“A intolerância não pode ser utilizada para calar os outros, nem para intimidar”. A reação de Duarte Cordeiro ao ataque de ativistas (na íntegra)

26 set 2023, 15:21

"Há países que estão a recuar naquilo que é a sua ambição. O nosso país nunca o fez, nem durante a guerra", respondeu Duarte Cordeiro, quando regressou ao palco da CNN Portugal Summit depois de ser alvo de um ataque de ativistas

A entrevista mal tinha começado. "Os governos, e em particular o Governo do nosso país, têm de trabalhar - quando pensamos no tema das alterações climáticas - numa dupla dimensão. Por um lado, tendo em conta aquilo que é a evidência do impacto que as alterações climáticas têm, aquilo que os cientistas nos têm transmitido, os apelos do secretário-geral da ONU, temos que trabalhar no sentido da aceleração da transição energética para reduzir as nossas emissões, fazendo do nosso contributo, estando à altura daquilo que são os nossos compromissos..." Duarte Cordeiro já não chegou à segunda dimensão: a entrevista foi interrompida por ativistas climáticos que arremessaram balões com tinta verde ao ministro do Ambiente e da Ação Climática.

Minutos depois, o ministro voltou ao palco da CNN Portugal Summit, sem o casaco e gravata entretanto manchados de tinta, para retomar a entrevista com o jornalista Pedro Santos Guerreiro, que recomeçou a conversa pelo incidente que acabara de acontecer. Eis a transcrição, na íntegra, das respostas de Duarte Cordeiro sobre a manifestação:

Estamos de volta para o nosso debate, a nossa entrevista, que mudou radicalmente. Estávamos no primeiro minuto, talvez, eu tinha feito uma pergunta sobre o que pode um governo de um pequeno país fazer para abordar as alterações climáticas, quando fomos interrompidos por um ataque de manifestantes. O país todo pôde ver em direto. Antes de mais, peço-lhe uma reação ao facto de ter sido surpreendido por este ataque de ativistas.

Queria dar nota que acho que a intolerância nem nos faz nem faz as outras pessoas estarem mais despertas e atentas para os nossos argumentos, nem a intolerância pode ser, de alguma maneira, utilizada para calar os outros, nem muito menos intimidar quem, como eu, exerce funções públicas num Governo que tem como objetivo acelerar a transição energética, nem mesmo se fosse alguém que tivesse uma opinião diferente, completamente diferente da minha.

Portanto, a intolerância não é caminho para lado nenhum, e devemos rejeitar a intolerância e não nos devemos deixar intimidar. E esta é uma posição de princípio que qualquer membro de um governo deve ter perante estes ou qualquer outro manifestante que não tem, talvez, noção da forma intrusiva com que se manifesta e bloqueia, tenta bloquear aquilo que é a opinião dos outros.

Depois, dar nota que é preciso saber distinguir o manifestante que adota este tipo de comportamento dos outros manifestantes, dos jovens manifestantes que querem fazer [ouvir] a sua voz, porque querem pressionar os governos a acelerar a transição, querem pressionar as empresas a acelerar a transição, que estão preocupados com o seu futuro, que estão preocupados com o clima e com o planeta. Tenho um enorme respeito por toda essa geração de manifestantes e consigo distinguir plenamente todos os jovens que se fazem ouvir e que se querem fazer ouvir por uma geração que está preocupada com o seu futuro, de outros que também estão preocupados com o seu futuro, mas que depois adotam comportamentos que nós devemos rejeitar e devemos considerar inaceitáveis.

Chamei-lhe ataque porque foi fisicamente alvo de balões com tinta, o que tem um significado simbólico...

Pelo menos na cor acertaram, que é verde, que é uma cor que eu aprecio. [Sorriso]

Mas há uma questão importante que é o ativismo climático. Existe e assume, essencialmente, que tendo em conta o momento em que já estamos - o que aliás é legitimado pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que fala de colapso climático -, assume que é preciso radicalizar não só no discurso, mas também na ação, para precipitar e acelerar a velocidade das políticas públicas, uma vez que já estamos em contagem decrescente. É com isto que, essencialmente, esta geração mais ativista e que defende a justiça social e, portanto, tem uma ação mais radical, pretende confrontar o status quo.

Ainda na semana passada... apenas há duas semanas, houve um conjunto de manifestantes que se manifestou à entrada do Conselho de Ministros. A reação que o ministro do Ambiente teve relativamente a essa manifestação foi de compreensão com uma geração que quer fazer ouvir a sua voz e que quer que os governos acelerem aquilo que são as suas metas e quer procurar responder de forma mais objetiva, com passos concretos, àquilo que é a crise e a emergência que é identificada. Esta semana estivemos muitos de nós na Assembleia Geral das Nações Unidas, tive a oportunidade de acompanhar o Sr. Presidente da República numa cimeira de ambição climática, exatamente para os países se comprometerem com metas mais ambiciosas. O nosso país tem procurado corresponder, sabendo nós que em muitos aspetos estamos aquém de algumas dessas metas mais ambiciosas. O nosso país comprometeu-se, recentemente, quando apresentou o Plano Nacional de Energia e Clima: aumentámos a nossa ambição, acelerámos em quatro anos um objetivo que tínhamos, que era de atingir 80% da produção de eletricidade com fonte renovável no nosso país. E vamos atingi-la em 2026. Procurámos, com isso, também acelerar o objetivo de chegar a 2030 com cerca de 85% a 90% de eletricidade de fonte renovável. Queremos, com isso, antecipar a meta da neutralidade carbónica.

Fomos o primeiro país do mundo a assumir a neutralidade carbónica para 2050. Entretanto, aprovámos uma lei de bases do clima no nosso país, um dos poucos países do mundo que tem uma lei de bases do clima, que estabelece como meta [de descarbonização] 2045. Temos dado passos nesse sentido e o nosso país tem de estar sempre constantemente a rever, a avaliar, olhando para aquilo que são os principais poluidores, onde é que estão as principais emissões, como é que nós podemos trabalhar também ao nível do sumidouro de carbono, no sentido de melhorar os objetivos climáticos que temos. E nós não desistimos de melhorar e de estar constantemente a perceber como é que nós conseguimos aumentar essa ambição.

Percebo que está a responder naturalmente por si e pelo Governo português. Mas suponho que esta manifestação também o teve a si como símbolo. Não exatamente o seu nome, Duarte Cordeiro, mas aquilo que simboliza, isto é, o poder político. Reconhece que, em geral, globalmente, a decisão política está atrasada em relação às necessidades de descarbonização?

O Governo português tem sempre procurado acompanhar as posições da União Europeia e também tem vindo sempre a reconhecer aquilo que são os relatórios que as Nações Unidas têm produzido relativamente às alterações climáticas, à necessidade de determinadas metas e os impactos se nada for feito. E é por isso que nós temos aumentado a nossa ambição. De outra forma, não o tínhamos.

Há países que estão a recuar naquilo que é a sua ambição. O nosso país nunca o fez, nem durante a guerra. Nós não usámos a guerra como um subterfúgio para inverter decisões que tomámos, como por exemplo o encerramento das centrais a carvão. Nós assumimos o risco de manter essa decisão, sabendo o impacto que ela tinha do ponto de vista da redução das emissões, mesmo havendo um conjunto de pessoas que tinham dúvidas relativamente ao sistema e à segurança energética do nosso país, relativamente a um contexto em que nós tínhamos as centrais a carvão encerradas.

O país tem trabalhado no sentido dessa ambição. Reconheço que, quando nós vemos os relatórios das Nações Unidas, quando vemos os apelos do secretário-geral das Nações Unidas, que nós temos que fazer mais, temos de procurar fazer mais. O nosso governo tem procurado, dentro daquilo que é a sua possibilidade, corresponder a esse apelo de maior ambição. Ainda assim sabemos que estamos aquém de muitas das reivindicações que surgem na sociedade civil, especialmente com uma geração mais nova. Por isso é que nós, quando apresentamos os resultados que o país tem, as metas, a ambição que temos para o futuro, não o fazemos de uma forma triunfalista, pelo contrário. Fazemos sempre tendo presente aquilo que é o contexto atual das alterações climáticas - aliás o Pedro Santos Guerreiro começou a sua intervenção por aí -, tendo consciência que elas são parte do nosso presente, a seca, as ondas de calor, os riscos que isto traz para o nosso país e que nos obriga também a apostar já na adaptação independentemente da mitigação.

Mas também temos presente que, se o país não mantiver esta ambição, obviamente que passaremos a fazer parte de um conjunto de outros países que têm vindo a desistir e nós não podemos desistir destas metas e desta ambição. E é com esse espírito que nós participamos nas reuniões da Comissão Europeia, da União Europeia, relativamente à ideia de a Europa continuar a ser um espaço, nomeadamente num contexto internacional que tem mais exigência, que se tem preocupado em manter o tema das alterações climáticas na agenda política.

Mesmo que isto represente, como dizia há pouco, uma separação sobretudo geracional. Parece haver pelo menos uma falta de comunicação ou mesmo de compreensão entre uma geração mais nova, que assume o clima como nenhuma outra geração assumiu, e que não reconhece na geração mais velha a capacidade de transformação necessária, pelo contrário, até a culpabiliza por isso; e, inversamente, a geração que está no poder, uma geração naturalmente mais velha, que não se sente respeitada, sobretudo pelos ativistas que defendem a justiça climática.

Não me queixo de manifestantes, queixo-me de determinadas formas de manifestação. Não me queixo de quem vai para a rua a reivindicar pelo seu planeta e pelo seu futuro. Não tenho razão nenhuma. Pelo contrário, fazem parte de uma sociedade civil que tem puxado por uma maior ambição. Eu queixo-me de determinadas formas de manifestação que são intolerantes e que têm como objetivo procurar, através dessa intolerância, calar os outros. E acho que isto numa democracia não funciona. E quem faz isso, pelo contrário, contribui para que esta causa perca apoio social. E portanto, eu acho que estas formas de manifestação não resultam. Não têm o impacto que quem as produz espera que elas tenham. Pelo contrário, faz que haja menos pessoas a apoiar esta causa. E nós temos de ter um cuidado quando nós procuramos desenvolvimento das políticas públicas, nomeadamente do ambiente, que é não perder o apoio social.

O nosso país é um país em que nós olhamos para as sondagens, as pessoas reconhecem os fenómenos das alterações climáticas e apoiam globalmente a transição, apoiam as políticas ambientais. O nosso governo tem, penso que com algum consenso público, mesmo quando nós olhamos para as verbas do PRR, temos colocado uma parte muito significativa do investimento em políticas ambientais. Sabemos que temos muito para fazer. Em algumas matérias somos o país de referência. Somos o quarto país europeu com maior produção de energia elétrica de fonte renovável. No entanto, há muitas áreas em que nós estamos atrasados. Se olharmos para a mobilidade, nós continuamos a ter um perfil de mobilidade no nosso país com assento no transporte individual, combustíveis fósseis com um peso muito grande nas emissões. Se nós olharmos para a área dos resíduos, nós identificamos que há um enorme atraso no nosso país. Portanto, há áreas em que nós estamos atrasados, há áreas em que nós estamos obviamente adiantados.

E depois é importante ter em conta que - e eu queria dar nota disto - há uma discussão sobre se nós devemos afastar um conjunto de empresas que têm um perfil ou que tiveram um passado associado ou grandes empresas na área da energia, ou se nós as devemos envolver no processo da transição. Este governo acha que devemos envolver as empresas no processo da transição. E isto também nos distingue e nos afasta relativamente a isto. Nós queremos é que as empresas tenham a ambição de se descarbonizar o mais rapidamente possível. E acreditamos que é com essa ambição que nós conseguimos atingir resultados. Nós somos um país que precisamos do envolvimento de todos, da comunidade em geral. Precisamos de atitudes individuais, mas precisamos que a economia assume o seu papel. E foi por isso que esses manifestantes aqui estavam.

Por isso?

Porque queriam afastar determinadas empresas de energia, porque não acreditam, porque acham que o processo da descarbonização não basta, nós temos ambições, metas e políticas. Nós temos que também, neste caso em concreto, afastar determinados atores.

Está a referir-se a grandes companhias, não apenas em Portugal, que antes eram produtoras de energia poluente, combustíveis fósseis por exemplo, e que agora estão a fazer a transição para a produção de energia verde. E são essas companhias - essa é a grande crítica que é feita pelos ativistas - que estão a ser apoiadas, financiadas, subsidiadas, são as mesmas companhias. O que está a dizer é que elas devem ser integradas e não afastadas?

Nós não podemos ignorar que estas empresas têm, após esse trabalho, presença na nossa economia, que depois afeta a vida de todos. E que nós temos de fazer um processo de transição que envolva a comunidade, as empresas, de maneira a ter depois impactos sociais menores possível. O que nós criticamos é quando estas decisões são tomadas com impactos sociais que prejudicam depois, volto a referir, à aceitação social do processo da transição. Nós precisamos de envolver a nossa economia e, em vez de achar que nós vamos eliminar as empresas que temos e substituí-las por novas, sejam elas públicas ou privadas, nós temos é que fazer um processo de descarbonização que envolve estas empresas, que aproveite a capacidade instalada, que tenha menos pegada porque aproveita a capacidade instalada, temos é que o fazer de forma mais rápida. E temos de incentivar estas empresas a fazer um processo de descarbonização mais acelerado.

Depois do que aconteceu aqui hoje, no princípio desta conferência, vai alterar as suas presenças públicas?

Não, de forma alguma.

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