Os ecrãs podem dificultar a regulação emocional dos seus filhos. Mas há alternativas

CNN , Madeline Holcombe
31 dez 2022, 18:00
Crianças usam ecrãs cada vez mais cedo

Um estudo que não diz que não se deve nunca distrair uma criança com tecnologia, mas sim que é preciso manter em prática as ferramentas que encorajam a regulação emocional

É tarde, está agora a cozinhar o jantar, o seu telefone está a tocar e o seu filho começa a fazer uma birra. Um pouco de tempo de ecrã funciona quase sempre para o acalmar. Por mais tentador que seja entregar-lhes um smartphone ou ligar a televisão como resposta padrão, acalmar as crianças com dispositivos digitais pode, a longo prazo, levar a mais problemas relacionados com a reatividade emocional, demonstrou um novo estudo. 

“Mesmo aumentando ligeiramente a reatividade emocional de uma criança, isso só significa que é mais provável que, quando uma dessas frustrações diárias surge, se tenha uma reação pior”, afirma a autora principal do estudo, Jenny Radesky, pediatra de desenvolvimento comportamental. 

Os investigadores analisaram 422 respostas de pais e cuidadores para avaliar a probabilidade de utilizarem dispositivos como forma de distração, bem como a desregulação do comportamento da sua criança de 3 a 5 anos durante um período de seis meses. O estudo foi publicado na revista científica JAMA Pediatrics

O estudo concluiu que a utilização frequente de dispositivos digitais para os distrair de comportamentos desagradáveis e perturbadores como as birras estava associada a uma maior desregulação emocional nas crianças - particularmente rapazes e crianças que já se debatiam com a regulação emocional.

“Quando vê a sua criança de 3 a 5 anos a ter um momento emocional difícil, estejam eles a gritar ou a chorar por algum motivo, a ficarem frustrados, podem estar a bater ou a dar pontapés ou a deitar-se no chão... se a sua estratégia é distraí-los ou fazê-los calar recorrendo aos dispositivos digitais, este estudo sugere que não os está a ajudar a longo prazo”, diz Radesky, professor associado de Ciências Comportamentais na Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan. 

Há dois problemas com a distração através dos dispositivos digitais: está a perder uma oportunidade para ensinar a criança a responder a emoções difíceis e pode estar a reforçar a ideia de que grandes demonstrações das suas emoções difíceis são formas eficazes de conseguir o que quer, explica Radesky.

“Vou simplesmente mostrar que estou com muitas emoções para que possamos parar o que estamos a fazer e eu possa escapar a esta exigência”, sublinha. 

O estudo vai ao encontro das atuais recomendações da Academia Americana de Pediatria, da Academia Americana de Psiquiatria Infantil e Adolescente e da Organização Mundial de Saúde, segundo as quais as crianças de 2 a 5 anos devem ter um tempo de ecrã muito limitado, afirma Joyce Harrison, professora associada de Psiquiatria e Ciências Comportamentais na Escola de Medicina Johns Hopkins, em Baltimore. Harrison, que não esteve envolvida no estudo, refere que embora houvesse limitações à diversidade dos participantes, a análise foi bem concebida e tem o apoio da investigação já existente. 

O que deve fazer em resposta às birras

Em vez de distrair a criança, Radesky recomenda que as birras e a desregulação emocional sejam encaradas como oportunidades para ensinar os menores a identificar e a responder às emoções de forma útil.  

“Não há substituto para a interação, os exemplos e ensinamentos dos adultos”, afirma Harrison. 

Em vez de punir as suas expressões de frustração, raiva ou tristeza com uma pausa, Radesky afirma que criar um lugar confortável para as crianças lidarem com os seus sentimentos pode ser uma boa ideia - talvez um cantinho com almofadas ou cobertores, ou uma tenda. 

A mensagem que se passa deve ser: “Não te estás a portar mal por teres fortes emoções, só precisas de um momento para te reajustares. Todos nós precisamos de nos reajustar às vezes.”

Pode ser útil para os prestadores de cuidados ajudar as crianças a dar nomes às suas emoções e oferecer soluções quando estão a responder inadequadamente a esses sentimentos, vinca a investigadora. Isso pode querer dizer que aprendemos a identificar que a ação de bater e chorar significa que a criança sente falta da mãe e, numa situação desse tipo, podemos tentar oferecer-lhe um abraço e ir buscar uma fotografia dela.

Mas, por vezes, falar de emoções é demasiado abstrato para crianças em idade pré-escolar e, nesses casos, Radesky recomenda o uso de zonas de cor para falar de emoções. 

Os sentimentos de calma e alegria podem estar associados ao verde; a preocupação e agitação pode ser amarelo; e o estar chateado ou zangado pode ser vermelho, usando gráficos ou imagens de rostos para ajudar as crianças a combinar o que estão a sentir com a zona de cor em que estão. Para reforçar isto, os adultos podem falar sobre as suas próprias emoções em termos de cores à frente dos seus filhos, afirma Radesky.

Pode, juntamente com os seus filhos, percorrer as cores e escrever quais as ferramentas que podem usar para se acalmar consoante as diferentes cores em que se encontram, acrescenta. 

Outros conselhos para os pais

Esses momentos de aprendizagem exigem muito trabalho, mas não tenha receio - não é preciso fazê-lo sempre na perfeição, diz Radesky. Haverá alturas em que vai ter as reservas emocionais para lidar com esses sentimentos com o seu filho, no entanto haverá outras em que poderá ter apenas a energia para oferecer um abraço ou esperar que o seu comportamento passe. 

“O primeiro passo é apenas os pais terem o cuidado de reparar que estão prestes a libertar as suas próprias emoções face à demonstração de emoção dos seus filhos”, diz Radesky. “Posso tentar manter a calma para lhes mostrar que as suas emoções não são assustadoras.” 

O mais importante é que a criança perceba que os adultos que estão presentes nas suas vidas estão a tentar compreender o que é que ela está a sentir, de onde vem esse sentimento e como podem ajudar.

Por vezes, assistir a algo nos ecrãs pode ser uma resposta, mas é importante ser seletivo. Se estiver a fazer uma longa viagem de carro ou estiver com uma série de tarefas em mão e precisa de manter o seu filho calmo, mantê-lo ocupado com dispositivos digitais pode ser prático, afirma Radesky.  E pode haver conteúdos digitais que ajudem a ensinar a praticar regulação emocional quando todas as outras opções se esgotaram. Encontrar conteúdos digitais que estejam direcionados para comunicar com as crianças diretamente sobre as suas emoções – como o Daniel Tigre e o Elmo Belly Breathing – pode ser como uma meditação em vez de uma distração, refere Radesky. 

Educar crianças é uma tarefa complexa e por vezes avassaladora e nenhum cuidador será capaz de dar aos seus filhos tudo o que eles querem a toda a hora, explica a investigadora. 

Este estudo não diz que não se deve nunca distrair uma criança com tecnologia, mas sim que é preciso manter em prática as ferramentas que encorajam a regulação emocional, destaca Radesky.

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