Novo gasoduto português para a Europa custa entre 150 e 244 milhões e pode estar pronto em 30 meses

12 ago, 19:45
Tubos nas instalações do gasoduto Nordstream 2 em Lubmin, norte da Alemanha (AP Photo/Michael Sohn)

Notícia CNN Portugal/TVI: o traçado, o custo, os desejos e os obstáculos para o novo gasoduto na Península Ibérica, que Portugal e Espanha defendem há anos e a Alemanha agora pediu, para contrariar a dependência da Rússia. Portugal pode aumentar as exportações de gás natural... e de hidrogénio. Eis como.

Quando a Alemanha quer, a Europa avança. Portugal tem agora o caminho a abrir-se para a construção de um novo gasoduto de ligação a Espanha – e ao resto da Europa -, que beneficiará tanto a redução da dependência europeia do gás russo como a possibilidade de o nosso país aumentar exportações de gás natural – e talvez de hidrogénio verde. A CNN Portugal teve acesso aos detalhes do projeto, cujo desenho indicativo está pronto: um novo gasoduto de 162 quilómetros entre Celorico da Beira e Vilar de Frades, na fronteira, demora 30 meses a ser construído e custa entre 150 e 244 milhões, conforme a configuração. Quem o paga? Segundo o desejo do Governo, será a União Europeia.

Veja no vídeo o traçado do novo gasoduto que ligará Portugal a Espanha:

De um dia para o outro a luz surgiu ao fundo do gasoduto: esta quinta-feira, o chanceler alemão pediu a construção de um gasoduto a partir de Portugal, que passe por Espanha e por França, e que chegue até ao centro da Europa para diminuir a dependência energética do gás russo. António Costa demorou menos de 24 horas a dar o sim: esta sexta-feira, o primeiro-ministro garantiu que o traçado português do gasoduto para o centro da Europa já está definido, estando os “trabalhos muito avançados”, e assegurou que a Península Ibérica pode substituir "grande parte" do gás importado da Rússia.

A resposta foi de um dia para o outro porque o projeto há muito está desenhado. Há anos que Portugal e Espanha querem mais ligações de gás natural ao centro da Europa, mas os desejos têm esbarrado nos Pirenéus: no obstáculo natural e no obstáculo político – França sempre foi parecendo pouco interessada em autorizar mais “concorrência” a partir da Península Ibérica.

A terceira ligação a Espanha

Segundo informação que a CNN Portugal obteve junto de fontes conhecedoras do processo, já há traçado, um custo orçamentado e duas possibilidades técnicas, a de transportar apenas gás natural e a – preferida pelo Governo - de transportar também hidrogénio verde.

O novo gasoduto, a avançar, terá duas partes, o português e o espanhol. Em ambos os casos, o novo gasoduto seria uma extensão das redes de gasodutos já existentes nos dois países, que seriam assim unidos por uma terceira ligação, que se somaria às ligações que já existem através de Campo Maior, no centro-este, e de Valença do Minho, a norte.

Duarte Cordeiro, ministro do Ambiente e da Ação Climática, já afirmou ter "a profunda convicção de que, durante este mandato, seremos capazes de começar a exportar hidrogénio verde".

A nova ligação entre Celorico da Beira e Vilar de Frades tem um traçado indicativo de 162 quilómetros, a que se seguem mais 86 quilómetros do lado espanhol, de ligação até Zamora. O traçado é indicativo porque depende ainda de estudos de impacto ambiental.

A partir do momento em que arranque, o traçado está projetado para demorar 30 meses (dois anos e meio) a construir.

A ligação entre o novo gasoduto e a rede já existente permitirá ligar o porto de Sines (que hoje recebe gás natural liquefeito por navio) até Zamora, daí prosseguindo pela rede espanhola até ao resto da Europa: ou por França (que ainda não tomou posição) através de uma ligação mais poderosa do que a atual através dos Pirenéus; ou através de Itália, que esta semana mostrou disponibilidade para participar no projeto de ligação entre a Península Ibérica e a Europa central.

Custo até 244 milhões… com hidrogénio

O projeto atual tem duas configurações, com dois custos diferentes. Na opção mais simples, de transporte apenas de gás natural, o investimento português no novo gasoduto está estimado em 150 milhões de euros (incluindo a estação de compressão do Carregado). Mas o Governo prefere outra configuração técnica, mais complexa, que permita também o transporte de hidrogénio verde. Nesse caso, o gasoduto custa 244 milhões de euros.

Em ambos os casos, acresce a este investimento português o investimento espanhol de ligação entre a fronteira e Zamora, que ascende a 113 milhões de euros, que incluem o transporte de hidrogénio verde.

O Governo tem todo o interesse em que o projeto inclua hidrogénio verde, não só porque isso poderá alargar as exportações portuguesas mas também porque aumenta a rentabilidade potencial dos projetos de hidrogénio que estão a ser projetados para Sines.

Desde o Governo anterior que o executivo de António Costa defende uma grande aposta nacional de hidrogénio verde. A 20 de julho, no debate do Estado da Nação no Parlamento, o ministro do Ambiente e da Ação Climática, Duarte Cordeiro, disse estarem neste momento sinalizados mais de 70 projetos de hidrogénio verde para Portugal, que somam um investimento potencial a rondar os 10 mil milhões de euros. "Temos a profunda convicção de que, durante este mandato, seremos capazes de começar a exportar hidrogénio verde", afirmou Duarte Cordeiro.

Um novo gasoduto tornaria esta convicção muito mais segura.

Porto de Sines (ainda) maior

Os projetos do novo gasoduto e do hidrogénio verde têm como vértice estratégico o porto de Sines, que já hoje recebe navios de transporte de gás natural liquefeito que pode “injetar” na rede.

A CNN Portugal sabe que há também um projeto para aumentar a capacidade de Sines para exportação de gás, através de rotação de stocks (um projeto de transshipment). Este projeto poderá ser acoplado ao do novo gasoduto.

Com este projeto, Sines pode aumentar de modo imediato a sua capacidade em 0,6 mil milhões de metros cúbicos (bcm), o que exige um investimento de 3,8 milhões de euros; a capacidade a seis meses pode crescer para 1,8 bcm, após um novo investimento de mais três milhões de euros); e finalmente, a um ano, e 4,5 milhões de euros depois, a capacidade pode aumentar entre 4,5 e 6 bcm.

Aumento das exportações

Segundo as mesmas fontes, a construção da terceira interligação de gás a Espanha permite a Portugal aumentar a sua capacidade de exportações em entre 70 GWh/dia (numa primeira fase) e quase 150 GWh/dia (no final).

Olaf Scholz e António Costa, numa imagem de arquivo de maio de 2022, na feira de Hannover.

Tal aumenta a alimentação de gás para a Europa e está de acordo com o programa europeu RePowerEU, que visa aumentar a integração do mercado, a flexibilidade do sistema e da concorrência e a segurança do abastecimento. E isto é válido tanto para o gás natural como para o hidrogénio verde.

A nova pressão política da Alemanha pode ser o desbloqueador que Portugal (e Espanha) aguarda, para um projeto que assim faça da Península Ibérica uma porta de entrada de gás na Europa, através dos seus terminais de GNL (por navio) e da proximidade geográfica com países produtores de gás natural em África (recorde-se por exemplo que existe um gasoduto que liga a Argélia a Portugal, cujo contrato de fornecimento sofreu um revés por problemas diplomáticos entre Marrocos e Espanha, por onde a infraestrutura passa).

Quem paga?

Para que o projeto finalmente avance, há mais obstáculos políticos ainda a superar. Portugal e Espanha têm estado recentemente alinhados na frente europeia, como se viu na criação do mecanismo único para a energia. Ora, o investimento de Portugal carece de alinhamento também com Espanha, que ainda não o deu formalmente, para que à interligação de Portugal a Espanha se siga a interligação a Zamora e de Espanha ao centro da Europa, assim beneficiando os dois países.

Outro obstáculo a superar é o do financiamento: quem vai pagar. Tendo em conta que a guerra na Rússia gerou um movimento na União Europeia de gestão comum de procura e oferta, haverá do lado português a intenção de que o novo gasoduto português seja financiado por fundos comunitários. Para isso, falta a Comissão Europeia fechar a sua estratégia conjunta para o gás natural, e que é agora motivada não só por razões económicas mas, sobretudo, também de estratégia geopolítica, para a Europa ganhar autonomia em relação ao gás da Rússia, que invadiu a Ucrânia em final de fevereiro e se tornou numa ameaça no abastecimento de gás natural, de que países como a Alemanha são particularmente dependentes.

Com as declarações públicas desta semana, o projeto ganha espaço para avançar. Até porque essas declarações não tiveram apenas o habitual sotaque latino. Desta vez, é também germânico.

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