Trelas ao pescoço, orelhas de gato ou latidos no recreio da escola? São só estereótipos. Há mais num furry do que você imagina

14 mai 2023, 15:00
Furry (Getty Images)

Pelos corredores dos liceus, tornou-se mais comum ver jovens com coleiras ou orelhas de gatos. E há quem lhes chame furries - fãs de figuras animais com características humanas. Eles até podem ser, mas este comportamento, diz a comunidade em Portugal, é uma exceção. Este é o retrato de um grupo que é muito mais do que o seu gosto por personagens antropomórficas - e que tem cada vez mais adeptos

Neste caso, talvez seja melhor começar pela pergunta básica: o que é um furry? É uma pessoa que aprecia personagens da banda desenhada e desenhos animais que, sendo animais, têm características humanas. Um cão que fala, um lobo que anda com duas pernas, um gato que sorri ou tem habilidades para lutar com a espada.

Certamente já se cruzou com uma destas personagens. O Rato Mickey, o Gato das Botas, o Pikachu, o Sonic, o Panda do Kung Fu, os pinguins do Madagáscar ou o Winnie-the-Pooh são apenas exemplos. Porque há milhares e milhares destas figuras. E porque é que os furries gostam delas? Precisamente pela sua capacidade de integrarem características humanas.

“Ser um furry é apenas gostar dessas personagens e identificares-te como tal”, resume Onni (nome social), uma artista de 20 anos, a viver em Lisboa.

Figuras da Disney, com Minnie e Mickey, são ratos com características humanas (Getty Images)

Trelas nos recreios? Nem tudo o que ladra é furry

Nos recreios de tudo o mundo – e Portugal não é exceção – têm surgido jovens com trelas ao pescoço, orelhas de gato, caudas ou os narizes pintados a imitar focinhos. Há mesmo quem viva a personagem e se ponha a ladrar ou a gatinhar.

A tendência é achar que estas crianças e jovens são furries. E, em alguns casos, podem mesmo ser. Mas, segundo as explicações dadas à CNN Portugal por membros da comunidade em Portugal, esse não é o padrão de comportamento de um furry no seu dia a dia.

“Ouve-se muito este tipo de ideia, de que os furries são aqueles gajos estranhos que usam coleiras e ladram para as pessoas”, diz Ash (nome social), de 18 anos, que desenvolve software a partir de Lisboa.

“Não tenho nenhum amigo furry que toma comportamentos de animais. Sinceramente, em público, nem gosto muito disso. São comportamentos um pouco isolados e mais raros, já que dão vergonha alheia a boa parte da comunidade”, completa David (nome fictício), de 18 anos.

Ricardo, estudante de engenharia em Lisboa, com 19 anos, reconhece que o máximo que veste no dia a dia são umas luvas peludas em forma de patas de cão. “Mas é quando está frio”, realça.

Os furries em Portugal insistem que são pessoas como as outras. E que, apesar de existir quem use os acessórios no dia, guardam esses apetrechos (ou mesmo os fatos completos, já lá vamos) para os momentos em que estão todos juntos, como encontros e eventos, digitais ou presenciais. Aí, até se abre espaço para piadas internas, como o ladrar ou colocar cães e gatos em tensão pela presença mútua.

“Afinal, isto é um hobby, como gostar de futebol. Não um estilo de vida”, insiste Onni.

Ainda assim, o psicólogo Luís Fernandes, especializado no trabalho com crianç<as e jovens, não olha com estranheza para o facto de estes acessórios peculiares marcarem presença nas escolas e recreios. Porque sempre, ao longo da vida, existiram outros símbolos de pertença. Basta olhar para os skates ou os casacos de cabedal.

“É uma nova roupagem de algo que já existia. Os pressupostos de base são os mesmos. Não se sentem enquadrados naquilo que é o tradicional”, resume o psicólogo.

As luvas usadas por Ricardo, um furry português (DR)

Não é preciso ter um fato peludo para se ser furry

Instalou-se a ideia de que para se ser um furry era necessário um fursuit. E o que é isso? É um fato, de corpo inteiro, bastante peludo. Está a ver as mascotes dos eventos? É por aí. Só que os fursuits refletem a personagem criada pelo próprio furry, bem como a sua personalidade.

Fique então a saber que, para se ser furry, não é preciso ter um fato destes. Aliás, quem os usa é uma minoria. “O preço de um vai dos 600 euros aos 1.700 euros”, concretiza David. E são quentes, muito quentes.

Apesar de não terem os fursuits, isto não quer dizer que os portugueses não se dediquem a desenvolver a sua própria personagem. Ela espelha-se através de imagens criadas para as plataformas digitais, que podem ser replicadas em t-shirts ou porta-chaves, permitindo que os furries se reconheçam quando se cruzam. É uma espécie de bilhete de identidade. Muitos dos furries acabam por só conhecer estas imagens uns dos outros.

Precisamente porque, para eles, o que importa é a partilha da arte sobre estas figuras animais com características humanas. Mas, além dos ilustradores, há também escritores, músicos ou programadores. A comunidade acaba a apoiar-se mutuamente.

Em Portugal, um dos maiores grupos online de furries tem cerca de 300 pessoas. E o número tem vindo a aumentar.

Encontro de furries (Getty Images)

A importância do digital para unir

“Não vivo perto de outros furries, então os meus amigos da comunidade são todos online”, conta Carlos (nome fictício). Pelo mundo já existem grandes convenções de furries, mas, em Portugal, os encontros presenciais ainda continuam a ser um tanto ou quanto informais. Com direitos a jantares, por exemplo.

“A maior parte das atividades acontece em grupos e chats. Conversa-se, joga-se, discute-se”, confirma Ash. Isso não significa, contudo, que o vínculo seja mais fraco.

“É evidente que o surgimento de novas tecnologias altera o modo como a vida acontece. Sempre na sociedade existiram procuras de alternativas nos modos de nos identificarmos. Hoje, a identidade já não se forma a partir das instituições clássicas. Há antes a ideia de que a ideia de que cada um se forma pela sua individualidade. A procura de afinidade vai para lá da proximidade física”, descreve o sociólogo José Barreiros.

Espaço onde um furry português se relaciona com outros membros da comunidade (DR)

Um porto de abrigo, onde se pode ser quem se é

Estas personagens criadas pelos furries são conhecidas como fursonas. Em muitos casos, são encaradas como uma versão idealizada dos sujeitos que as criam, ajudando-os a ultrapassar múltiplas barreiras. Cães, gatos, raposas e lobos estão entre as mais frequentes. E têm direito a nome.

“É muito comum as pessoas criarem a sua personagem como uma versão idealizada delas próprias e olharem para ela até como um objetivo. Como há um grande fator de anonimidade, as pessoas sentem-se confortáveis a serem quem quiserem. É muito comum conhecer alguém durante anos, saber imenso sobre a pessoa, mas não o seu nome real. Cada pessoa tem liberdade total de determinar a sua expressão e identidade”, confirma Ash.

A comunidade furry é vista como um porto de abrigo, um lugar de aceitação, de liberdade, sem julgamentos. Muitos dos seus membros, segundo o retrato feito pelos membros portugueses à CNN Portugal, pertencem também à comunidade LGBT ou lidam com depressões, autismo ou ansiedade social.

“A comunidade furry deu-me um ambiente confortável para explorar a minha sexualidade e partilhar experiências com problemas de saúde. livre de qualquer julgamento”, confirma Ash.

“Desde miúda, não me encaixava em lugar nenhum. Gostava de desenhos animados. Para uma rapariga, na altura, era estranho. Então, sempre me coloquei de lado. Até que conheci esta comunidade e pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu”, conta Onni.

Os psicólogos concordam com a importância destes grupos, por mais de nicho que eles pareçam ser. “Quando estamos em situações de vulnerabilidade é quando mais procuramos o sentimento de pertença, para nos sentirmos acolhidos, reestruturarmo-nos e prepararmo-nos para o passo seguinte”, resume Estefânia Marques.

Já Nathalie Marques completa este retrato: “Há promoção de bem-estar quando um grupo de pessoas compreende e se entusiasma com as mesmas coisas. Os nichos permitem alcançar um maior sentido de realização porque acautela parte das necessidades que todos temos de nos sentirmos aceites, de forma simples e sem muito esforço emocional”.

“De alguma forma protege-os. É através de várias culturas e comunidades que acabam por se sentir protegidos. Encontram nesses pares um porto de abrigo que não encontram na escola ou na sociedade”, conclui Luís Fernandes.

Os especialistas realçam mesmo que este sentimento de pertença ajuda a relativizar aquilo que é visto como falta de aceitação por parte da restante comunidade em que estes jovens se inserem. Ao ponto, por exemplo, de não se importarem de utilizar acessórios de animais na escola, por muitos olhares de estranheza que isso possa causar.

Exemplo de arte furry enviada por um membro da comunidade em Portugal como exemplo (DR)

Sim, os furries têm sexo (e não precisam de usar os fatos para isso)

Durante muito tempo, os furries eram vistos como alguém que tinha o fetiche ter relações sexuais vestido com o fato de animal, máscara ou latidos. E isso, de facto, até pode acontecer, dizem os seus membros. Mas não é muito frequente, até porque os fatos são caros.

Mas a sexualidade não deixa de ser uma parte importante daquilo que é a vida de um furry. Porque os furries são pessoas. E as pessoas, como se sabe, têm sexo. Na intimidade, desde que haja consentimento entre as partes envolvidas, pode entrar um pouco de tudo.

Muita da arte desenvolvida por esta comunidade não deixa de sexualizar as figuras que cria – como acontece, também, na banda desenhada oriental, a mangá, ou na sua versão animada, o anime. “A comunidade furry, sendo um meio onde as pessoas exploram e partilham livremente os seus interesses, irá também ter o seu lado adulto. Existe um esforço para moderar este tipo de conteúdos. Os grupos que o permitem têm o cuidado de verificar a idade dos membros”, garante Ash.

Os psicólogos reconhecem que uma vivência da sexualidade assente nestas figuras imaginárias pode acabar por moldar a forma como é vivida a intimidade. “De uma forma se calhar mais colorida, mas mais desfasada da realidade”, diz Luís Fernandes.

“A sexualização precoce, em conjunto com a infantilização excessiva, em casos muito imersos nestas comunidades especificas, contribui para uma dificuldade de descoberta interna, abrindo lugar, por exemplo, à sua projeção com estas figuras”, explica Estefânia Marques.

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