O funk entrou na política. Anitta, Pabllo Vittar ou Ludmilla apoiam Lula e têm "um impacto enorme" nos brasileiros

1 out, 23:00
Anitta (Twitter)

Género musical que nasceu nas favelas do Rio de Janeiro esteve sempre ligado à denúncia da pobreza, da exclusão ou do racismo. Na campanha para as eleições brasileiras deste domingo, o funk escolheu um dos lados

“Quem é essa menina de vermelho/Eu vim pro baile só pra ver/Ela rebolando até o chão”. Quando Gloria Groove escreveu “Vermelho”, um dos seus maiores hits, não tinha certamente Lula da Silva como inspiração. Mas a canção, que partilha a mesma cor do Partido Trabalhista, acabaria por ganhar um outro significado. É agora um dos hinos de apoio a Lula. E, se dúvidas houvesse, num dos concertos recentes, a drag queen assumiu a mensagem política. Enquanto cantava, os dedos formaram um L, de Lula.

O funk brasileiro, que ganhou força dentro e fora de portas, é hoje uma arma política num país extremamente polarizado. Ainda visto por muitos como um género pobre, de qualidade duvidosa, foi-se soltando das periferias da favela e assumindo novas centralidades – inclusive no palco da política. Mas pode dizer-se que é uma arma política? Cada vez mais.

“No sentido tradicional, o funk não é um movimento político. Mas tem elementos importantes para pensar essa relação com a política, pela forma como faz denúncias da situação social, como traz questões do quotidiano das comunidades periféricas, um conjunto de experiências e visões do mundo. O funk amplia, através das letras e das músicas, a nossa visão do que é o Brasil”, explica Simone Pereira de Sá, investigadora da Universidade Federal Fluminense.

O género, nascido nas favelas do Rio de Janeiro na década de 1980, foi-se transformando no contacto com outras realidades. A cultura digital acelerou-lhe o ritmo. Mas, na essência, ele sempre foi político: no relato da vida de exclusão e pobreza, da insegurança e abusos policiais, da reclamação do acesso aos direitos mais básicos da vida, na normalização do prazer sexual. E, com tudo isso, no desejo de uma transformação social.

"Envolver", canta Anitta

Ela é a maior estrela brasileira do momento. E, nos últimos tempos, também uma ativista política. Anitta insiste que não é "petista", mas sabe bem em quem votar a 2 de outubro: Lula da Silva. É também nesse sentido que quer levar os seus milhões de seguidores nas redes sociais.

“Anitta já se vinha convertendo num agente político. Em 2018, ela demorou a se manifestar contra Bolsonaro. Foi cobrada por isso. Durante a pandemia, foi-se politizando. E agora, no momento em que manifesta o apoio ao Lula, isso tem um impacto enorme”, resume Simone Pereira de Sá.

E a campanha de Lula da Silva soube bem aproveitar o apoio, reagindo de imediato no Twitter. “Vamos juntos envolver o Brasil”, escreveu o candidato. “Envolver”, o nome de um dos temas mais marcantes de Anitta.

Mas, além das letras e dos apoios declarados, os funkeiros estão a reforçar Lula da Silva das formas mais criativas. Uma delas é o “resgate” da bandeira do Brasil, fortemente apropriada pelos apoiantes de Bolsonaro. Foi o caso de Ludmilla no concerto que deu em setembro no Rock in Rio. Trata-se, explicou, de recuperar a essência e o “orgulho” de ser brasileiro, com elementos que há muito fazem parte da estética das periferias do Brasil, como as camisolas da seleção nacional de futebol.

Cantar para os políticos

Mesmo que o consumo deste género musical tenha crescido astronomicamente em todo o mundo, ele não se livra das tentativas de censura e de criminalização – tal como aconteceu com a capoeira e o samba. “A grande maioria dos políticos conservadores é contra: criminaliza, pega as letras e usa isso como forma de engajamento dos seus elementos”, reforça Simone Pereira de Sá. 

Em última instância, o que está em jogo no funk é a afirmação da diversidade. Uma das canções mais conhecidas, de Cidinho & Doca, lançada em 1995, começa com um “Eu só quero ser feliz/Andar tranquilamente na favela onde eu nasci”. Traça o desejo de segurança, do fim das invasões policiais das favelas do Rio de Janeiro.

Nos últimos anos, no funk, entraram em força também as vozes femininas e da comunidade LGBT, reclamando uma centralidade para as causas que defendem. Uma delas, MC Carol, em “100% Feminista” reclama um outro papel para a mulher, longe das agressões físicas por não cumprir com as tarefas domésticas. “Represento Nina, Elza, Dona Celestina”, canta ela, com a certeza de que “a falta de informação enfraquece a mente”. Trata-se de empoderamento feminino, liberdade, combate à desigualdade.

São essas realidades que os artistas funk colocam na praça pública, na expectativa de que o debate obrigue à discussão, a leis, a mudança. Os políticos são sempre os derradeiros destinatários.

“Volta e arruma nossa história”

“Até ao fim do ano, volta / Volta e arruma nossa história / Já não sei esperar / Aqui é o seu lugar”. Quando Lukinhas e Pabllo Vittar, outro dos grandes nomes da música brasileira além fronteiras, lançaram “Volta para Ficar”, em agosto, as redes sociais não tardaram a encontrar um lado político na canção.

“Ah, já te liguei umas 13 vezes. Só queria dizer que estou com saudades”, começa a canção. Treze é o número da campanha de Lula da Silva. No videoclipe, os artistas surgem vestidos de vermelho, num cenário vermelho, a cor do PT.

Se há mensagens mais subliminares, há outras onde a componente política é mais do que assumida, mesmo que sem a escala das grandes estrelas brasileiras. Em “Lula 2022”, MC Renan começa por questionar a subida no preço dos alimentos e deixa uma promessa: “Nós vai votar no Lula, eu e minha família, se o Bolsonaro não baixar a gasolina”. “A solução é trocar o presidente”, resume.

Já MC Lil e MC Koban, em “Traz de Volta o Lula e manda embora o Bolsonaro”, começam a música a criticar a ação de Bolsonaro durante a pandemia de covid-19. O aumento do custo de vida – e as dificuldades a ele associados – também não são esquecidos.

O funk também chegou à política, de uma outra maneira, no Brasil. A cada disputa, multiplicam-se os candidatos que apostam em “jingles” de campanha que recuperam o ritmo funkeiro. A letra, geralmente, destaca as suas qualidades. Com o Tik Tok, há também quem se aventure nas danças virais.

Mas, se os políticos parecem piscar o olho aos jovens com esta estratégia, não estão a convencer: “Temos de pensar numa outra questão, que é a coerência expressiva. Um político que a vida inteira falou mal do funk querer usá-lo, parece que não cola”, explica Simone Pereira de Sá.

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