problemas são altamente complexas e variáveis em cada pessoa, e o papel dos profissionais é serem capazes de trabalhar essa individualidade. Isso sim é a humanização das intervenções e poderá promover, em grande parte, o sucesso das mesmas.

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