Cidadãos norte-americanos vão às urnas para eleger novos membros da Câmara dos Representantes e do Senado
A política externa do segundo mandato de Donald Trump mudou constantemente com o passar dos meses. Desde as promessas de paz no mundo até à guerra no Médio Oriente, passando por crises com aliados históricos, os Estados Unidos adotaram diferentes posições no cenário internacional nos últimos meses. Mesmo assim, o presidente parece adotar um padrão: não consultar o Congresso antes de agir. Agora, as eleições intercalares poder trazer um novo cenário para o chefe de Estado, uma vez que o Partido Democrata é favorito nas disputas legislativas.
A relação entre o executivo e o legislativo nos Estados Unidos já viveu dias melhores. Atualmente, A Câmara dos Representantes e o Senado possuem maioria republicana, mas mesmo assim não foram consultados em alguns dos principais assuntos dos últimos anos, como na imposição de tarifas contra outros países ou o ataque contra o Irão.
“Se os democratas assumirem o controlo de uma ou de ambas as câmaras do Congresso, estarão em melhor posição para restringir ações militares não autorizadas, como a guerra no Irão, e para exercer funções de fiscalização”, explica Brian Finuncane, conselheiro sénior sobre Estados Unidos do International Crisis Group e antigo conselheiro legal do Departamento de Estado. “A questão é saber se darão prioridade a esses esforços e se estarão dispostos a agir com firmeza”, disse à CNN Portugal.
Essa visão, contudo, não é consensual. Jonathan Monten, professor de Ciência Política do University College London, acredita que “o Congresso vai constatar que há muito pouco que pode fazer para conter o Trump em matéria de política externa, mesmo que os democratas recuperem o Congresso nas eleições”. O docente refere que há uma tendência de intensificação dos poderes presidenciais em relação aos negócios estrangeiros que precede Donald Trump, mas que tem sido intensificada durante o mandato atual.
“Podem recorrer aos seus poderes de fiscalização para conduzir investigações sobre as ações do presidente, mas já vimos como isso se desenrolou no primeiro mandato de Trump”, refere Monten. "Trump conseguiu, com grande sucesso, neutralizar a capacidade do Congresso de conduzir investigações”.
Por outro lado, uma vitória republicana pode enviar sinais diferentes ao presidente, contribuindo para que Donald Trump continue o caminho que está a trilhar desde o último ano. "Será mais difícil para os oponentes acabarem com a guerra, mas não impossível", explica Finuncane.
Apesar de concordar com a avaliação do antigo conselheiro do Departamento de Estado, Jonathan Montan refere que Trump "já chegou ao limite do que os presidentes podem ir em termos da sua autoridade e poder na política externa". “Acredito muito improvável que, se os republicanos mantiverem pelo menos uma das câmaras do Congresso, tentem de alguma forma travar o que o presidente está a fazer, porque o apoiam”, diz o professor do University College London.
A Guerra na Ucrânia
A relação entre Donald Trump e a guerra na Ucrânia foi algo que mudou diversas vezes desde a campanha presidencial de 2024. Enquanto concorria contra Joe Biden, a posição de Donald Trump era clara: se chegasse à Casa Branca, o conflito terminaria em 24 horas – sendo que o político de extrema-direita levantou inclusive a possibilidade de a guerra acabar após a eleição, mas ainda antes da sua posse. Segundo a CNN Internacional, isso foi mencionado pelo menos 53 vezes.
Mas essa realidade já tem quase dois anos, e a guerra continua sem sinais de que possa chegar ao fim em breve. Durante esse período, o presidente norte-americano adotou em certos momentos uma postura pró Rússia, enquanto em outras oportunidades declarou apoio à Ucrânia.
A 28 de fevereiro de 2025, pouco tempo depois de tomar posse, Donald Trump e JD Vance, vice-presidente, receberam o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky na Casa Branca para um encontro bilateral. A posição dos líderes norte-americanos causou reações a nível global, com a administração a ser acusada de constranger o chefe de Estado ucraniano.
Durante o encontro, Vance exigiu um pedido de agradecimento de Zelensky, que chegou a ser questionado por um representante de um website de notícias pró-Trump sobre a decisão de não utilizar um fato na visita de estado.
No passado, o presidente dos Estados Unidos demonstrou admirar Vladimir Putin, mesmo após a invasão da Ucrânia. Em 2022, segundo o Politico, o líder norte-americano afirmou que operação militar ilegal em solo europeu foi “genial”, enquanto em 2015 disse estar “honrado” por receber elogios do presidente russo, que seria “muito respeitado no seu próprio país e além-fronteiras”.
Noutros momentos, a tensão com Moscovo ficou evidente. Em meados de 2025, por exemplo, Trump anunciou que iria impor tarifas contra produtos russos caso a guerra não acabasse em 50 dias. Posteriormente, no fim de julho, o prazo foi reduzido para dez dias. A pressão, contudo, não surtiu efeito e a guerra continuou, enquanto os Estados Unidos não chegaram a aplicar os impostos adicionais.
“Trump oscila e anda não definiu bem uma linha política”, explica Jonathan Monten. “Parece ter uma certa simpatia pela Rússia e pelo presidente Putin, mas ninguém consegue perceber bem porquê”.
Sendo assim, é incerto que uma mudança no Congresso seja capaz de influenciar a postura norte-americana em relação ao conflito, sendo que o professor do University College London duvida que seja possível pressionar o chefe de Estado por uma tomada de posição em relação à guerra.
“Mesmo que os democratas conquistem ambas as câmaras do Congresso, haverá limites ao que poderão controlar ou restringir no que diz respeito às oscilações de Trump em relação à Ucrânia e à Rússia” sublinha Brian Finuncane. “No entanto, os democratas podem tornar essas oscilações mais dolorosas para a administração”.
Uma questão que pode influenciar as decisões do presidente é a preocupação da Casa Branca com as taxas de aprovação. "Trump preocupa-se com o facto de os republicanos aprovarem a suas políticas, por isso ele poderá afastar-se de uma política mais pró-russa apenas porque quer índices de aprovação mais elevados”, refere Monten.
Mesmo assim, o professor do University College London sublinha que, no final, a palavra do presidente acaba por ser a final. “O Congresso aprovou recentemente uma lei que impõe sanções à Rússia por uma maioria bipartidária, como forma de apoio de ambos os partidos. Mas Trump simplesmente ignorou essa legislação e optou por não aplicar as sanções”.
O futuro do conflito no Médio Oriente
A 28 de fevereiro deste ano, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão, iniciando uma guerra que teve repercussões globais. Além de ataques iranianos contra territórios da região, o país persa fechou o Estreito de Ormuz, local fundamental para o transporte de petróleo, algo que resultou num aumento global do preço dos combustíveis.
O ataque norte-americano, que, segundo uma investigação do New York Times, ocorreu após Trump ser convencido por Benjamin Netanyahu de que o Irão estaria a produzir uma bomba nuclear, não passou pelo aval do Congresso. Enquanto os republicanos alegam que o presidente tem autoridade para ações militares, os democratas dizem que o poder legislativo deveria ter sido consultado.
“No sistema constitucional dos EUA, o Congresso tem o poder de declarar guerra, mas há décadas que aceitamos que o presidente, na qualidade de comandante-chefe das Forças Armadas, pode recorrer à força militar de forma limitada ou a curto prazo”, explica Jonathan Monten. "A questão de saber quando é que uma guerra de curto prazo se torna uma guerra de longo prazo nunca foi realmente resolvida. Por isso, Trump argumenta que está a agir dentro da sua autoridade, mesmo que não haja uma declaração de guerra do Congresso”.
Os Estados Unidos realizaram ataques contra o Irão em diversos momentos nos últimos meses, mas atualmente o conflito está sem ações diretas dos envolvidos. Recentemente, Israel passou por eleições que elegeram um parlamento de difícil governabilidade, enquanto os Estados Unidos estão a preparar-se para a votação que ocorre na terça-feira.
Segundo o Wall Street Journal, os norte-americanos já alertaram que os países do Golfo devem preparar-se para uma “curta e intensa campanha militar” após as eleições intercalares. A decisão ainda não é final, mas Donald Trump deve escolher retomar as hostilidades após a escolha dos novos parlamentares.
“A Guerra do Irão é profundamente impopular nos Estados Unidos”, alerta Brian Finuncane. “Os membros do Congresso que se opõem à guerra têm a oportunidade de tirar partido desta oposição pública, não só para pôr fim ao conflito, mas também para promulgar reformas estruturais destinadas a impedir” a sua continuidade.
No entanto, uma maioria democrata teria dificuldades para limitar as ações de guerra de Donald Trump, explica Jonathan Monten. O professor da University College London, refere que a grande mudança ocorreria se “os republicanos perdessem por grandes margens”. “Isso indicaria a Donald Trump que a guerra é impopular, e talvez não leve a situação mais longe se acreditar que isso está a prejudicar o seu poder político e a sua popularidade”.
A relação com a China
Atualmente, Estados Unidos e China são as principais potências globais, competindo não só por influência, mas principalmente no mercado tecnológico. Um dos principais exemplos é a corrida na Inteligência Artificial – agora batizada pela administração Trump de Superinteligência.
“Os republicanos e os democratas concordam, em grande medida, que a China é o principal concorrente estratégico dos Estados Unidos”, explica Ali Wyne, especialista na relação entre Estados Unidos e China do International Crisis Group e antigo assistente especial do Departamento de Estado. "O presidente Trump, no entanto, tem uma visão das relações entre os EUA e a China diferente da de qualquer outro decisor político em Washington: admira o presidente Xi e acredita que uma relação cordial entre ambos pode ajudar a estabilizar os laços entre os dois países”.
Segundo Wyne, o governante norte-americano assumiu uma postura “conciliatória" em relação a Pequim “não só porque dispõe de mais liberdade política do que no primeiro mandato para expressar as suas próprias opiniões, mas também porque as consequências da sua ofensiva tarifária contra a China no ano passado o levaram a reconhecer a capacidade deste país para absorver e contrariar a pressão dos EUA”.
A disputa comercial em questão ocorreu em 2025, quando o presidente norte-americano anunciou tarifas sobre produtos de dezenas de países, incluindo territórios que possuem relações comerciais irrisórias com os Estados Unidos ou outros com os quais os EUA têm excedente comercial.
Enquanto alguns governos optaram por negociar, como fez a União Europeia, a China adotou políticas de reciprocidade, ou seja, impôs as mesmas tarifas sobre importações norte-americanas. A situação resultou numa série de ações de retaliação dos dois governos. Em abril, por exemplo, a China anunciou tarifas de 125%, replicadas pelos EUA. Na sequência, negociações sobre diferentes assuntos estenderam-se durante meses.
Agora, as eleições intercalares colocam dúvidas sobre o futuro da relação entre os países. “O Congresso continuará a defender medidas militares, económicas, tecnológicas e diplomáticas para contrabalançar a China, mas é improvável que exerça grande influência sobre a política do Presidente Trump em relação à China”, refere o antigo assistente especial do Departamento de Estado. “Embora os americanos tenham, em grande parte, uma visão desfavorável da China, poucos dados de sondagens sugerem que queiram que os seus representantes eleitos promovam políticas mais conflituosas; pelo contrário, querem que Washington e Pequim tomem medidas para reduzir as tensões bilaterais e diminuir a intensidade da concorrência”.