Durante o sono há uma parte do cérebro que ensina outra (e é assim que nascem memórias de informações novas)

30 out, 19:00
Dormir

Criação de ‘cérebro artificial’ permitiu perceber como é que informações do dia-a-dia conseguem ficar na memória - e como há uma parte do cérebro responsável por isso

Num dia, são infinitos os episódios vivenciados, mas há situações que acabam por ficar na memória, um fenómeno que até agora os cientistas não conseguiam entender como acontecia. Até que foi criado um ‘cérebro artificial’ que mostra que durante o sono há uma parte do cérebro que se dá ‘ao trabalho’ de ensinar outra, encaminhando informações novas para as ‘gavetas’ das memórias a longo prazo. 

A conclusão é de um estudo da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences, que recorreu a um modelo computacional de rede neural que simula funções de aprendizagem e memória. Na prática, os cientistas criaram uma espécie de cérebro capaz de simular a ação do real, um modelo composto por um hipocampo - que no cérebro verdadeiro cria novas memórias e aprende com informações do dia-a-dia - e por um neocórtex - parte do cérebro real ligada à cognição, à fala e às memórias de longa data. 

Através deste modelo, que permite simular e analisar a ação dos neurónios durante o sono, os cientistas perceberam que no sono de ondas lentas (as três primeiras fases, conhecidas por não-REM) o cérebro ‘passa a pente fino’ os incidentes e dados recentes do dia e, guiado pelo hipocampo, já na fase de sono REM (que dura 10 a 60 minutos), o cérebro repete o que aconteceu anteriormente e guarda as memórias recém-criadas nas regiões neocorticais, o chamado neocórtex. E dizem os cientistas que sem esta próatividade do hipocampo, as situações mais recentes não ficaram na memória.

Na prática, lê-se na publicação feita pela universidade no seu site, “à medida que o cérebro passa pelo sono de ondas lentas e movimentos rápidos dos olhos (REM), o que acontece cerca de cinco vezes por noite, o hipocampo ensina ao neocórtex o que aprendeu, transformando informações novas e fugazes em memória duradoura”.

“A pessoa codifica novas experiências enquanto está acordada, vai dormir e, quando acorda, a sua memória de alguma forma foi transformada”, explica Anna Schapiro, neurocientista da Universidade da Pensilvânia e uma das autoras da investigação, que diz que o estudo reforça também a importância que o sono tem para o bom funcionamento do cérebro.

Os cientistas defendem que mais estudos são necessários para perceber ao certo como este fenómeno acontece, mas acreditam que deram um passo para uma maior compreensão sobre o efeito do sono nas memórias, o que poderá ajudar na procura de novos tratamentos psiquiátricos.

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