As birras na hora da refeição e o clássico "não gosto". As crianças podem comer nuggets todas as noites? Quando é que os pais se devem preocupar?

CNN , Chloe Melas
17 mai, 10:00
As birras na hora da refeição (Chloe Melas)

Cerca de 50% das crianças não quer comer legumes nem experimentar novos alimentos, de acordo com o Centro Nacional de Informação em Biotecnologia

"Quem quer esparguete?", pergunto aos meus filhos enquanto espreito a despensa. "Eu!", gritam os meus dois filhos, de 2 e 4 anos, em uníssono.

Espero que a água ferva, coloco a massa, mas não ponho nenhum molho porque os meus filhos preferem-na com manteiga.

Pergunto aos rapazes de que cor querem os pratos. Como sempre, o meu filho de 4 anos grita: "Quero verde!", enquanto o meu filho de 2 anos estica as mãos para o outro com excitação: "Azul, azul, mamã!".

Ponho os pratos à frente deles, com alguns morangos fatiados e um pouco de sumo de maçã diluído nos copos, e sirvo-me um copo de vinho.

Sinto-me realizada, mas 15 minutos depois esse sentimento dissipa-se. Os meus filhos não tocaram em nada nos pratos, à exceção de alguns morangos.

"Não gosto!", reclama o mais novo. Sem olhar para cima, o meu filho de 4 anos diz: "Quero um gelado."

“Aqui vamos nós outra vez”, penso para mim própria. Os próximos 30 minutos consistem em suborná-los para comer apenas mais algumas colheradas em troca de algo doce.

Acabo por dar as minhas refeições caseiras à nossa cadela, Franky. É o membro cá de casa que melhor come.

Aparentemente, o meu drama da hora das refeições está longe de ser único.  A esquisitice para comer é comum entre crianças pequenas. Cerca de 50% não quer comer legumes nem experimentar novos alimentos, de acordo com o Centro Nacional de Informação em Biotecnologia.

As refeições das crianças devem ser coloridas e os pais devem torná-las divertidas, dizem os especialistas.

Preparar uma refeição para os meus filhos é meio caminho andado, quer a comam ou não, disse a psicóloga Alli Delozier numa entrevista recente.

"Acabe com a pressão de comer à mesa", diz Delozier. "Ao colocar os alimentos nos pratos ou na mesa, já está a fazer um excelente trabalho como progenitor porque está a expô-los a esses alimentos. Eles veem-nos, cheiram-nos, podem tocar neles e prová-los. E cada vez que são expostos a eles, estão um passo mais perto de aprender a gostar desses alimentos."

Vários pais do meu círculo de amigos disseram-me para ver uma conta de Instagram chamada "Kids Eat in Color".

A nutricionista Jennifer Anderson criou a página que conta com mais de um milhão de seguidores que procuram o que diz ser "informação baseada em evidências e estratégias para a alimentação e nutrição de crianças".

"Esta é a idade em que o maior poder dos seus filhos é dizer ‘não’ e ter opiniões", diz Anderson. "Portanto, isto é totalmente normal. Não estão a fazer nada de errado."

E quanto à minha ansiedade quando os meus filhos não comem? Anderson diz que isso também é normal.

"O que acontece é que quando as crianças dizem ‘não’, muitas vezes, como pais, ficamos muito preocupados, e pensamos: ‘Meu Deus, eles não vão comer. Não vão crescer. Vão ficar doentes’, e então, com medo disso, fazemos uma série de coisas", diz Anderson.

"Colocamos um ecrã à frente deles para que comam melhor. Fazemos-lhes o que querem para comer. Dizemos: 'Podes demorar o dia todo para comer. Vou seguir-te pela casa com esta colher’”, acrescenta.

“Todos nós já o fizemos, andámos atrás da criança a dizer: ‘Só uma colher’. Começamos a dizer coisas como: ‘Come uma colher ou tiro-te o iPad. Come três colheres para poderes sair da mesa’. E começamos a exigir estas coisas a uma criança cujo maior poder é dizer: ‘Dizes-me para fazer o quê? Nem pensar’. E assim, começamos a cair nesses hábitos que acabam por jogar contra nós a longo prazo. "

Os meus filhos querem nuggets de frango todas as noites. Isso é aceitável?

De acordo com as duas especialistas, é. Dê aos seus filhos o que eles quiserem comer.

"Devemos sempre servir uma comida com a qual uma criança se sinta confortável", diz Anderson.

 

"Se sabe que eles geralmente gostam de macarrão com queijo, ou geralmente gostam de manteiga de amendoim e geleia, ou gostam de maçãs e morangos, devemos ter sempre à mesa algo de que eles geralmente gostam, mas também temos de respeitar o seu tipo de autonomia corporal.”

Eles não têm de comer se não quiserem, e nós respeitamos isso. Estamos, na verdade, a estabelecer as bases, desde muito cedo, para que eles decidam que podem escolher o que está a acontecer ao seu corpo, e isso tem efeitos de longo alcance em muitas outras coisas.

Dê a conhecer novos alimentos ao seu filho, colocando algumas outras opções na mesa

E faça com que pareça divertido! A refeição do seu filho deve ser colorida!

"Todas as cores diferentes prendem-se a químicos nos alimentos que estão a fazer coisas específicas no nosso corpo", diz Anderson.

"Quando pensamos: 'Estou a servir uma grande variedade de cores ao meu filho', sei que ele está a receber nutrientes, sem ficar obcecada com coisas específicas. Está a receber vitamina C suficiente? Cálcio? Recebe magnésio suficiente? Portanto, se comerem diversas cores quando são crianças ou, pelo menos, se estiverem expostos a isso, é mais provável que tenham uma dieta mais variada posteriormente."

E a introdução de novos alimentos? Sim, é uma boa ideia, dizem as especialistas. Deve à mesma expor os seus filhos a novos alimentos, colocando algumas outras opções na mesa.

"Temos de lhes pôr tudo no prato?” “Não”, diz Anderson. "Se tiverem um filho que diz: 'Eu não gosto de ervilhas', gosto de lhes colocar o que chamo de microporção no prato.  Pode ser só uma ervilha. Não é assustador, mas estão a ter essa exposição à mesma."

"E diga algo como: 'Estes são os alimentos disponíveis na refeição. Podes escolher o que comer daquilo que está aqui."

E doces? Delozier diz que podemos dar doces, mas não como recompensa para os prender.

"É tão fácil dizer: 'Bem, se acabares o feijão verde, podes comer gelado.’ Todos já caímos nessa armadilha, mas deixá-los ter o que querem sem colocar essa coisa num pedestal e torná-la uma recompensa alimentar pode ser útil.  Depois, cabe a si decidir quantas vezes é certo para a sua família, seja isso comer sobremesa todas as noites ou comer um gelado depois das aulas ou só uma vez por semana. Isso só depende de si."

Algumas coisas que deve ou não deve fazer, segundo o “Kids Eat in Color”:

  • Não faça outra comida;
  • Não leve a peito;
  •  Deixe-os ficar cheios com outras partes da refeição;
  • Não celebre quando terminarem o que têm no prato;
  • Sirva os alimentos de forma formal e consistente. Sentem-se à hora das refeições e do lanche;
  • Não force, nem suborne, os seus filhos a comer determinado alimento.

Costumo deixar os meus filhos entreterem-se com brinquedos ou verem o seu iPad durante a refeição, mas ambas as especialistas disseram que eu devia parar.

"Tentamos realmente torná-lo um ambiente calmo onde comer, onde eles podem focar-se na comida e na ligação com os membros da família", diz Delozier.

"Não queremos ter ecrãs à mesa. Não queremos ter brinquedos e coisas assim. E isso é algo que pode levar algum tempo a conseguir mudar."

Quando deve preocupar-se?

Mas há situações que vão para além de ser esquisito na comida. Quando é que deve procurar ajuda profissional?

"Quando se tem um filho que não está a seguir a curva de crescimento, com quem o seu pediatra está preocupado por não estar a engordar, especialmente se estiver a perder peso. Essas são, sem dúvida, razões para ficar preocupado", diz Delozier.

Na última semana, parei com os subornos e experimentei as microporções. Notei um aumento gradual na quantidade de comida que os meus filhos ingerem. Derradeiramente, o que aprendi é que não há um caminho linear para a hora da refeição.

"Como psicóloga e como mãe, posso dizer que muitas das nossas crenças sobre o que as crianças devem comer e como devemos alimentar os nossos filhos baseiam-se nas nossas próprias crenças sobre a alimentação e como nos alimentamos", diz Delozier.

"Tire os alimentos de um pedestal e torne-os mais neutros. Então, os seus filhos serão mais propensos a estar em sintonia com os seus sinais de fome e comer com base nisso, bem como a fazer escolhas que são consistentes com os valores da sua família."

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