opinião
Jornalista,editor de Sociedade

Formal, cinzento e queixinhas: assim vai o Jornalismo do regime

29 jan, 14:09

Quando a Comunicação Social, alguma, se presta a discursos de autocensura para diabolizar a única coisa que lhe competia fazer, informar, deixa a nu a velha máxima segundo a qual somos os maiores inimigos de nós próprios. E somos, invariavelmente pelos sentimentos mais mesquinhos, de inveja; ou de interesses pouco dignificantes, de estratégia de negócio. Vem isto a propósito da operação judicial na Madeira, que a CNN Portugal noticiou primeiro - “meu Deus, porque eles souberam e nós não!” -, para salientar o que é feio, é falso, é desleal, e não serve a mais nobre missão do jornalismo. E, o que mais chateia, são discursos profundamente desonestos e carregados de hipocrisia: quem policia, denuncia, e ateia fogueiras em jeito de comentário pelo facto de os outros darem notícias, fá-lo apenas e só quando não são eles a noticiar. O que é sintomático. E nem o ar enfático, o tom grave ou o fato e gravata disfarçam o ressentimento que lhes vai na alma.

O que é que têm em comum o início da operação Influencer que fez cair o Governo, às 8 da manhã; as imagens da célebre chegada de Sócrates ao aeroporto, para ser detido; a chegada de um juiz ao Parlamento para prender Paulo Pedroso; ou as buscas do caso Portucale? Todas operações com fugas de informação para o mesmo lado, sem que os outros jornalistas, queixinhas, perdessem 1 minuto com o mensageiro, mas indo, como lhes compete, atrás do que interessa – as notícias.

Aqui tudo começa, naturalmente, por uma mentira, que serviu de pasto para o rasgar das vestes contra as tenebrosas fugas de informação de que eles não vivem, nunca – só os outros: “Megaoperação judiciária alugou frota automóvel e trouxe ‘batalhão’ de jornalistas à Madeira”. Era este o título do Diário de Notícias da Madeira, esse órgão independente do regime local, que outros decidiram amplificar em comentários, mesmo sabendo que era falso. Por “batalhão” sugeria-se uma comitiva convidada, em aviões fretados…. e, “meu deus, porque nós não fomos convidados”. 

Acontece que, além de não haver batalhão nenhum, mas dois ou três repórteres mais competentes, no caso da CNN tiveram azar na narrativa: sendo a Madeira parte do país como outra região qualquer, tínhamos uma equipa no Funchal, uma semana antes, a preparar uma grande reportagem sobre um flagelo de consumo de drogas sintéticas que preocupa a região, e o país, e que será emitida nos próximos dias. Um dossier completo, e repleto de dados e testemunhos impressionantes, a cargo dos repórteres Daniela Rodrigues e Daniel Driga. Denunciar-se a presença de jornalistas da concorrência na Madeira, por outra razão qualquer, como se estivessem no estrangeiro, é próprio de um elitismo condenável de quem acha que o país é Lisboa.

A propósito de mentiras, já aqui há uns meses tinham feito por amplificar outra, alimentando o mito de que a CNN tinha chegado a casa de Rui Rio às 7 da manhã, antes de o ex-presidente do PSD ser alvo de buscas. Quando é mentira, a CNN chegou às 10h quando já as buscas tinham começado horas antes. E a pergunta é: a quem aproveita esta desonestidade? Ao jornalismo, que está doente também por isto, não será seguramente.  

O verdadeiro jornalismo pugna, sempre, pela liberdade de imprensa e pelo interesse público seja em que frente for. É de todos, ao serviço de uma sociedade que se quer informada - não tem mais ou menos mérito em função de quem noticia; não se compadece com queixinhas nem com a hipocrisia de quem julga que só é legitima, com interesse público e acima de qualquer discussão, a fuga de informação que os favorece a eles. Parem com isso.

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