Nos bastidores com Cavaco Silva: "Abri uma exceção para dar esta entrevista, não sei se voltarei a abrir outra no futuro"

3 jun, 18:30
Maria João Avillez entrevista o ex-Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva

“Só a CNN é que me convencia a fazer isto”. Cavaco fala no seu escritório, em Lisboa, respondendo às perguntas da jornalista Maria João Avillez. Falou do PSD, dos governos socialistas e dos netos. Para ver esta sexta-feira no Jornal das 8 da TVI e às 22:30 na CNN Portugal

"Foi provocadora", comenta Cavaco Silva para Maria João Avillez, assim que a entrevista termina. A jornalista sorri. "Tinha que lhe fazer as perguntas, é o meu trabalho", responde, já com as câmaras desligadas e com visível satisfação pela forma como tinham decorrido aqueles 45 minutos, em que se falou do passado e do futuro do PSD, da política dos governos de António Costa, da regionalização e até da guerra na Ucrânia.

"Antes de fazer a entrevista disse que 'prognósticos só no fim', agora já posso dizer que excedeu nalguns momentos a minha melhor expectativa", confessa Avillez no final. "Por causa da acutilância, por causa da franqueza, por causa dos temas e por causa de uma certa desenvoltura intelectual, política, cívica que muito me agradou. Por falar francamente em política. Não é muito comum em Cavaco Silva", explica a jornalista.

O antigo Presidente faz questão de sublinhar a raridade do momento: "Há muito tempo que não dou entrevistas. É uma exceção muito grande. Só a CNN é que me convencia a fazer isto", diz, brincando com o facto de ter "perdido a prática" e já não saber bem para onde é que há de olhar. "Abri uma exceção para dar esta entrevista e não sei se voltarei a abrir outra no futuro."

Por sua escolha, a conversa acontece no escritório, localizado entre Santos e Alcântara, que Aníbal Cavaco Silva ocupa desde que saiu da Presidência da República. Lá fora, o burburinho habitual de uma manhã de sexta-feira nas ruas de Lisboa. Cá dentro, uma manhã pouco habitual, com o escritório todo desarrumado para caberem as câmaras e as luzes, cabos espalhados pela escadaria de pedra. Pouco antes das 11:00, o professor espreita por uma das portas para ver o que ali se passa: "Conseguiram desmontar isto bem", comenta. A essa hora, já a jornalista tinha chegado e estava quase pronta para começar, verificando todos os pormenores com o realizador e lançando um último olhar para as três folhas de papel com as suas anotações.

"As entrevistas são sempre especiais. Cada entrevista, naquele momento, é a mais especial que estou a fazer, seja com quem for", diz, confessando que, apesar de tantos anos de experiência, tem sempre "algum nervosismo" antes: "Mas depois, no minuto em que tenho de começar, desaparece, é uma nuvem que se dissipa".

Trata-se, na verdade, de um reencontro. Maria João Avillez, que é atualmente comentadora da CNN Portugal, entrevistou Cavaco Silva pela primeira vez, ainda antes de ele ser primeiro-ministro no Governo minoritário. "De então para cá, entrevistei-o muito mais do que uma vez, quer como primeiro-ministro, quer depois como Presidente da República", conta Avillez. "O jornalista nunca diz que está a jogar a casa, mas é um político e um cidadão que eu conheço." Mesmo se ainda se questione se deva chamá-lo por professor ou por Presidente.

Situado numa das alas de um antigo palacete, pertencente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, o escritório é claramente um espaço de trabalho, com um sala de reuniões e uma zona mais reservada, com uma secretária e um computador, estantes com livros e muitas fotografias que ilustram a longa carreira política de Cavaco Silva, que foi primeiro-ministro de Portugal entre 1985 e 1995 e depois de uma primeira derrota, contra Sampaio, foi finalmente eleito para dois mandatos como Presidente (2006-2016). Ali estão fotos de Cavaco com, entre outros, os presidentes americanos Ronald Reagan, Bill Clinton e Barack Obama, com os Papas João Paulo II e Bento XVI, com Durão Barroso e Sá Carneiro (de quem foi ministro das Finanças).

Há também recordações do seu gosto pelo desporto, algumas fotografias com a mulher e uma com os netos. Aos 82 anos, o professor de Economia, conhecido pela intransigência no que toca à gestão financeira, mostrou um pouco do seu lado mais pessoal no final desta conversa, ao falar, precisamente, da "balbúrdia" boa que os netos trouxeram para a sua vida: "A minha família é o pilar da minha vida. Os meus cinco netos são a força viva desta família, uma família unida. Os meus netos são uma presença frequente na minha casa. Eles são a fonte da minha felicidade. Nós, eu e a minha mulher, consideramos que somos pessoas felizes. Estamos muito satisfeitos com a vida e isso deve-se muito à nossa família. Os meus netos são o meu laço mais forte".

Antes disso, a conversa tinha sido sobretudo sobre política. "Nas últimas eleições legislativas, as coisas não correram muito bem para o PSD", comenta Cavaco Silva, sem querer, no entanto, entrar em grandes detalhes na análise à liderança de Rui Rio. Prefere antes falar do futuro e de Luís Montenegro, o novo presidente do partido: "Vejo nele uma pessoa séria e honesta, empenhado em unir o partido e em criar uma alternativa credível ao Partido Socialista", diz, sublinhando que tem "um olhar de esperança e de confiança no que vai ser o futuro do PSD nos próximos anos".

 

Mais do que falar do PSD quer falar do rumo do país, que é o que mais o preocupa, diz: "As políticas seguidas pelos governos socialistas, sobretudo da geringonça, criaram dificuldades à concretização dos sonhos das futuras gerações".

Sobre o artigo que publicou esta semana no Observador - uma carta enderaçada ao primeiro-ministro António Costa, revela que o tinha escrito há mais de um mês e que só a mulher sabia da sua existência, mas decidiu esperar pela aprovação do Orçamento de Estado para publicá-lo: "Não queria contaminar o debate do orçamento". Mais do que uma intervenção política, vê estes seus artigos como o exercício dos seus "deveres de cidadão".

No final, já sem microfone ligado, Cavaco Silva esclarece que o seu silêncio habitual não tem nada a ver com algum desentendimento que tenha com os jornalistas: "É verdade que os jornalistas não gostam muito de mim, mas não me incomoda nada. Sempre entendi que na vida política devo ser independente em relação aos jornalistas, eles fazem a tarefa que lhes compete e eu respeito, e eu como político faço aquilo que entendo que é correto fazer. Mas tem de haver aqui uma separação. Nos dez anos como primeiro-ministro, e depois nos dez anos como Presidente da República, eu nunca telefonei a um único jornalista. Para contactar o meu gabinete havia assessores e eram eles que tratavam desse assunto".

Por seu lado, Maria João Avillez faz um balanço positivo: "Foi uma óptima entrevista dele. É uma pessoa que não guarda o mais pequno rancor, explicou as divergências que o opõem a certas pessoas, que são sempre divergências políticas e nunca pessoais. É uma pessoa que sabe muito bem aquilo em que contribuiu para o país, muito lúcido, em ótima forma física e intelectual", diz. "Fica sempre alguma coisa por dizer, fica sempre algo por perguntar porque o próprio encadeamento das perguntas e das respostas conduz para um lado, provavelmente se eu tivesse começado de outra maneira iria para outro. Para mim, uma entrevista é sempre uma sinfonia incompleta, o que não quer dizer que seja má."

A jornalista - que ultimamente se tem dedicado mais ao comentário político do que a fazer as entrevistas de que tanto gosta - confessa que "tinha imensas saudades disto, nem posso quantificar que não há números que quantifiquem isso", diz, garantindo que, se tudo correr bem, haverá mais entrevistas a caminho.

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