Portugal paga muito mais para se financiar. E custo médio da dívida vai mesmo agravar-se

14 set, 17:04
O ministro das Finanças, Fernando Medina, durante uma audição da Comissão de Assuntos Europeus na AR (Mário Cruz/ LUSA)

Custo médio da dívida Portuguesa, que estava no final do ano passado nos 1,9%, vai subir no futuro. Emissões feitas em 2022 já têm taxa média de 1,2%, o dobro da taxa de juro do ano passado.

Portugal voltou esta quarta-feira ao mercado para emitir dívida pública e pagou bastante mais para se financiar. Em duas operações, uma a quatro e outra a 10 anos, o Tesouro português financiou-se em 1.250 milhões de euros, mas os custos desse financiamento subiram significativamente.

Na emissão a 10 anos, Portugal obteve 780 milhões de euros e pagou uma taxa de 2,754%. A quatro anos obteve 470 milhões de euros e pagou 1,777%.

“Assistimos a uma subida das yields em ambas as maturidades”, sublinha Filipe Silva, diretor de investimentos do Banco Carregosa, lembrando que a procura pela dívida portuguesa se manteve “dentro dos valores médios que estas emissões costumam ter”.

A subida das taxas de juro está ligada ao movimento de subida de juros encetado pelo Banco Central Europeu (BCE) numa tentativa de controlar a taxa de inflação. Mas este efeito “tem levado a um rápido ajuste nas yields de todas as maturidades das dívidas soberanas”, aponta o mesmo especialista.

Filipe Silva lembra, a título comparativo, que “Portugal em maio tinha emitido dívida a oito anos com uma yield de 1,767% e hoje para um prazo inferior, quatro anos, a yield foi de 1,777% e superior”.

E na última emissão a 10 anos comparável com a de hoje, realizada em novembro do ano passado, Portugal pagou um juro de apenas 0,314%.

Este caminho de subida não deverá parar tão cedo, explica Filipe Silva: “Sabemos que os bancos centrais vão estar a tomar decisões reunião a reunião e com base nos dados que forem sendo divulgados. É certo que iremos continuar a ter volatilidade, pelo menos até à rubrica da inflação estabilizar.”

O que quer dizer que para os emitentes, como Portugal, “iremos ter custos de refinanciamento mais elevados.”

Os números do IGCP, a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, mostram que no final do ano passado a totalidade da dívida pública portuguesa tinha uma taxa de juro média de apenas 1,9% e que a dívida emitida no ano passado tinha uma taxa de apenas 0,6%.

Mas na mesma apresentação do IGCP também é possível verificar que este ano a média da dívida emitida por Portugal já apresenta uma taxa de juro média de 1,2%.

E esta tendência de subida irá manter-se. “As novas emissões deverão ter uma taxa superior”, antecipa Filipe Silva. A consequência é imediata: “irá agravar o custo médio do serviço da dívida nacional”.

Nas últimas semanas duas agências de rating melhoraram a classificação de Portugal. A DBRS reviu em alta o rating para ‘A’ e a Standard & Poor’s decidiu subir a notação de Portugal para BBB+.

Mas nem estas boas notícias conseguirão travar uma tendência que parece inevitável. “As taxas das dívidas soberanas têm vindo a subir globalmente, devido a uma inflação elevada que tem feito com que os bancos centrais subam taxas mais rápido do que o que se esperava. Portugal irá estar sempre dependente deste movimento global.”

No final da linha destes movimentos está o que o Estado Português paga em juros todos os anos. E a consequência já se está a fazer sentir. A poupança que Portugal tem conseguido com esta rubrica desde 2014 vai acabar já em 2023, como noticiou o “Público”.

No Quadro de Políticas Invariantes enviado pelo Governo para a Assembleia da República, o ministro das Finanças, Fernando Medina, vai aumentar 591 milhões de euros, o que colocará esta rubrica da despesa nos 5.591 milhões de euros.

E havendo mais despesa com juros, e não se prevendo um agravamento do défice, sobra menos dinheiro para aumentar outras despesas ou diminuir impostos.

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