Violência não é amor. Especialistas explicam como o ato de Will Smith nos Óscares é perigoso

CNN , Megan Marples
3 abr, 20:00
Will Smith subiu ao palco para "bater" em Chris Rock (AP)

"O amor faz-nos fazer coisas malucas." Foi o que disse o ator Will Smith durante o seu discurso de aceitação na cerimónia dos Óscares de domingo.

Isso não deve incluir o recurso à violência, disse Joel Wong, professor e presidente do departamento de aconselhamento e psicologia educacional da Universidade do Indiana Bloomington.

Smith correu para o palco e esbofeteou Chris Rock nos Óscares por fazer uma piada sobre a mulher de Smith, Jada Pinkett Smith, e a sua cabeça completamente rapada. Pouco tempo depois do incidente, Smith voltou ao palco para aceitar o prémio de Melhor Ator e tentou justificar as suas ações, dizendo que foi o amor que o fez fazê-lo e que estava a proteger a família. Pinkett Smith sofre de queda de cabelo devido a alopecia.

Quando um homem que encarna comportamentos masculinos pouco saudáveis como a violência vê um membro da família a ser atacado, muitas vezes toma-o como uma afronta pessoal à sua honra, disse Wong.

A família, especialmente o seu cônjuge, é vista como uma extensão de si mesmo, por isso insultarem a sua esposa ou insultarem os seus filhos é visto como um insulto a si, disse Wong.

Para alguém com esta mentalidade, a única forma de preservar a sua honra é reagir de uma forma pública e social, acrescentou. O acontecimento tem de estar disponível para visualização para que as pessoas saibam que a sua honra foi restaurada.

No caso de Smith, 15,3 milhões de espectadores dos Óscares, juntamente com milhões de espectadores na internet, viram a sua resposta.

A vergonha pode também ter desempenhado um papel, disse Wizdom Powell, diretora do Instituto de Disparidades de Saúde e professora assistente de Psiquiatria na UConn Health em Farmington, no Connecticut.

Smith pode ter sentido vergonha ao rir-se da piada antes de ver o desagrado da mulher, ou sentiu a sua vergonha, disse ela.

É menos socialmente aceitável que os homens sejam vulneráveis, por isso, podem tentar recuperar o controlo de forma violenta, explicou Powell.

Amor como bode expiatório para a violência

Para os sobreviventes de violência doméstica, a retórica de Smith foi demasiado familiar. Quando alguns homens agem violentamente, afirmam que é em nome do amor verdadeiro, de acordo com um estudo publicado na Revista Internacional de Investigação Ambiental e Saúde Pública.

As pessoas que levam a cabo maus comportamentos muitas vezes têm a ligeira sensação de que estão a comportar-se de uma forma que pode não ser consistente com quem são, disse Wong.

Têm de encontrar uma forma de justificar o que fizeram e fazer com que a decisão pareça justificada, explicou.

Acho que é importante que as pessoas lhe chamem o que é e não deixem que Will Smith saia impune ao dizer que foi tudo por amor, disse Wong.

Durante toda a vida dos nossos filhos, ensinamos-lhes que o amor não deve magoar, disse Powell.

Sempre que equiparamos o amor com violência física ou agressão, existe o perigo de esses limites poderem ficar desfocados, disse.

Quem enfrenta violência doméstica tem recursos disponíveis para apoio por parte de organizações como a Linha Nacional de Violência Doméstica.

A violência nunca é aceitável. Se alguém que sofre de violência doméstica se sentiu afetado pelos eventos da noite de domingo, na 94.ª edição dos Óscares, a Linha Direta está aqui para si 24 horas por dia, 7 dias por semana. Saiba mais em www.thehotline.org, disse Sharon McBride, representante da NDVH, por e-mail.

(Em Portugal, o Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica é gratuito, anónimo e confidencial e funciona 24 horas por dia, através do número 800 202 148).

Como quebrar o ciclo

A mentalidade "machista" está profundamente enraizada na nossa sociedade, por isso, levará tempo para ser “desaprendida”, disse Wong.

Quando um homem age com violência, pode pensar que mais homens aprovam o seu comportamento do que o que realmente acontece, disse.

Na realidade, a maioria das pessoas não acredita que os homens devam ser agressivos, de acordo com um estudo de 2020 realizado por Wong.

Uma das medidas mais essenciais para se iniciar uma mudança cultural implica os espectadores condenarem os atos violentos, o que é conhecido como comportamento positivo do espetador, disse.

É muito importante que os homens digam que não participam neste tipo de coisas, disse Wong, porque é uma forma prática de minar comportamentos masculinos pouco saudáveis.

Também é fundamental fazer a distinção entre homens e comportamentos masculinos pouco saudáveis porque não estamos a atacar os próprios homens, disse Wong. Queremos celebrar a bondade dos homens e também expressar preocupação quando os homens exibem comportamentos que têm que ver com normas masculinas pouco saudáveis.

A cultura de honra masculina e as normas masculinas são muitas vezes incutidas nos rapazes ao longo do tempo, pelo que a solução precisa de começar por aí, disse Ronald Levant, professor emérito de Psicologia na Universidade de Akron no Ohio.

Quando os homens são jovens, são ensinados a não chorar nem a mostrar emoções, disse Levant. Pessoas como professores, treinadores, pais e outros cuidadores precisam de ter em conta a mensagem que estão a enviar aos rapazes sobre a masculinidade.

Eles têm de saber que não é obrigatório, que podem ser quem são, e que não há um conjunto de traços de personalidade pré-determinados que tenham de seguir, disse Levant.

Meninos e meninas podem ser igualmente emocionais, mas quando os rapazes são aconselhados a "aguentar com isso" ou "a ser homem", isso mina a sua capacidade de ser vulnerável e mostrar emoções, disse Powell.

Os adultos precisam de ensinar aos rapazes a serem vulneráveis e a usarem as palavras num conflito em vez dos punhos, disse.

Esse é o tipo de conversas que nos levarão a uma sociedade onde homens e mulheres são livres de experienciar um leque completo de emoções que evitará que a falta delas seja sobrecompensada pelo recurso à violência, disse Powell.

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