Portugal condena lançamento de míssil que caiu na zona económica exclusiva do Japão

23 nov, 02:27
Imagem divulgada pelas autoridades norte-coreanas do lançamento de um míssil entre setembro e outubro de 2022

Lisboa tem primado pelo silêncio face às tensões na Ásia-Pacífico. Esta noite, condenou a Coreia do Norte por ter lançado projétil que caiu nas águas soberanas do Japão. Isto é notícia, pois Lisboa não o fez quando aconteceu o mesmo com cinco mísseis chineses

O Ministério dos Negócios Estrangeiros condenou esta noite o último lançamento de um míssil por parte da Coreia do Norte - no caso, um míssil balístico intercontinental que acabou por cair no Mar do Japão, dentro das águas territoriais nipónicas.

"Portugal condena veementemente o lançamento pela RPDC [República Popular Democrática da Coreia, nome oficial da Coreia do Norte] de um míssil balístico intercontinental que caiu na ZEE [Zona Económica Exclusiva] do Japão. Expressamos nossa total solidariedade com o Japão e a República da Coreia [do Sul]", lê-se na publicação feita através da conta oficial do MNE na rede social Twitter. A tomada de posição de Lisboa acompanha um comunicado do Conselho da União Europeia, emitido três dias antes, condenando as atitudes provocatórias do regime de Pyongyang e mostrando solidariedade com Tóquio e com Seul.

Apesar do atraso com que é assumida a posição do Governo de Portugal (o disparo a que se refere aconteceu na sexta-feira passada, e motivou nas horas seguintes reações de condenação por partes dos principais aliados do Japão, incluindo a União Europeia), é relevante que o MNE tenha condenado o lançamentos de mísseis e afirmado o seu alinhamento com o Japão e a Coreia do Sul, as duas democracias mais importantes daquela região do mundo, que se têm aproximado cada vez mais das democracias europeias (foram até convidadas a estar presentes na última cimeira da NATO, em Madrid).

Portugal tem primado pela discrição em relação à instabilidade na Ásia-Pacífico, limitando-se a subscrever as posições conjuntas da União Europeia, que tem condenado a escalada armamentista da Coreia do norte, mas também a atitude crescentemente belicista por parte da China, como foi notório em agosto, durante a crise do Estreito de Taiwan.

Nessa altura, quando a tensão entre a China e os EUA atingiu o seu ponto máximo, após a vista de Nancy Pelosi a Taipé, foi muito notório o silêncio de Lisboa, quando muitos países da UE e da NATO condenavam os exercícios militares sem precedentes levados a cabo por Pequim em torno de Taiwan. O MNE manteve-se mudo mesmo quando o jornal Observador lhe colocou uma série de questões sobre o posicionamento de Portugal face a essa crise, que dominou as atenções do mundo e fez temer um conflito direto entre as forças chinesas e taiwanesas, tendo estas o apoio declarado dos EUA e dos seus aliados.

Recorde-se que, durante as semanas de cerco chinês a Taiwan com exercícios de fogo real, a China lançou mísseis sobre a ilha, e cinco desses mísseis caíram dentro da Zona Económica Exclusiva do Japão, o que provocou protestos veementes da parte de Tóquio. Agora, a diplomacia portuguesa condena à Coreia do Norte aquilo que não condenou à China em agosto: o lançamento de mísseis que atingem a ZEE de um país aliado de Portugal.

Santos Silva: dar prioridade aos aliados

Na semana passada, Augusto Santos Silva, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros português - e atual Presidente da Assembleia da República -, esteve em Tóquio e sublinhou, em entrevista à CNN Portugal, a importância de defender e valorizar os países aliados. E também de dar prioridade aos aliados e aos países democráticos nas relações económicas.

Questionado pela CNN Portugal sobre se o nosso país deve tratar da mesma forma, do ponto de vista da economia e investimento, a China, os Estados Unidos e o Japão (que são as três maiores economias do mundo), Santos Silva respondeu “certamente que não". E defendeu a prioridade aos aliados, em detrimento dos países cujos regimes e posicionamento geopolítico se opõem às democracias liberais de tipo ocidental.

"Nós temos uma aliança de muitos séculos com os EUA, temos uma parceria muito forte com o Japão, e se há lição que os últimos tempos nos deram é que é impossível separar completamente as questões do relacionamento económico das questões geopolíticas”, defendeu Santos Silva.

Portugal tem diversas empresas estratégicas em mãos chinesas - na maioria dois casos, devido a privatizações feitas durante o resgate financeiro da troika - e esse facto é muitas vezes apontado como a razão por que Lisboa é extremamente cuidadosa nas tomadas de posição que possam beliscar Pequim.

Na opinião do anterior chefe da diplomacia portuguesa, “nós temos no Japão um aliado, e vivemos um tempo em que os aliados são preciosos. Portanto, a nossa parceria económica com o Japão vai de par com a nossa aliança com o Japão. Quem diz o Japão, diz a República da Coreia, a Austrália ou a Nova Zelândia e outros países da região da Ásia-Pacífico”.

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