opinião
Padre do Opus Dei nos Colégios Fomento e na Paróquia de Ramalde (Porto)

Quantas cervejas posso beber sem pecar? 

19 jun, 15:37
Cerveja e Vinho (Pexels)

Porto, 1 de junho de 2024. Passeio na Foz no Porto. Vejo os preparativos para a festa do S. João. Um final de tarde bonito. Cruzo-me com um grupo de estudantes que me cumprimenta. Falamos da final da Liga dos Campeões que seria essa noite. E veio a pergunta: “Sr. Padre, quantas cervejas posso beber para não pecar?”.

Fez-me pensar. Temos sempre a noção de que tudo o que é bom ou é pecado, ou engorda. O desafio é o equilíbrio. Compatibilizar prazer com liberdade e felicidade. E o equilíbrio chama-se temperança, virtude que modera e ordena a atração dos prazeres e assegura o equilíbrio no uso dos bens.

Vejo pessoas viciadas no álcool. Mais do que esperava. Custa-me ver o Sr. António, um dos sem-abrigo da cidade do Porto, a comprar 1 litro de vinho de pacote. Dorme ao lado de um painel publicitário que anuncia uma cerveja, onde se pode ler: “Seja responsável. Beba com moderação”. Fez-me refletir sobre estas duas atitudes: responsabilidade e moderação. 

1. Responsabilidade, do latim “respondere”, que significa "responder, prometer em troca”. Responder a quem? Ao valor mais elevado da nossa vida. Para alguns a própria consciência, para outros a resposta a uma pessoa que se ama e para muitos a resposta a Deus. A responsabilidade é inseparável da liberdade, portanto, não pode ser confundida com prescrições e leis.

2. Moderação, do latim “modus”, “moderari”, dar uma medida. Implica um equilíbrio. Quem é que dá esta medida? A racionalidade do próprio homem. Por isso, a resposta à pergunta sobre o número de cervejas que posso tomar é sempre de caráter subjetivo. Para um homem de 95 kg habituado a beber álcool, uma cerveja é uma expressão de moderação. Para uma rapariga de 18 anos, 3 cervejas podem ser um excesso. 

Contou-me um jovem há poucos dias: “Foi a reabertura de uma discoteca de uns amigos. Era a festa de Santo António, com bar aberto. Bebi 3 whiskies. Soube a pouco. Veio o 4.º e o 5.º… e nem sei quantos bebi. Na manhã seguinte acordei com uma dor de cabeça horrível e com os livros à minha frente para estudar para o exame do dia seguinte”. E reconhecia: “Não, essa pessoa não era eu. Como é possível que uma parte de mim deseje algo e o considere bom, e outra parte de mim o compreenda como um mal e o rejeite? Vivo uma divisão interior, tenho que educar os meus desejos”.

Animei esta pessoa. Disse-lhe que todos podemos aprender com os erros. Pensei e agradeço a tantas pessoas que me ajudaram. Porque todos precisamos de educar os nossos desejos. Como é que isso se faz? Aqui ficam 4 ideias.
 

  1. Reconhecer os nossos limites. Não é só uma questão de autodomínio que nos trava a partir de fora (não temos sempre bar aberto, não temos dinheiro, não tenho Whisky em casa). É que a moderação ordena-nos “por dentro”. Dá-nos uma segunda natureza (1).
     
  2. Definir os limites. O modo como a razão educa o desejo é muito parecido ao modo como as mães educam os filhos: pedindo moderação na sua atividade. Um limite na mesada, nos gelados, nas horas de telemóvel, nos jogos de computador ou nas saídas à noite. Vou sair à noite? Quantas cervejas? Talvez não me faça bem o Whisky. Se vou beber uma caipirinha, então não bebo vinho ao jantar.
     
  3. Ter uma pessoa amiga por perto. Algumas pessoas que acompanho têm desafios com o álcool por mera pressão social: os outros bebem e eu também. É muito difícil ir contra a corrente. É mais fácil ser moderado com pessoas moderadas. Talvez tenha que mudar os ambientes que frequento. Se calhar, um amigo, um familiar, pode ser uma espécie de co-piloto, com quem fale sobre o consumo de álcool e me ajude a viver o meu estilo de vida, conforme os limites que tracei. 
     
  4. A moderação ajuda-me a lutar por ser mais autêntico. Somos aquilo que fazemos. Reparo que há pessoas que querem ser desportistas, equilibradas, bons cristãos à semana. E mudam de personalidade na 6.ª e sábado à noite. São como o Dr Jekyll and Mr Hyde (2). Têm dupla personalidade. E está cientificamente provado que nós não funcionamos assim (3). 

As bebidas são boas em si: podem inspirar e estimular. Os gregos afirmavam que os homens deviam ter aprendido a fazer vinho como um deus, porque o vinho inspira  estados de alma elevados. A responsabilidade e a moderação tornam-nos mais humanos, mais felizes, disponíveis “para fora”, para ter um impacto. 

Como dizia S. Josemaria, “a vida ganha então as perspetivas que a intemperança esbate; ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos o que nos pertence, de nos dedicarmos a tarefas grandes. A temperança não supõe limitação, mas grandeza”(4).

*** 

Os meus amigos esperam a minha resposta ali naquele bar da Foz. Acabamos a nossa conversa. Pedimos uma cerveja fresquinha, na brisa suave da tarde, num agradável sun set. A presença de Deus fez-se notar. Aquilo com que Deus sonha, não é que não pequemos. Ele quer mesmo que sejamos felizes, com uma cerveja na mão. Oxalá possamos celebrar o S. João e muitos golos de Portugal no EURO 2024 com cerveja. E com responsabilidade e moderação.  

Notas:
 

  1. Num estudo sobre “Romeu e Julieta” (Shakespeare), de René Girard, o autor explica que “o desejo mais intenso apoia-se mais na frustração do que na satisfação. O objeto cuja posse está assegurada não tarda a perder o seu atrativo. Os únicos objetos que continuam a ser desejáveis são os inacessíveis. O desejo obedece sempre a estas leis irrefutáveis: a sua intensidade é inversamente proporcional às perspetivas de satisfação”. René Girard, Geometrías del deseo, Barcelona, Sexto Piso, 2012, pp. 49-50.
     
  2. Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde (O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde/ O médico e o monstro) é uma novela gótica, com elementos de ficção científica e terror, escrita pelo autor escocês Robert Louis Stevenson. Na narrativa, um advogado londrino chamado Gabriel John Utterson investiga estranhas ocorrências entre o seu velho amigo, Dr. Henry Jekyll, e o malvado Edward Hyde.
     
  3. Veja-se, por exemplo, este artigo de Harvard Business Review. Ron Ashkenas, Make the Weekend last all week, diaponível em https://hbr.org/2011/02/make-the-weekend-last-all-week
     
  4. S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 84. Disponível em https://escriva.org/pt-pt/amigos-de-dios/84/ 

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