Demissão de Mithá Ribeiro. "O ideólogo da nova vaga do Chega" perdeu para "o Venturismo"

24 ago, 14:41
"Rejeitar-me é de alguma forma a rejeição de um moçambicano que assumiu a identidade portuguesa". A reação de Gabriel Mithá Ribeiro

ANÁLISE. O partido que conseguiu eleger 12 deputados nas últimas eleições continua a sofrer "dores de crescimento" internas. O especialista José Filipe Pinto analisa o momento do Chega e o que pode vir a ser a "concentração" de poderes no líder

Gabriel Mithá Ribeiro apresentou a demissão da vice-presidência do Chega na segunda-feira, depois de ter sido afastado do cargo de coordenador do gabinete de estudos do Chega por André Ventura, que ficou “provisoriamente” à frente do mesmo até à realização de um Conselho Nacional. Para o professor catedrático da Universidade Lusófona José Filipe Pinto, estes movimentos são resultado de uma ausência de “densidade ideológica” num partido que está a tentar construir-se à volta da figura do líder.

“O Venturismo ainda não é uma ideologia. Hoje não há Venturismo, mas há uma liderança centralizada em André Ventura. O Chega ainda não tem a densidade ideológica de um partido populista cultural e identitária. Isto explica o perigo da demissão de Mithá. O ideólogo da nova vaga do Chega não se revê no Venturismo e André Ventura não admite o questionamento interno. Este é um partido centralizado”, considera o politólogo.

O papel de construção dessa “densidade ideológica” estaria a cargo de Gabriel Mithá, que já tinha sido responsável pelo programa eleitoral que o partido levou a votos nas últimas legislativas, em que o partido elegeu 12 deputados e se tornou a terceira força política a nível nacional. Nesse sentido, José Filipe Pinto acredita que Gabriel Mithá poderá ter compreendido que “o Venturismo está a tentar instalar-se com o culto do líder a subordinar todos os órgãos do partido” e não concordar com essa visão para o partido. Algo que se viria a tornar publico, com o deputado do Chega a partilhar uma publicação de Pedro Arroja, que foi mandatário nacional do Chega, e que disse estar “dececionado” com os últimos meses de trabalho do partido na área da Justiça, um setor particularmente sensível para o líder.

“Mithá estava a afastar-se da proposta de André Ventura. Mithá estava ciente que não ia continuar coordenador do Gabinete de estudos do Chega ao fazer aquela publicação. A menos que fizesse um mea cupla. O gabinete de estudos era uma forma de ver como se implantava o partido no país e qual a sua matriz ideológica. Este papel é um papel fundamental. O que acontece é que, com esta saída, é André Ventura que ocupa a liderança. E este é o caminho de todos os partidos populistas identitários do mundo. Nada é feito sem o consentimento do líder”, acrescenta.

O professor catedrático refere também a existência de dois projetos dentro do Chega: um representado por Gabriel Mithá Ribeiro e outro liderado por Diogo Pacheco de Amorim. Este último "muito ligado a movimentos anteriores e simboliza uma evolução na continuidade", numa altura em que o Chega precisa de conquistar o seu próprio espaço no panorama político português. Já Gabriel Mithá Ribeiro representava para o partido uma dupla mais-valia. A primeira "do ponto de vista ideológico", oferencendo elementos ideológicos ligados ao nacionalismo. E, por outro lado, José Filipe Pinto considera que o político representava uma vantagem para o partido contra os ataques que acusam o Chega de ser racista e xenófobo. O facto de o deputado ter ascendência moçambicana era utilizado pelo partido como resposta, refere o especialista. 

Ventura sublinhou que o Chega se prepara para uma “profundíssima reestruturação” que vai afetar “a base do partido”. José Filipe Pinto acredita que, em vez de uma descentralização, o partido vai passar por um processo de “concentração” de poder, com a figura de Ventura “omnipresente nos órgãos locais do partido, com um modelo vertical, onde ninguém vai poder criticar o líder”. Recorde-se que, desde novembro de 2021, seis membros abandonaram as suas funções no Chega: antes de Mithá Ribeiro, já Cidália Figueira, Tiago Sousa Dias, Eugénia Santos, Lucinda Ribeiro, Nuno Afonso o tinham feito.

“A implantação do Chega no país não vai ser feita de baixo para cima, mas, pelo contrário, com um modelo imposto de cima para baixo. Um modelo traçado de forma que o modelo do líder seja incontestável”, explica o especialista, que alerta que os efeitos desta decisão interna no eleitorado devem ser mínimos: "O eleitorado fiel a Ventura e à sua forma de fazer política não vê no afastamento das vozes dissidentes um problema."

“O Chega é um partido de um só homem. Não há muito mais ideias no Chega. É um exemplo nítido do mau uso do poder. Quer uma forma nova de fazer política, mas no final é um autocrata”, frisa o especialista.

Após a demissão, André Ventura e o deputado chegaram a ter uma reunião marcada, mas Mithá Ribeiro acabou por não comparecer, "por entender que de momento não estão reunidas as condições". O líder do Chega desdramatizou a situação, garantindo que continua a contar com Mithá Ribeiro como deputado.

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