O dia em que Tino de Rans e Rui Tavares tiveram apenas uma feira em comum. Um até polícias abraçou, o outro quis distância e usou duas máscaras

16 jan, 16:56

Arrancou a campanha para as legislativas e os candidatos do RIR e do Livre escolheram ambos a Feira do Relógio, em Lisboa, para o pontapé de saída. Vitorino Silva e Rui Tavares não se cruzaram por pouco, nem fisicamente nem na forma como se apresentaram a quem passou pelas arruadas

"Bom dia, bom dia, é o Tininho". A frase sai como um slogan. Vitorino Silva, mais conhecido como Tino de Rans, é o presidente do partido Reagir-Incluir-Reciclar (RIR) e escolheu a Feira do Relógio, em Lisboa, para o arranque da campanha às legislativas. 

Acompanhado pela vice-presidente do partido, Márcia Henriques, Vitorino Silva começou a primeira ação de campanha do partido às 9:45, depois de ter esperado que os jornalistas descessem toda a Feira do Relógio ao seu encontro. 

"Vamos lá?", perguntava Tino, depois de se ter apresentado a cada um dos jornalistas e agarrado nos calendários de bolso - "estes estão atualizados" - para dar início à arruada. Nem cinco passos tinha dado, já o presidente do RIR abordava a primeira pessoa que passava, natural do distrito de Viseu, e que alegremente lhe respondia que "na vida é preciso Tino".

A arruada seguia lenta, tal era o à-vontade de Vitorino Silva em contactar com a população. Entrava pelas bancas, abraçava feirantes, clientes e, pelo caminho, até polícias Tino abraçou. Tudo para mostrar que o RIR está próximo do povo e que não se prepara para "orgias de partidos", mas sim para "se deitar com Portugal".

"RIR no Parlamento"

Mais uma banca, mais um calendário, duas palavras trocadas e segue a arruada. Tino não nega um bom dia a ninguém, muito menos um aperto de mão. Ao longo de mais de uma hora, vai percorrendo as bancas de frutas, legumes, comida, roupa e acessórios, ouvindo pedidos e conselhos, não se negando a discutir com ninguém.

"Oh Tino, olha o Tino!", ouve-se de todo o lado, em sussurro ou em voz alta, enquanto a arruada sobe a Avenida Santo Condestável.

Quando André Ventura é chamado à conversa por um feirante, o presidente do RIR apressa-se a dizer que não concorda com o que o candidato do Chega diz e que percebe o que o comerciante lhe pede: "Fiscalização. A culpa é do Governo que não sabe fiscalizar".

"Ele só fala do rendimento mínimo sobre a etnia cigana. Ele tem competência, ele tem assento no Parlamento, ele tem competência para fiscalizar essas pessoas. Só fala do Mercedes à porta e dos rendimentos", queixou-se o feirante, dizendo que Ventura quer ganhar votos "à conta dos ciganos".

Chegou Ventura à campanha, mas os restantes também foram falados. Tino diz que "tentam abafar o RIR" porque não é colocado nas sondagens nem nos debates, mas garante que "não há grandes partidos em Portugal".

"Se houvesse grandes partidos em Portugal não tínhamos 50% de abstenção em Portugal. Tentam abafar o RIR. O RIR vai ter povo no Parlamento. O povo pode ter a certeza que vai ter voz, vai ter vez e vai ter lugar", garante o candidato, antes de entrar mais uma banca adentro para entregar um calendário.

Mais de uma hora depois e muitos "é o Tininho" repetidos ao longo das bancas, Vitorino Silva reúne a equipa numa roda para umas palavras de incentivo antes de seguir viagem. A campanha segue agora para Aveiro e para o Porto. 

"Livre deixa mas é a rua livre"

A Feira do Relógio também foi o local escolhido pelo Livre para arrancar a campanha. Com cerca de uma hora de atraso, a comitiva da papoila chegou ao local com os temas do dia bem definidos. Entre feirantes e clientes, num já muito preenchida feira, Rui Tavares quis destacar os temas da habitação e dos transportes.

Rui Tavares em campanha na Feira do Relógio (Lusa)

Visivelmente menos habituado à feira, o candidato do Livre não percorreu todas as bancas da Avenida Santo Condestável, ao contrário de Tino de Rans, mas esteve na feira durante cerca de uma hora onde, a maior parte do tempo, falou com os jornalistas.

"Livre, deixa mas é a rua livre", gritava Joana da banca atrás da comitiva.

Com os folhetos verdes na mão, Rui Tavares, acompanhado por Paulo Muacho, candidato por Setúbal, foi falando com os feirantes e com quem circulava pelas bancas. Muitos confessavam só o conhecer dos debates, outros diziam nunca ter ouvido falar do candidato. A todos pedia-lhes o mesmo, que dessem uma olhadela ao programa quando "tivessem vagar".

Silvino Pinto foi um dos feirantes que confessou não conhecer Rui Tavares. Eleitor no Seixal, disse que ia olhar para o programa quando tivesse tempo, até porque não seguia política.

"Nunca ouvi falar do Livre", confessou.

Frio na campanha, frio nas casas

Rui Tavares escolheu as condições de habitação e o frio sentido dentro das casas em Portugal como tema de arranque da campanha das legislativas. Junto à banca das bifanas, o candidato do Livre encontrou Marco, de Azeitão, que corroborou a teoria de que Portugal é "o país da Europa Ocidental onde se passa mais frio dentro de casa no inverno”.

Numa conversa um pouco mais longa do que as que tinha tido anteriormente, Rui Tavares explicou que a proposta do Livre passa pelo investimento na eficiência energética das casas, permitindo ao mesmo tempo diminuir as despesas das famílias com a eletricidade e “ajudar a salvar o planeta com as pessoas, e não contra as pessoas”.

Além da habitação, o fundador do Livre trouxe também à conversa o tema do transporte escolar, apresentando a proposta para uma nova modalidade de transporte que faça o trajeto entre a escola e a casa dos alunos. Marco, que mora em Azeitão e disse conhecer o Livre e as propostas de Rui Tavares, revelou que levava diariamente os filhos à escola porque não tinha alternativa.

“A nossa proposta é haver um sistema de transporte escolar com carrinhas elétricas e miniautocarros elétricos em que os auxiliares de ação educativa também podem ir para que os miúdos vão em segurança e, assim,  muita gente não precisaria de usar o carro”, explicou o candidato.

"Há aí políticos que não valem um caracol"

"Já sabia que ele era candidato pelo Livre. A nível de políticos todos têm muita conversa, mas depois têm de cumprir. Gosto do homem, é um homem calmo, simpático. Há aí políticos que não valem um caracol. O Tino de Rans não cheguei a ver porque estava aqui entretido com o trabalho, até desconhecia que existia aquele partido. Com o Tino de Rans é para RIR mesmo. Agora, acredito no Livre. Nós precisamos de uma mudança muito grande no país", Francisco Almeida.

O comerciante de Almeirim, a quem Rui Tavares revelou que a avó foi a primeira mulher a fundar uma padaria na Arrifana, no tempo da guerra, diz ainda que "há muita coisa possível, mas que os homens não querem".

"A maralha que lá tem estado, detesto. Com o meu voto não ficam lá", acrescentou Francisco na banca do pão que, juntamente com a mulher, deixaram Rui Tavares sem jeito quando se falou nas "caralhotas", o pão típico de Almeirim.

E se estes comerciantes conheciam quer Rui Tavares, quer Tino de Rans, o mesmo não se pode dizer de Joana que, assim que o candidato do Livre parou frente à sua banca para falar com os jornalistas se apressou a dizer-lhe para que seguisse caminho.

"Já chega. Está ali teca teca teca. Parece um rádio. O homem não se cala, vá-se embora".

Campanha sem medo da covid-19

As horas passavam e o número de pessoas na feira aumentava. A juntar aos já habituais clientes da feira, as arruadas dos partidos e os jornalistas que os acompanhavam enchiam os corredores já de si apertados. 

Tino de Rans, o primeiro a começar a campanha, chegou cedo, de máscara posta mas que, por diversas vezes foi caindo enquanto falava (tendo mesmo a mulher de Vitorino, Maria do Céu, que o acompanhado, pedido que trocasse de máscara para que esta não continuasse a cair). O distanciamento social com os feirantes e os clientes da feira, pouco aconteceu. Entre apertos de mão, abraços e selfies, Tino de Rans mostrou-se despreocupado no contacto com a população, tendo corrido a feira de ponta a ponta.

Já Rui Tavares chegou à feira com duas máscaras - uma FPP2 por baixo da máscara de tecido do Livre - e foi tentando manter o distanciamento quando falava com os potenciais eleitores.

"Com os cuidados, com as duas máscaras, eu creio que há condições de segurança ainda. Cumprimos sempre com as normas da DGS no caso do Livre, cumprimos sempre com o distanciamento social, e aqui também. Estamos a falar com as pessoas e elas estão sempre protegidas", afirmou durante a arruda.

No entanto, cerca das 12:00, Rui Tavares comentava com a comitiva a "aglomeração na feira" e sugeria que se terminasse a arruada. E assim fez. Cerca de uma hora depois de ter começado a visita à Feira do Relógio o Livre desmobilizou. Estava cumprido o primeiro dia de campanha.

 

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