Zelensky quer fazer "história" na Suíça mas todas as atenções se viraram para o "pára já" de Putin

15 jun, 23:47

Mais de 100 países e organizações de todo o mundo fizeram-se representar na cimeira pela paz na Ucrânia, que decorre na Suíça, para debater a fórmula proposta há dois anos por Volodymyr Zelensky. Vladimir Putin não foi convidado, mas acabou por roubar as atenções apresentado uma proposta de cessar-fogo na véspera

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, abriu as hostes na cimeira de paz pela Ucrânia, que está a decorrer na Suíça, preconizando que ali seria feita “história”. Mas o dia ficou marcado pelas reações dos líderes à proposta de cessar-fogo apresentada por Vladimir Putin, que não foi convidado para o encontro internacional.

“Acredito que vamos testemunhar a história a ser feita aqui na cimeira”, declarou, perante os representantes de mais de 100 países e organizações mundiais, incluindo Portugal, que está representado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e pelo ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.

De fora ficaram a Rússia e a China - que os líderes acreditam ter sido pressionada por Moscovo a não comparecer na cimeira. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, cancelou à última hora a participação na cimeira, alegando que o evento “não é um fórum livre para discutir formas de paz” entre Moscovo e Kiev e que, por isso, só irá prolongar o conflito.

O objetivo de Zelensky com esta cimeira - organizada pela tradicionalmente neutra Suíça, a pedido do próprio presidente ucraniano - é precisamente iniciar um caminho para a paz, tendo por base o plano de paz ucraniano apresentado há dois anos pela Ucrânia (e prontamente rejeitado por Putin) e outras propostas de paz baseadas na Carta das Nações Unidas e nos princípios fundamentais do direito internacional.

O que Zelensky não estava a contar é que o primeiro dia da cimeira ficasse marcado pelas reações dos líderes mundiais à proposta de cessar-fogo apresentada pelo presidente russo, Vladimir Putin, precisamente na véspera do evento. Na sexta-feira, Putin prometeu ordenar um cessar-fogo imediato na Ucrânia e iniciar negociações para a paz com a condição de Volodymyr Zelensky começar a retirar as tropas das regiões de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporizhzhia, anexadas por Moscovo em 2022, e renunciasse aos planos de adesão à NATO.

Da Ucrânia a Itália: todos recusaram o "ultimato" de Putin

O presidente ucraniano rejeitou a proposta de imediato, ainda antes de viajar para a Suíça, descrevendo-a como “um ultimato” que não pode ser levado a sério. Os EUA também não demoraram a reagir, com a porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca a descrever a proposta como inaceitável, assinalando que viola “os princípios de soberania e integridade territorial da Carta das Nações Unidas”.

"Agora [Putin] diz que o preço da paz é permitir que a Rússia ocupe ainda mais território ucraniano. Não há nenhum país no mundo que possa dizer seriamente que isto é aceitável ao abrigo da Carta da ONU, do direito internacional, da moralidade básica ou do bom senso", argumentou Adrienne Watson.

Já na Suíça, o chanceler alemão, Olaf Scholz, criticou a proposta de cessar-fogo apresentada por Putin, assumindo que “o que ele está a propor é, em última análise, documentar o seu ataque imperialista”. “O que precisamos não é de uma paz ditatorial, mas de uma paz justa e equitativa”, defendeu.

Também a primeira-ministra italiana se manifestou contra a proposta de Putin, afirmando que o que está em causa é que a mesma sugere “uma negociação de paz se a Ucrânia reconhecer a invasão de si própria e desistir de partes de regiões que estão agora sob seu controlo”. 

“Digamos que não me parece particularmente eficaz, como proposta de negociação, dizer à Ucrânia que tem de se retirar da Ucrânia”, ironizou a primeira-ministra italiana.

Além das reações ao plano de Putin, os aliados da Ucrânia não foram mais além do que reiterar aquilo que já têm vindo a defender nos últimos dois anos, escudando-se nos princípios da Carta das Nações Unidas, como fez a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que considerou vital que a comunidade internacional “reafirme o primado” desse tratado, assinado em 1945.

“Será correto que um país maior possa invadir e tomar o território de um vizinho mais pequeno? A resposta é, obviamente, não. Está escrito na Carta das Nações Unidas. E é por isso que é vital que reafirmemos essa Carta. É vital que nos comprometamos de novo a defender firmemente os princípios da Carta das Nações Unidas”, pediu.

Sem mencionar a proposta de Putin, Von der Leyen defendeu ainda que "congelar o conflito hoje, com tropas estrangeiras a ocupar o território ucraniano, não é a resposta" que Kiev precisa. "É a receita para futuras guerras de agressão", advertiu.

Em alternativa, sugeriu, "temos de apoiar uma paz abrangente, justa e sustentável para a Ucrânia". "Uma paz que restabeleça a soberania e a integridade territorial da Ucrânia", acrescentou.

Já o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu o alargamento do círculo de países que participam nas conversações para um plano de paz para a Ucrânia. Para o líder francês, uma das principais prioridades das conversações de paz deve ser garantir a segurança nuclear em torno da central de Zaporizhzhia. Os aliados também devem "não aceitar qualquer complacência em relação aos ataques contra alvos civis e infraestruturas na Ucrânia", disse. "Estes são crimes de guerra", denunciou.

Já o ministro dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita, Faisal bin Farhan Al Saud, argumentou que quaisquer conversações de paz credíveis sobre a guerra na Ucrânia vão ter invariavelmente de contar com a participação da Rússia, embora admita que tal implicará um "compromisso difícil".

Ecoando as palavras do presidente ucraniano, Marcelo Rebelo de Sousa assinalou que esta cimeira é um “primeiro passo” para a paz na Ucrânia e saudou o facto de estarem presentes “muitos países, de todos os continentes”, tendo sido possível verificar já “uma grande convergência de pontos de vista” entre os diferentes líderes.

Sobre os próximos passos a serem dados num processo que, a determinado momento, terá de envolver a Rússia, Marcelo observou que, “a meio do encontro” na Suíça, “ainda não se apontou precisamente para a etapa seguinte”.

“Há várias propostas quanto à etapa seguinte, vamos esperar para ver qual é aquela que vai ser adotada, no tempo adequado”, afirmou, acrescentando: “É preciso a seguir haver outros momentos, e é importante ouvir aqui países que é evidente que têm uma relação com todas as partes envolvidas, e não apenas com uma, designadamente do mundo árabe, e todos com uma ideia importante: se for possível [a paz] ser mais rápido do que mais lento, melhor.”

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados