Não há vacina e é a infeção sexualmente transmissível “mais comum”. Investigadores querem rastreio à clamídia

Agência Lusa , DCT
1 set, 10:35
Inovações made in Portugal e avanços mundiais

No estudo é concluído que os próprios serviços de saúde não estão sensibilizados para este problema, recorrendo a métodos convencionais (as culturas), com tempo de espera e “baixa sensibilidade”, o que pode resultar em muitos falsos negativos, subdiagnóstico e falta de tratamento.

Um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) defendeu hoje a criação de um programa de rastreio da clamídia, uma das infeções sexualmente transmissíveis “mais comum” e para a qual não existe vacina.

Nas vésperas do Dia Mundial Saúde Sexual, que se assinala no domingo, o professor da FMUP e investigador do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS) Nuno Vale alerta que, embora a clamídia seja uma infeção comum, não revela sintomas em cerca de 80% dos casos, o que aumenta o risco de transmissão.

“Em Portugal, ainda não existe um programa de rastreio, ao contrário do que acontece noutros países”, apontou Nuno Vale, que lidera o grupo de investigadores que levou a cabo o estudo “Chlamydia trachomatis as a Current Health Problem: Challenges and Opportunities”(em português “Clamídia, um problema de saúde atual: desafios e oportunidades”), publicado na revista científica Diagnostics.

No estudo é concluído que os próprios serviços de saúde não estão sensibilizados para este problema, recorrendo a métodos convencionais (as culturas), com tempo de espera e “baixa sensibilidade”, o que pode resultar em muitos falsos negativos, subdiagnóstico e falta de tratamento.

Em causa pode estar “um problema de saúde pública”, consideram os investigadores. A clamídia, uma infeção provocada pela bactéria 'Chlamydia trachomatis', é curada com antibióticos.

De acordo com dados enviados à agência Lusa pela FMUP, quando não tratada, esta infeção pode resultar em graves sequelas nos órgãos reprodutores, incluindo, nas mulheres, nomeadamente dor crónica, doença pélvica inflamatória e infertilidade. A doença está também associada a tumores ginecológicos (cancro do colo do útero) e à transmissão da grávida para o bebé. Já no homem, acrescenta a FMUP, as consequências mais graves incluem doenças da próstata e também infertilidade.

“Na ausência de uma vacina, a solução deve passar pelo rastreio de mulheres e homens sexualmente ativos e assintomáticos. Em vez do método tradicional de cultura, que é complexo e pode demorar vários dias, as tecnologias de amplificação do ácido nucleico são mais rápidas e mais sensíveis, detetando a bactéria em cerca de 98% dos casos”, sublinha Nuno Vale.

Ainda de acordo com a informação disponibilizada à Lusa, nos últimos anos, vários países implementaram programas nacionais de rastreio de infeções por clamídia em mulheres até aos 25 anos.

Entre os países que recentemente avançaram com esta medida estão Inglaterra, Austrália, Países Baixos e Suécia.

Além de criar um programa nacional de rastreio, o grupo de investigadores aponta para a necessidade de estudar a prevalência e incidência da infeção por clamídia em Portugal, bem como de desenvolver campanhas de prevenção e sensibilização sobre os fatores de risco.

Em 2020, a Organização Mundial de Saúde estimou que tenham ocorrido 129 milhões de novas infeções.

Além de Nuno Vale, é autora neste estudo Rafaela Rodrigues, ambos da FMUP e CINTESIS, bem como Carlos Sousa, da Unilabs.

A realização deste trabalho foi apoiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, através do COMPETE 2020.

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